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Passam a 8 de Dezembro 100 anos do nascimento de José Alfredo da Costa Azevedo. Escritor,cidadão empenhado,sintrense apaixonado, presidente da Comissão Administrativa da CMS após 25 de Abril, vai ser homenageado por um grupo de cidadãos e com o apoio empenhado da Alagamares.
Seguem-se algumas opiniões de quem conviveu com ele.
Mário João Machado,sintrense,antigo chefe dos serviços de Turismo e administrador da SintraQuorum
Conheci o Senhor José Alfredo da Costa Azevedo no final da década de sessenta, quando iniciei a minha actividade profissional nos então Serviços de Turismo da Câmara Municipal de Sintra. O senhor José Alfredo era então, visita quase diária do Turismo, na Vila Velha, local onde, para além de se encontrar regularmente com o chefe dos serviços, senhor Consigliéri Martins, acabava sempre por trocar uns dedos de conversa com o pessoal de serviço no posto de turismo da Vila.
Homem íntegro e de discurso frontal, um verdadeiro Republicano à moda antiga, falava frequentemente de política, num momento em que tal era algo complicado…
Apesar das suas ideias políticas que se opunham frontalmente ao regime, não deixava por esse motivo de merecer o respeito dos seus opositores.
Mantinha aliás um diálogo assaz interessante de seguir nas páginas do Jornal de Sintra, com figuras como a do escritor e director da Biblioteca Municipal, senhor Francisco Costa.
O Zé Alfredo era também um homem atento a tudo quanto se passava em Sintra, em particular na sua Vila-Velha. Criticando e chamando a atenção de quem de direito, para tudo o que na sua opinião, estaria menos bem. Desde o património degradado até outros pequenos aspectos do dia a dia da sua terra. Era como se fosse a voz da consciência dos sintrenses. Os seus textos encontram-se aliás reunidos, na série Vila-Velha, Ronda pelo Passado, obra editada pela Câmara Municipal de Sintra. Mas o Zé Alfredo não foi apenas o escritor, foi também o artista-desenhador e aguarelista, que (na falta de uma máquina fotográfica) para ilustrar os seus textos, acompanhava-os frequentemente com um desenho para um melhor entendimento do leitor.
Era também aguarelista, – as suas aguarelas sobre a Ericeira, local onde passava as suas férias de verão, ficaram famosas!
Sou um dos felizes possuidores de alguns dos seus desenhos e aguarelas, quase todos com dedicatória pessoal.
O senhor José Alfredo foi também o primeiro Presidente de Câmara após o 25 de Abril, na altura comissão administrativa.
Desempenhou essas funções, num momento particularmente difícil e conturbado da nossa história recente, mas simultaneamente aliciante como desafio, com grande desenvoltura, consequência do seu carácter voluntarioso e democrata, e com um enorme sentido de justiça.
Muito mais poderia dizer do saudoso Zé Alfredo, no entanto o que de mais importante recordo e que me serve permanentemente de exemplo, é a sua vincada personalidade como homem honesto e íntegro, como político defensor das liberdades e da democracia, mantendo no entanto um diálogo permanente com todos de uma forma indiscriminada.
O senhor José Alfredo da Costa Azevedo foi, e é seguramente para todos quantos tiveram o privilégio de o conhecer, uma referência incontornável que marcou a nossa existência!
Mário João Machado
João Rodil,escritor,ensaísta,antigo director do Jornal de Sintra:
O grande arquitecto conjugou os astros em iniciática posição, e tu nasceste, lá pelo início deste século nosso, nesta serra Mater que é de Diana, da Lua e de todos aqueles que não duvidam desta vida transcendente que a alimenta.
Sintra cresceu contigo e tu cresceste com ela. Aumentaste-lhe as glórias e cantaste as suas rochas, os verdes e os pergaminhos.
Foste, nesta maternidade de névoas e deuses antigos, homem, político, poeta e artista. E o teu rasto de cometa brilha vivo pela serra, muito além da tua morte, porque não há morte nem tempo na tempestade dos sonhos.
A ESCRITA
A obra é o espelho da vida de um homem. E de uma vida preenchida como a de José Alfredo, só poderia resultar uma obra intensa, paradigma das suas múltiplas vivências e de um olhar atento e interessado pelo mundo que o rodeou. Colaborador no “Jornal de Sintra” desde os primeiros anos de existência deste periódico, foi o escritor compilando e dando a conhecer aos seus leitores a história, as carências e as glórias do concelho. Utilizou o verso satírico para ironizar, figuras e factos, numa espécie de crónica poética jocosa, em que assinava “Zé da Vila”; produziu artigos oportunos alertando povo e dirigentes para a constante degradação do nosso património; realizou, com mão sábia e investigação rigorosa, um projecto continuado que serve, hoje, de base para qualquer estudioso que se interesse pela nossa história, atribuindo-lhe o título, carismático e elucidativo, de “Velharias de Sintra”.
Ainda será prematuro fazer-se um balanço da obra deste grande escritor sintrense. Talvez depois de virem a lume as suas “Memórias”, bem como outros trabalhos que deixou inéditos, possamos, então sim, ter uma imagem mais alargada e precisa deste cronista de olhar atento e excelente prosador.
A PINTURA
Como se não bastasse a amplitude dos quadros vivos que José Alfredo nos ofereceu, através da sua prosa cheia de linearidade, ainda este artista explorou a sua criatividade por outros suportes: a pintura e o desenho. E também aí foi inteiro.
Se através da investigação o escritor penetrou no mais profundo da história de Sintra, o pintor fixou na tela pelo óleo, a aguarela ou o carvão, monumentos e recantos desta Sintra que tanto amou, muitos deles já desaparecidos, o que transporta os seus quadros para lá do seu valor artístico, que é enorme, e coloca-os, simultaneamente, como documentos importantes para o conhecimento do nosso passado.
João Rodil
Jorge Trigo,escritor e historiador
Obrigado amigo José Alfredo
Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente o grande amante de Sintra José Alfredo da Costa Azevedo, mas sei bem o que nos deixou de herança.
Não tem preço o serviço que prestou à comunidade sintrense ao longo de muitos anos, sempre com um espírito de missão, palmilhando lugares, consultando saberes, procurando sem vacilar os vestígios de um passado rico de acontecimentos.
Foi um escritor, investigador, jornalista, autarca, mas acima de tudo foi um exímio e persistente lutador na defesa do património cultural de Sintra, que sem dúvida estaria mais pobre sem a sua afincada acção.
Procurou combater, muitas vezes sem êxito, as “tradicionais” burocracias, as “malditas burocracias que só servem para atrasar tudo”, como ele dizia. Referia frequentemente que, apesar do progresso, “as coisas antigamente andavam mais depressa”.
Era um contador de histórias. Contava-as com paixão aos seus “prezados leitores.”
Não parava de investigar, de procurar descobrir novas pistas para completar as suas histórias e quando as dúvidas persistiam e já dava como esgotadas as tentativas para obter as respostas que necessitava ficava à espera dizendo: “os eruditos que me esclareçam, porque eu não consigo ir mais longe…”
Tinha a consciência de que dos seus inúmeros escritos, alguns haveriam desinteressantes para a maioria dos leitores, mas logo encontrava uma justificação escrevendo: “Tenham paciência! Eu reconheço que estes escritos, por vezes tornam-se um bocado insípidos, mas tudo isto é história da nossa terra.”
Nunca tinha certezas, ou melhor, se dava como certas determinadas informações, ressalvava sempre diferentes posições com o “salvo melhor opinião.”
José Alfredo sofreu muitas agruras porque não podia ficar indiferente aos atentados que constantemente eram, tal como hoje, cometidos ao património sintrense. Nos seus inúmeros e desenvolvidos artigos publicados era frequente perguntar: “Onde vai isto parar?!”, “Mas onde vai isto parar?” e “Não há quem ponha cobro a tais desmandos?” Fazia por vezes pedidos como este: “Se lá forem, não estraguem aquilo mais do que já está. Desculpem o pedido.”
Ás vezes ao fim de muito trabalho de pesquisa sobre um determinado assunto detectava um erro. “Coisas que acontecem”, dizia e recomendava: Vejam a coisa com cuidado e, estou certo, dar-me-ão o vosso acordo.”
Foi um homem justo, honesto, amigo do seu amigo, sempre atento aos trabalhos dos homens e mulheres que, de uma ou de outra forma, contribuíram para o desenvolvimento de Sintra. E reconhecia sempre os autores e impulsionadores das grandes e pequenas obras realizadas em território sintrense, aqueles que “embora lutando contra as tradicionais burocracias” acabavam por concretizar os seus objectivos. E dizia que “com gente desta têmpera” a obra tinha que ser feita…e foi.
Os idosos eram e são a riqueza do passado. Procurava-os com frequência para saber sempre mais sobre as histórias das localidades e dos seus protagonistas. Quando escreveu a História da Praia das Maçãs, José Alfredo procurou uma anciã que lhe tinha sido indicada e que convivia com uma filha. Verificou que era uma simpática velhinha e a sua vivacidade, a sua memória, eram simplesmente extraordinárias. Não deixou de escrever isso mesmo num dos seus artigos e manifestou sentidamente o seguinte:
“Lembrou-me a minha saudosa bisavó, que morreu com 100 anos. Por isso, na despedida, a beijei respeitosamente. Que viva muitos anos!”
As suas ideias eram muitas vezes aproveitadas em prol da comunidade e informava, quando assim era, os seus leitores: “A minha ideia foi aceite, pode dizer-se, em boa hora.”
E pronto! Acaba aqui a história…como dizia tanta vez.
Obrigado amigo José Alfredo, por tudo o que fez por Sintra.
Jorge Trigo
7 de Dezembro de 2007
No centenário do seu nascimento
Carlos Manique Silva,historiador
Não conheci pessoalmente José Alfredo da Costa Azevedo. No entanto, com ele privei de perto através das Velharias de Sintra. Dessas crónicas - e creio ser esta a designação mais adequada - guardo as seguintes impressões: o rigor histórico com que foram escritas, a linguagem chã e inteligível nelas utilizada, sem esquecer a forma como José Alfredo interpelava o leitor, convidando-o, por assim dizer, a entrar na narrativa. São páginas de leitura viva e cativante, que nos transportam para ambiências pretéritas. Não se trata, porém, de uma visão acrítica do passado. Na verdade, o autor conjuga o seu jeito tão peculiar de nos "devolver" imagens (de artérias, de templos, de gentes, de acontecimentos...) com uma sólida metodologia de investigação, mesmo não se tratando de um académico. É, pois, justo sublinhar o contributo do autor das Velharias para o desenvolvimento da história local.
Quero, por outro lado, destacar o facto de José Alfredo ter sido um homem com ampla consciência cívica. E aqui seja-me permitido salientar a sua ligação à Misericórdia. Dela foi um laborioso colaborador, envolvendo-se em muitas acções de solidariedade. O reconhecimento chegou pela mão do provedor da instituição, Rui da Cunha. Uma afeição mútua! Não certamente por acaso, a Santa Casa da Misericórdia de Sintra guarda hoje uma aguarela pintada por José Alfredo - Rio do Cravo, Santo Isidoro, 1974. Mais uma imagem, entre tantas outras que José Alfredo nos legou.
Carlos Manique da Silva
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