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 Cinco reflexões poetológicas

Jorge Telles de Menezes

Segue um poeta um caminho, uma estreita vereda que só ele conhece. Ninguém se apercebeu do seu desvio, porque por fora o poeta continua a usar relógio e a seguir os mesmos caminhos que todas as pessoas seguem. Mas ele vislumbrou algures uma clareira no meio da floresta de poetas-árvores com seus livros-ramagens, observando taciturnos e silenciosos seus passos absortos.


Ele olha para o mundo em seu redor e sente uma tremenda ausência de luz; ignora se os seus coetâneos também saberão da existência dessa clareira aberta pelos poetas antigos, para a qual ele se encaminha - por isso decide escrever poemas, poemas para os outros e para o outro que ele também é, quando longe da floresta dos poetas, pede simplesmente uma chávena de café.

Juntaram-se um dia na maior praça do mundo todos os poetas da terra para em uníssono gritarem uma palavra. A ideia era criar um fenómeno magnético desencadeador de uma transformação sincrónica da chamada consciência colectiva da humanidade. Pressupunha-se que muitos poetas já teriam atingido a sua clareira interior ou estariam em via de o fazerem, o que conferiria às suas vozes um nível vibratório tão elevado e subtil que as consciências seriam incapazes de se oporem a tão imponderável mudança. Mas os poetas não chegaram a acordo sobre a palavra a eleger. Uns defendiam liberdade, outros amor, outros verdade, outros beleza, ou paz, harmonia, deus, povo, mulher, revolução, eu, nada, sensação, metafísica. Como não chegaram a acordo, pusarem-se cada um a gritar para o seu lado, até que a polícia acabou com tão disparatada reunião. O nosso poeta também lá esteve defendendo a palavra clareira e acabando a dormir num calabouço.

Nunca a Primavera deixou de despertar em Ausschwitz; só um poeta nos podia perdoar a todos para que pudéssemos continuar a escrever sobre a flor azul, a clareira, o eu ou o nada. Ele escreveu: "Vamos, assim, quando pensamos em poemas, vamos com poemas por tais caminhos? São estes caminhos apenas des-vios, desvios de ti para ti? Mas eles também são ao mesmo tempo, entre muitos outros caminhos, caminhos nos quais a linguagem se torna sonora, são encontros, caminhos de criatura, projectos de existência, um antecipar o si mesmo, na busca de si mesmo... uma espécia de regresso ao lar."

O poeta assumiu que o seu interior era uma paisagem vazia, descontínua, onde a realidade exterior se reflectia como na lente de uma câmara. Começou a escrever poemas sobre máquinas de sumo de laranja e outros objectos por entre os quais assomava um braço nu de mulher sob um céu cruzado por mísseis nucleares. Já não havia peças únicas como o par de socos camponeses de Van Gogh, Deus tinha morrido e dançava-se sobre o abismo esperando secretamente por um apocalipse. O poeta escreveu: "objectos como caneta, uma tesoura, papéis amassados, cinzeiros limpos, copos emborcados, cartaz de cinema, fato de um condenado, pilhas de livros, a folha seca de amendoeira, um disco homenageando Kurt Weill são pistas para a procura obstinada, do ser eu, ou ser o meu futuro. versos nada derramados ou eloquentes. não há objectos fáceis. e pergunto: onde se chega através dos objectos?"

Morreram os dias do crepúsculo, morreram os dias da decadência; o homem matou o divino, mas o divino respondeu matando o homem. Vieram e morreram os dias em que nada ficou de pé, excepto um corpo sem palavras. Morreram os dias em que a máquina matou o homem. Ficou um gesto para os dias por vir, um chamamento já no sem-fundo. E o homem que escreve, escreveu: "Mas agora o dia faz-se noite, crepúsculo, é a palavra, o sol desaparecido, a música nula, o homem que escreve escrevendo apenas uma fímbria da alegria por entre as sombras que se apoderam dos objectos até se sentir uma atmosfera na esfera das percepções mais ou menos diárias. A escrita esbarra, o homem que escreve interdito, dito de outra maneira: a língua desconhece-se de tanto supor que se pode saber uma impressão, um silêncio, uma fala. Não, ninguém fala, só a tarde cai, se esvai, desaparece como nunca tivesse existido, existindo como nunca mais."

Texto escrito em torno de poemas de António Naud Júnior e de Silva Carvalho e de um texto de Paul Celan, lido num Dia Mundial da Poesia celebrado em Sintra.

Jorge Telles de Menezes (29.06.2007).




 
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