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Crítico (5 não lidos)
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Crítico » Publicado em: 14/05/2008 15:05
A Raumklang, pequena editora alemã, lança mais um trabalho de excelência absoluta. Escrevo sobre o disco dos Trinity Baroque com a direcção de Julian Podger no disco "Motetten" (disco RC2601 da
Raumklang).
A interpretação é de uma vibração extraordinária, o baixo contínuo de uma profundidade imensa, utilizando um grande órgão histórico. As frases, as vogais, as ressonâncias, os detalhes mais ínfimos são explorados de uma forma tão perfeita que este disco, além de uma extraordinária revelação, passa imediatamente a ser uma referência incontornável nestas obras de Bach. A excepcionalidade deste disco não é ensombrada por se tratar de uma interpretação a uma voz por parte. O próprio autor do projecto, Podger, reconhece que estes motetes deveriam ser interpretados por um coro, mas a realização musical e retórica é tão forte e tão bem realizada que esta experiência, como os autores lhe chamam, resulta numa trabalho onde se atinge a perfeição.
A comprar, a ouvir, a reouvir, a pensar e repensar.
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Crítico » Publicado em: 13/05/2008 21:05
Idomeneo de Mozart em versão de concerto, dirige Fabio Biondi. Europa Galante e coro Opera Seria. cantores: Ian Bostrige (tenor) em Idomeneo Emma Bell (soprano) - Elettra, Jurgita Adamonyte (meio-soprano) - Idamante, Kate Royal (soprano) - Ilia e Benjamin Hullett (tenor) - Arbace.
Fundação Calouste Gulbenkian, segunda feira 12 de Maio, 19h.
Primeira nota. Não conhecia o Coro "Opera Seria Chorus", nem fiquei a conhecer, não descubro este agrupamento em lado nenhum e não figura nenhum currículo do agrupamento no programa da Gulbenkian. Um agrupamento em estreia na Gulbenkian? Ou será mais um coro ad hoc criado para esta tournée do Idomeneo?
Segunda nota: Direcção trapalhona de Biondi, sem exactidão, atrapalhado a virar páginas, atrapalhado a dar entradas, tocando umas notas aqui e ali sem o menor critério.
Terceira nota: a posição da cravista era simplesmente surrealista, de costas para maestro e cantores solistas, sem ser vista por estes nem vendo os mesmos, virada para os contrabaixos e violoncelos...
Quarta nota: um naipe de trompas excepcional, impecável Dileno Baldin na primeira trompa. Oboés fraquinhos chefiados por um Beaugirard muito irregular.
Quinta nota: coro indiferente, frio e pouco coeso, vozes brancas e pouco interessantes, sem paixão nem glória, sem exactidão nem paixão. Foi a elegância fria de um Mozart sem verve.
Sexta nota, vozes solistas:
1. Ian Bostridge incapaz para o papel, sem dramatismo, cantando de pescoço torto e de boca à banda, o que é ensinado por qualquer especialista em canto como muito prejudicial para uma boa emissão. Voz sem cor nem brilho, agudos muito baços, graves mais roucos do que baritonais. Muita frieza, algum maneirismo, muito bater de pé no chão ("quem não tem o ritmo no coração bate com o pé no chão") e muito pouca inteligência mozarteana, sempre com muita falta de souplesse.
2. Emma Bell, voz cansada e roufenha, descontrolo vocal, fortíssimos deslocados e disparatados, histeria e vibrato de arrepiar. Graves desgrenhados, agudos sem brilho. Apenas uma voz grande sem alma nem estilo, conseguiu superar um pouco a mediania na ária final, onde foi salva pela histeria da própria ária.
3. Jurgita Adamonyte foi a surpresa da noite, elegante, sóbria, utilização com uma contenção extraordinária da voz, subtil doseamento de um vibrato muito suave e aplicado apenas como recurso estilístico e não como ferramenta essencial para disfarçar o descontrolo vocal. Mozarteana de primeira água, leu com grande elegância quer nas árias como, sobretudo, nos recitativos. Tem uma voz doce, jovem e bem timbrada. Belíssima prestação.
4. Kate Royal, nem tão mal como Bell, ou tão descolorida como Bostridge, entrou desastrosa, voz fria, cansada nos graves, vibrato arrepiante nos agudos, berrou como pode. Depois foi-se contendo, mostrou cansaço vocal ao longo de toda a noite mas nas árias mais suaves e doces conseguiu mostrar sensibilidade e bom senso. Chegou a encantar no terceiro acto.
5. Benjamin Hullet foi muito sóbrio. Seguro, de voz bonita, sem maneirismos, cantou com grande segurança. Tem belos agudos e mostrou um belo estilo, sendo no entanto algo quadrado na interpretação das subtilezas mozarteanas. Tem um excelente futuro à frente se não começar a cantar tudo o que lhe aparece.
6. Resumo dos solistas: na sua maioria uma desilusão. Royal e Bell, apesar da sua juventude, mostram vozes marcadas por inúmeras interpretações em todo o lado, sem critério nem olhando a estilo interpretativo ou propriedades da voz.
Nota sete: orquestra fraquinha nos violinos, de som débil, em alguns casos, e pouco coesos, nada ajudados por uma direcção perfeitamente inacreditável de Biondi. Biondi pode ter trabalhado bem nos ensaios, mas em concerto a coisa só não foi um desastre total porque os músicos conseguiram ir ignorando indicações imprecisas, entradas fora de tempo dadas atabalhoadamente (mas tardiamente) porque antes tinha estado a dar umas notas no violino ou a virar a página com a única mão livre, gestos sem significado, entradas dois a três compassos antes do tempo, saindo do pódio para se colocar frente a frente com solistas como se estivesse a dirigir a banda do conservatório da aldeia. Felizmente os cantores, apesar da trapalhada de Biondi, lá foram entrando de forma segura.
Nota oito: Fabio Biondi deve decidir entre tocar violino ou dirigir... Podia dirigir sentadinho na primeira estante, o pior era o coro lá atrás, mas nessas passagens deixava o violino também sentadinho e dirigia de pé com as duas mãos. Imagine o leitor se o Fabio Biondi tocasse tuba ou contrafagote! Talvez ainda se safasse com um sousafone... pelo menos seria divertido.
Nota nove: nota-se que Biondi pretendia uma visão tumultuosa e apaixonada de Mozart. "Radical" dizia-me um amigo; conseguiu alguma agitação mas sempre à custa da coesão, da falta de transparência e, sobretudo, sem a menor elegância. A direcção de Biondi não destruiu Idomeneo de Mozart porque a música é tão bela e tão bem construída que se deixa sempre levar até ao fim e porque muitos dos elementos presentes na orquestra, coro e cantores solistas, foram suficientemente seguros e estavam preparados. Creio, ainda, que o trabalho de ensaio não deve ser tão absurdo como esta direcção com arco de violino, umas notas aleatórias dadas aqui e ali e uma mão direita polivalente que tudo consente. Por outro lado as sonoridades dos instrumentos são tão belas que o encanto acaba por se estabelecer. No entanto o disparate absurdo que começou na colocação do cravo e uma direcção errática e trapalhona foram, claramente, inimigas de uma interpretação de altíssimo nível.
Muito mais haveria a afirmar, saí da Gulbenkian com um certo vazio, esperava pouco mas mesmo assim esperava muito mais do que aquilo que escutei. Tudo me pareceu pouco coerente, acho este estilo inglês do coro e das vozes entre o muito frio (a maioria) e o exagero (Emma Bell) e pouco dotado para a subtileza e dramatismo deste Idomeneo.
Não penso que este seja um Idomeneo convincente mas acrescento em abono da verdade que preferi ter ido à Gulbenkian do que ter ficado por casa, apesar dos defeitos, Mozart é sempre Mozart e tive algumas boas revelações.
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Crítico » Publicado em: 10/05/2008 13:05
A revista Diapason tem-me desgostado profundamente: a atribuição do Diapason d'Or a um disco pior que miserável de Angela Gheorghiu, a não concessão de mesmo prémio ao disco do Ortiz da Alpha, a crítica imbecil à nova integral de Jos van Immerseel das sinfonias de Beethoven (e se eu já tinha ficado incomodado com as quatro estrelas e meia que "O Público" tinha atribuído...), um Diapason D'Or aos Thallis Scolars, num disco de arrepiar os cabelos, cheio de berros e de falsetes horrendos, de vozes cansadas de senhoras que cantam pior do que beirãs em ranchos folclóricos, foram-me deixando estarrecido e são meros exemplos de uma descida muito acentuada desta revista.
Entretanto soube ontem que a revista foi incorporada no universo Berlusconi. Estou a perceber... veto à Diapason.
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Crítico » Publicado em: 10/05/2008 12:05
Tarefas para realizar na próxima segunda feira:
1. Um novo disco com a Viola Bastarda entre o século XVI e XVII, que me parece excelente pelo pouco que ainda ouvi.
2. Um novo disco de Zelenka.
3. Um novo disco com motetes de Bach.
4. O comentário ao concerto de Fabio Biondi na Gulbenkian, próxima segunda, é o Idomeneo de Mozart. Biondi já foi muito bom, no entanto nas últimas vezes a que assisti ao seu agrupamento, Europa Galante, sob a sua direcção apercebi-me de alguma decadência do grupo musical, com músicos francamente menores, imaturos e provavelmente, económicos, e de escolhas musicais do director francamante discutíveis. Vem com Ian Bostridge mais os seus maneirismos e um grupo de jovens cantores ingleses quase todos, com uma lituana pelo meio, uns mais conhecidos outros menos, que cantam tudo o que mexe desde a Incoronazione di Poppea, Ouro do Reno até The Turn of the Screw ou The Rake's Progress, com Mozart, Handel, Verdi, Puccini e Bach pelo meio, acabando em estreias mundiais de compositores contemporâneos.
A lituana do elenco já cantou Rinaldo e uma estreia mundial em Calígula de Glanert (!) e, apesar de ter um currículo quase nulo de 1133 caracteres (mesmo assim melhor do que inúmeras cantoras portuguesas que conseguem encher páginas e páginas de currículos com palha não abrantina), suscita-me alguma curiosidade. Veremos, sem grandes espectativas, se este cocktail very british, no canto, com uma orquestra "italiana" resulta em algo de estilisticamente interessante e musicalmente de bom nível.
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Crítico » Publicado em: 08/05/2008 02:05
Nasceu nos anos cinquenta, do século XVII bem entendido, na bela cidade morava de Olmütz, hoje Olomouc. Gambista de elevado nível viajou pela Europa tendo assentado em Londres onde foi contemporâneo de Henry Purcell escrevendo a ode "Weep ye muses" aquando da morte deste último...
Depois de um concurso infeliz para a escolha do melhor compositor de ópera em Londres (1701), em que ficou em quarto lugar, abandonou a Inglaterra e viajou por Viena, Berlim, Breslau, (actualmente Wroclaw), Innsbruck, Heidelberg acabando por se fixar em Mannheim, seguindo a corte do duque de Karl Phillipe von Neuberg, onde foi acumulando postos. Conheceu Telemann e Heinichen. Morreu em 1730.
Descobri um disco deste compositor. Tenho adquirido alguns discos de editoras checas ultimamente, devo dizer que este Finger foi uma das pérolas mais interessantes desta pescaria.
Trata-se de um trabalho do ensemble Turbillon com Petr Wagner na viola da gamba. Conhecendo o ensemble Turbillon não me espanta o cuidado na interpretação e a qualidade musical do CD. O que me espanta mesmo é a variedade e força da música de Finger num estilo muito livre, ora num estilo tipicamente alemão, ora num estilo mais italianizante, ora afrancesado, ora boémio, onde Biber se cruza com Marais e onde Purcell não deixa de ter a sua marca, ora a solo, ora com baixo contínuo, a gamba discursa de forma livre e apaixonada mas o melhor é mesmo o stylus phantasticus tão germânico. Na música de Finger perpassa todo o seu cosmopolitismo ao qual não é indiferente a constante peregrinação do compositor por toda a Europa. Todos os estilos de Finger se fundem de forma verdadeiramente encantadora.
Junte-se a isto um bom texto de Robert Rawson, no qual aprendi algumas das coisas que aqui retransmito, e obtemos um CD de muito bom nível.
Finger é um compêndio do barroco. Este disco, chamado pura e simplesmente, "Gottfried Finger" (Sonatae, Baletti scordati, Aria et variationes) da editora ARTA tocou-me com o dedo de Finger.
P.S. Curiosamente Finger atravessou uma série de cidades que eu tanto estimo, desde Olomouc com as suas duas praças barrocas gémeas e que visitei ainda em tempos de fronteiras complicadas e depois revisitei em tempos menos carregados, sempre um pouco abandonada e com erva a crescer entre as pedras das vastas praças da antiga e florescente capital da Morávia imperial, hoje reduzida à condição de pequena cidade de província, até Innsbruck com o seu pequeno centro medieval rodeada por coroas de montanhas cobertas de neve, passando pela Mannheim que eu associo a um Inverno gélido com montanhas de neve atravessada a pé com dez graus abaixo de zero à procura de uma ópera que teimava em deixar-se ficar ao longe, passando pela linda Heidelberg com a sua Universidade onde físicos diligentes estudam, ainda hoje, a dissonância numa perspectiva matemática, passando por Londres e Viena, onde passei dias felizes ou, ainda, pela estranha Breslau, terra de um primo alemão sem pátria, sem cidade, apátrida na sua própria terra, órfão e desenraizado, Wroclaw de terra calcinada pela guerra e vandalizada pelos blocos horríveis das construções em série do "socialismo polaco"... Este Finger tem realmente um dedo que me toca.