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 CONSIDERANDOS PARA A BEATNIFIKAÇÃO

Jorge Telles de Menezes

O seguinte texto de apresentação do livro «Ignota Fauna», um ensaio do Poeta Paulo Brito e Abreu inspirado no filme com Jack Nicholson, Voando sobre um Ninho de Cucos, foi lido num Recital da Casa da Avó, em Sintra, a 20 de Abril de 2005, organizado pela mais antiga tertúlia literária sintrense em actividade, «Os Meninos da Avó».
Perante esta tão digna assembleia de lunáticos con-frades e co-madres da Ordem de Cynthia, e outros ex-cêntricos e ana-crónicos Amigos aqui presentes, vimos postular, após uma investigação preliminar que confirmou por inequívocos testemunhos a sua fama de beatnitude e de prática de heróicas virtudes, o Poeta de «Loas à Lua» como membro da nossa intangível Ordem.
Ao estudar os seus escritos, encontramos evidências claras da sua vida mística, que atinge os mais altos planos da contemplação e da profissão da simplicidade. Também não encontramos factos de doutrinas desviantes que costumam atrasar estes processos. Postulamos, por conseguinte, à apreciação da Suma Sacerdotisa de Cynthia, a beatnifikação do Poeta de «A Minha Tropa Foram os Rolling Stones».
Irmão beat e nik Paulo, fratre nostrum: junta-te a nós na celebração de tão auspicioso evento!



LOAS À «IGNOTA FAUNA» DE PAULO BRITO E ABREU

Disseram - O Paulo está passado. Retorquiram - Mas não passou, nem nunca passará; passou-se da chatice vazia do vosso quotidiano, que é coisa bem diferente. E digam lá, sem inveja e com uma pontinha de sinceridade: quem não gostaria de se passar deste quotidiano achatante para um mundo muito melhor, como aquele tão beatnífiko em que o Paulo navega seu carro alado, tal anjo mercurial? Vá, admitam, um poucochinho que nos baste, que viver, nem que seja por uns momentos no mundo do Paulo, é como respirar um halo de beatnífika beatitude, é deixar o Ser ser sacudido de camadas bolorentas e atrofiantes de hábitos e de um costumeiro ir sendo; é também sentir que o fluxo vital que habita no seu espírito como uma dádiva da Graça - porque o Paulo é in-graçado! – nos toca, liberta em nós gargalhadas primordiais que não imaginávamos existirem nos absconsos do que somos; ah, o mundo do Paulo não é deste-mundo-aí-existente.

Eis o nosso santo Paulo, aquele que nos devolve (se andarmos perdidos dela...) à inocência absoluta de existir, à criança anterior a todas as religiões instituídas, anterior a todos os sistemas de governação, anterior a todos os sofistas, teólogos e médicos; ele é aquele que nos deixa EXISTIR sem culpa, como crianças indomáveis. O Paulo é uma criança selvagem, por isso é santo. O Paulo é louco, por isso é santo. O Paulo não corta o cabelo, por isso é santo. O Paulo é santo, santo, santo!

- Oremos, elevando nossos copos. O Paulo é anarquista. O Paulo fumou. O Paulo disse à tropa em guerra que a tropa dele eram os Rolling Stones. O Paulo desvirginou a filha de um oficial do exército. O Paulo foi expulso de uma banda de rock and roll por querer revelar as suas profecias em palco. O Paulo sub-viveu, super-viveu, sobre-viveu. O Paulo nasceu a protestar, foi beatnik, hippie, yippie, mas nunca um yuppie, por isso é santo. O Paulo é dionisíaco, por isso é santo. O Paulo toma banho uma vez por semana, por isso é santo. O Paulo é um inimigo de todos os sistemas políticos que recusam a emancipação da humanidade, por isso é santo. O Paulo é inrockuptível, por isso é santo.

- Oremos, elevando nossos copos. O Paulo escreve Loas à Lua e cânticos imortais para a tua rebelião. O Paulo é prometaico, e acredita que os poetas são possuídos de uma loucura inspirada pelos deuses, uma mania; por isso a sua ensaística é delirante, ela nasce da concessão pelas divinas potestades da faculdade da clarividência. Ele sabe, com Platão, que a alma é imortal porque ela se move a si mesma, é animada, e por isso o seu espírito é antigo, porque ele se recorda de já ter contemplado a verdade quando olha hoje para as coisas citéreas e constata que a mentira é a senhora deste mundo, a fomentadora da injustiça, porque o homem se esqueceu que um dia já vislumbrou a verdade das coisas e conheceu os mistérios supremos do Ser. Mas o Paulo não se deixa enganar pela mentira. Aliás, ele encontra-se aqui somente para receber as asas e partir, pois julgo ser esta a sua terceira reencarnação como filósofo, esteta e poeta. Agora que sabemos que o Paulo tem asas invisíveis e que ele transmigrará para junto dos eternos, digamos com convicção que é por as coisas serem assim que o Paulo é santo. E porque na sua rebelião de alma antiga ele não pode ser aceite em nenhum partido político ou grupo anarquista, digamos irmãos, com convicção, que o Paulo é santo. E porque o Paulo nos ama a todos na sua comovedora compaixão, repitamos: o Paulo é santo!

- Oremos, elevando nossos copos. Ouçamos, então, amigos, a delirante ensaística do Paulo, melhor seria dizer, os ensaios que a própria Loucura escreveu pela mão do Paulo. Não tenhais receio da loucura, irmãos, pois como diz Freud citado pelo autor, «em todos os tempos, aqueles que tinham alguma coisa a dizer, mas que não podiam dizê-la sem perigo, se cobriram com o barrete dos loucos.»

Jorge Telles de Menezes




 
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