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 A Folia de Paulo Borges

Jorge Telles de Menezes

PAULO BORGES E TEATRO TAPAFUROS NA REGALEIRA: Prece a um Reino por Vir

Em «Folia» vamos encontrar o filósofo e poeta Paulo Borges como escritor de teatro, no mesmo sentido que o foi Gil Vicente, entre outros, isto é, enquanto autor de um texto dramatizável pensado e escrito para ser representado em determinado lugar, neste caso a Quinta da Regaleira, em Sintra. Assim como o mestre seiscentista escreveu os seus Autos «Lusitânia» e «Triunfo do Inverno» atribuindo a Sintra, a Serra Solércia, um papel decisivamente mítico na fundação de Portugal, eis que o coevo Paulo Borges retoma esse trilho, fecundando-o com esta «Folia», tal enxerto novo numa árvore cada vez mais pujante, a de uma dramaturgia de inspiração sintrense.

Segundo Carolina Michaëlis, a palavra «folia» significaria etimologicamente «loucura», correspondendo ao francês «folie». Mais tarde, ainda segundo a autora, passaria a ser o «nome genérico de danças ruidosas executadas por romeiros e romeiras, serranos e serranas especialmente nas Festas do Espírito Santo».

Deparamos, assim, com a origem medieval portuguesa das Folias, parentes próximas da cultura jogralesca, associadas ao culto heterodoxo do Espírito Santo, e, se quisermos ir mais longe, descobriremos como antepassados seus as romanas Saturnais e as celebrações do Carnaval, em que a inversão da ordem social estabelecida, e do fatalismo do tempo medido por civilizações agrárias, eram sinal de uma salutar irreverência do homem perante o incontornável conformismo ditado pela dura necessidade de sobrevivência. Existe, por conseguinte, na origem das Folias um forte pendão coreográfico, uma teatralização da chacota, que Gil Vicente integrará nos seus Autos, e que o Teatro Tapafuros agora conscienciosamente encena na Regaleira.

Sintra que, aliás, está na origem do culto do Espírito Santo, se relembrarmos que na zona litoral do Portugal continental – porque o culto também se afirmou no interior do território: Marvão, Portalegre, etc. -, é em Alenquer, durante muitos séculos comarca judicial de Sintra, que ele irradia com mais vigor, derramando-se inevitavelmente pela região saloia, onde, para além das várias capelas aí existentes devotadas ao seu culto, subsistem ainda hoje os seus festejos na encantadora aldeia do Penedo, para não falar da tese que defende a sua introdução em Portugal por mão da Rainha Santa Isabel, tendo como local de nascimento o próprio Paço Real de Sintra …

Não esquecendo, porém, com Roland Barthes, que «teatralidade é o teatro menos o texto» , gostaríamos ainda de sublinhar a excelente literariedade do texto de Paulo Borges, que acabadamente se pode inserir também nesse género, maior ou menor conforme os gostos, que é o Teatro para Ler, de que nos declaramos abertos e apaixonados cultores. Que o leitor seja indulgente com a imodéstia, mas cremos que depois de «Selenographia in Cynthia» despontou um novo ramo na árvore do drama de inspiração sintrense, que antes do mais pretende coreografar e encenar a própria monumentalidade artística e histórica de Sintra, fazendo dela como um pré-texto para as suas próprias criações, ramo que definitivamente se consolida na árvore com esta arrebatadora «Folia» de Paulo Borges.

Se pretendermos, contudo, evocar o espectáculo apresentado pelo Teatro Tapafuros na esotérica quinta de Sintra, façamos o mais justo: digamos que aqui é o teatro que chega ao texto, que o inventa e poetiza, com toda a expressividade simbólica e mítica de uma procissão que atravessa jardins e grutas num movimento em que o próprio público é «encenado» pela dinâmica dos foliões/actores que dirigem a marcha, como quasi-companheiros de destino cósmico. Como será possível, aliás, encenar a loucura? Loucura, sim, pois esta é por definição a inversão da ordem natural das coisas e do universo, para por esse meio libertar a superior vocação metafísica do homem.

Arte altamente contaminada, resumiríamos assim a prática teatral dos Tapafuros nesta «demência» coreografada: teatro-dança, teatro musical, teatro precatório, teatro-exorcismo, teatro-rito, teatro-mito, se assim se pode dizer. Todos os caminhos abertos pelo experimentalismo dos anos sessenta do último século aqui confluem, para uma emocionalização da memória mítica, que implica o espectador, o julga, o provoca, o integra e, por fim, o devolve simbolicamente purificado, à sua consciência una e solitária. Neblina sobe e encobre os castelos e altos penedos da Serra de Sintra. As gaitas de foles espalham um odor céltico pelo arvoredo em descanso. Os tambores rufam num chamamento antigo de bravos, de heróis e virgens sacrificiais, e o espectador, já esquecido de si, participa na hierática celebração, transportando estandartes, velas, bebendo e comendo na eucarística comunhão, ou galhofando e dançando envolvido em todo o processo, como se para ali tivesse sido convocado para «morrer e devir», numa noite de Pentecostes, como inocente criança redimida e redentora no advento de um homem novo.

O modo encontrado pelo encenador Rui Mário para criar uma dinâmica dos sentidos para o texto de Paulo Borges foi o de um processo integrativo do próprio público na estrutura da representação. Visto de fora, a partir de um helicóptero, por exemplo, o acontecimento em curso nos jardins da Regaleira, parecer-se-á com uma procissão nocturna, guiada e enquadrada por enigmáticos seres trajando vestes simbólicas, em que os marchantes-crentes, segurando pendões vermelhos e brancos com uma pomba, passam, entre outros, por uma estação infernal onde são julgados por estranhos diabos que visivelmente os chacoteiam e aterrorizam num cenário dantesco. O singular cortejo prossegue o seu trajecto pelo mitológico inconsciente colectivo, agora através de uma gruta até ao fundo de um poço, onde surge num quadro vivo de actores um retalho dos famosos Painéis de S. Vicente. Aliás, desde o início que nos cenários cinematográficos do palácio, capela e jardins da Regaleira podemos vislumbrar personagens histórico-arquetipais: os músicos foliões com suas gaitas de foles e tambores, um monge budista, um soldado, o Rei D. Sebastião, o Padre António Vieira, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva (figura central em toda a peça), entre outros. Vejamos ainda a procissão participar no bodo que se segue à coroação do imperador e da imperatriz, sentados todos em compridas mesas, bebendo e comendo, enquanto um bando de jogralescas figuras anima parodicamente o repasto. Por fim, acabam todos a dançar, foliões e crentes num ambiente de entusiasmo geral. Diríamos, desde o nosso helicóptero, que uma celebração religiosa libertadora e confraternazidora acabou de ter lugar.

Desçamos agora do nosso helicóptero imaginário, e aperceber-nos-emos de que existe uma ambiência sonora que liga a assombrosa procissão, transformando-a numa escultura viva de som, luz, figurinos e palavra dita. Reconheceremos a mestria do compositor Pedro Hilário, transfigurando em seu midi temas do Cancioneiro Açoriano, juntando instrumentos novos aos tradicionais, e também a contagiante execução pelo agrupamento de músicos-foliões de temas açorianos associados às celebrações do Espírito Santo. O efeito panorâmico do som nos espaços abertos dos jardins é aliás excelentemente conseguido neste projecto sonoro, em que as vozes gravadas, por exemplo, ressoam decantadas de qualquer distorção, quase como se estivessem vivas ali ao lado. Sonoramente, a representação não tem qualquer vazio, contribuindo assim para o todo holístico desta massa de actores/público em movimento. Deste modo, a banda sonora é omnipresente, quer ao vivo quer gravada, entrecortada obviamente pelas falas dos actores. Ela «é uma música-saudade do mundo a suspender-se de o ser» . Os figurinos com sua verosimilhança histórica, seu arquetipal colorido inspirado na pintura clássica portuguesa, cumprem sua função alegórica e plástica coerentemente nesta obra em movimento.

O que é dito, o que é falado neste teatro-ritual que parece emergir de uma memória profunda, adormecida por nossa sociedade imediatista e superficial? Palavras graves e ponderadas, que religam o que anda desirmanado nos Portugueses, que apelam à consciencialização do seu destino espiritual, à vocação universalista e tolerante do legado dos seus maiores, palavras que saem das bocas de Camões, Vieira, Pessoa ou Agostinho, mas também de Mestre Eckhart, da tradição budista e védica, dos Evangelhos, numa torrente babélica de línguas, como línguas de fogo descendo sobre cabeças subitamente iluminadas!

«Uni sempre a sabedoria e a compaixão! A visão das coisas tal qual, sem os véus do pensamento, do medo e do desejo, e a amorosa sensibilidade que toda a dor assuma e transmute! O feminino e o masculino! O vermelho e o branco! Isso simbolizam as cores com que fostes ungidos! As cores do Espírito Santo, que une e transcende todos os contrários! Morrestes, como homens e mulheres! A partir de agora sabei-vos andróginos, nautas-ninfas, deusas-deuses! Bem vindos à Câmara Nupcial e ao seu Mistério profundo! Ao Quinto Império, primeiro e último ! Ao Eterno!» , diz-nos Sofia personagem decisivo desta peça. Afinal, se como esclarece Leite de Vasconcelos «...certos usos, crendices e ditos que se julgam próprios de uma terra existem longe d’ ela, e ou foram transmitidos de pais para filhos, ou provêm de concepções fundamentais da alma humana, que na sua essência é una» , então o desafio e a importância social desta «Folia» reside num apelo à redescoberta em nós de valores que nos guiem para devirmos seres cada vez mais compassivos e universalmente solidários com todos os entes. Por isso é urgente e imperioso que nos juntemos à Folia numa noite de Verão nos cenários transcendentes da Regaleira, em Sintra.

Jorge Telles de Menezes

14 de Agosto de 2007




 
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