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Passa a 6 de Fevereiro o quarto centenário do nascimento do Padre António Vieira, insígne orador, diplomata e religioso do século XVII, "o grande paiaçu" para os índios guaranis, e um dos visionários do Quinto Império.
A Alagamares vai assinalar a data com uma sessão na Casa Mantero (Biblioteca de Sintra, na Correnteza) dia 13 de Fevereiro pelas 21.30h, com entrada livre e para a qual convida todos os interessados, sem necessidade de marcação prévia.
Serão oradores Miguel Real, escritor e José Eduardo Franco, professor universitário, ambos especialistas em Vieira. Serão ainda lidos textos do Padre.
NOTA BIOGRÁFICA
Sacerdote e orador português, natural de Lisboa,onde nasceu a 6 de Fevereiro de 1608, António Vieira partiu para o Brasil, com a família, aos seis anos de idade. Frequentou o Colégio dos Jesuítas, na Baía, tendo ingressado na Companhia de Jesus, em 1623. Ordenado sacerdote em 1634, já então proferira alguns sermões e se iniciara na catequização dos indígenas. Em 1641, viajou para Portugal, integrando a comitiva de reconhecimento e homenagem ao novo monarca, D. João IV.
Veio a conquistar a estima do rei, que o fez seu confessor, conselheiro e pregador da corte, e o encarregou de algumas embaixadas na Europa, ocupando, assim, um lugar de destaque na vida do país. A sua intervenção na política nacional através da actividade de
pregador, que se saldara já por denúncias e críticas à injustiça e à corrupção de colonos e administradores no Brasil, prosseguiu então, com o estímulo do combate à coroa espanhola. Segundo Vieira, deveria proceder-se com maior moderação na perseguição inquisitorial aos cristãos-novos, de forma a salvaguardar os capitais destes e a sua contribuição para a guerra de independência. Tal posição valeu-lhe alguns ódios e o rancor da Inquisição. A sua luta em prol dos direitos dos índios brasileiros originou também reacções por parte dos colonos, evidentes no seu célebre Sermão de Santo António aos Peixes (todo ele alegórico, mas claramente alusivo aos problemas entre indígenas e colonos), pregado, a 13 de Junho de 1654, na cidade de S. Luís do Maranhão, «três dias antes de embarcar ocultamente para o Reino, a procurar o remédio da salvação dos Índios». De regresso ao Brasil em 1652, Vieira foi portador de um decreto de libertação dos índios. Foi esta a sua fase de mais intensa acção evangélica.
Entretanto, tendo falecido D. João IV, seu protector, e tendo deflagrado conflitos entre os colonos e os missionários, estes últimos foram expulsos do Maranhão. Vieira foi obrigado a regressar a Lisboa, em 1661. Data do ano seguinte o seu Sermão da Epifania, constituindo uma defesa dos missionários e um ataque aos colonos.
Apoiante de D. Pedro, foi perseguido pelos partidários de D. Afonso VI. Entretanto, a Inquisição, acusando-o de heresia, instaurou-lhe um processo e prendeu-o, entre 1665 e 1667. As acusações dirigiam-se à crença messiânica e visionária de Vieira. Apoiando-se nas Trovas do Bandarra e nas Sagradas Escrituras, profetizava a ressurreição de D. João IV, a quem caberia a concretização do Quinto Império português, que coincidiria com o reino de Cristo na Terra (crença mítica descrita no texto Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, primeira e segunda vida del-rei D. João IV). Entre 1669 e 1675 permaneceu em Roma e, regressando a Lisboa, iniciou a publicação dos seus Sermões, entre os quais se encontram os célebres Sermão de Santo António aos Peixes (já referido) e o Sermão da Sexagésima, verdadeiro tratado de retórica oratória, objecto de reflexão deste sermão, que denota o perfeito domínio, por parte de Vieira, dos processos da oratória sacra. Regressou à Baía, em 1681, tendo sido superior das missões do Brasil e Maranhão e, ainda, visitador do Brasil (1688).
A obra de António Vieira, de que é indissociável a sua intensa acção como homem público, compõe-se de cerca de 200 sermões, de mais de quinhentas cartas e uma série de documentos de política, diplomacia, profecia, religião, etc. Neles demonstra uma profunda capacidade de análise e denúncia dos vícios humanos, com grande realismo e inteligência implacável na sua acção moralista. Simultaneamente, Vieira foi o visionário do Quinto Império, o idealista utópico e profético de um messianismo em que se conjugavam as crenças sebastianistas tradicionais e as crenças messiânicas de origem
judaica. Em ambos os casos, socorreu-se da sua extraordinária capacidade oratória, pela qual, num estilo claro, sedutor e simples, e segundo os preceitos escolásticos e retóricos da escola jesuíta, recorria a processos pseudológicos de interpretação das escrituras, num discurso fortemente alegórico e metafórico, aplicando os sinais e passagens da Bíblia à realidade sua contemporânea. Os seus textos revelam um grande virtuosismo no domínio da língua e dos seus efeitos no auditório, expandindo cada motivo de forma dialéctica e
envolvente, causando espanto pelas revelações e consequências do seu jogo de raciocínios que, por vezes, se aproximam do maravilhoso.
Exprimiu, de forma exemplar e viva, muitos dos princípios artísticos do barroco, o que levou, no iluminismo oitocentista, a um certo descrédito da sua figura. Considerado frequentemente um dos paradigmas da prosa clássica portuguesa, foi o maior orador sacro do país e, simultaneamente, um dos maiores apologistas do messianismo nacional, que justificava todo o seu empenho na valorização e reforma da economia e na força política do país.
Os seus Sermões foram publicados em quinze volumes, entre 1679 e 1748. Conservam-se também as Cartas (1735), a História do Futuro, Livro Ante-Primeiro (1718) e uma Defesa Perante o Tribunal do Santo Ofício (1957).
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