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 Liberto Cruz (n.1935) e M.S. Lourenço (n.1936), por Helena Langrouva

Helena Langrouva

É sempre raro que alguém seja profeta na sua terra. O caso dos poetas Liberto Cruz e M.S. Lourenço é muito especial na história da poesia de autores sintrenses. São ambos discretos na maneira de ser e estar na vida. Nascidos ambos no centro da Vila de Sintra, na mesma geração e com um ano de diferença, foram condiscípulos na mesma escola, e licenciaram-se ambos na Faculdade de Letras de Lisboa, Liberto Cruz em Filologia Românica e M.S. Lourenço em Filosofia.


Criaram ambos, em 1954-1955, vários pseudónimos comuns para publicarem, em jornais, poemas e histórias que inventavam juntos, influenciados pela leitura de Swift. Foram ambos mobilizados para a guerra de Angola. Começaram ambos por leccionar no ensino secundário - Liberto Cruz no ensino oficial em Castelo Branco e Lisboa, M.S. Lourenço, no ensino privado, em Cascais, depois de ter sido encarregado da Biblioteca Municipal de Sintra, enquanto estudante. São ambos dos melhores poetas, ensaístas e tradutores da sua geração. Viveram ambos longos anos fora do país, o que não propiciou a divulgação das suas obras. E ambos regressaram e regressam a Sintra, como passantes com raízes e/ou como residentes.

Liberto Cruz foi Leitor (1967-1970) e Assistente (1969-75) da Universidade de Rennes e em simultâneo Chargé de cours das Universidades de Vincennes (1969-70) e de Nantes (1970-71), Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris (1975-1988). De regresso a Portugal, foi Director de Serviços da Fundação Oriente (1988-1996). É Presidente da Associação Portuguesa de Críticos Literários. Traduziu Cendrars, Peyrefitte, Le Clézio, Marguerite Duras, Sade, Beckett, entre outros. Como crítico literário e ensaísta fundou a revista Sibila, publicou artigos no Jornal de Letras e Artes, na revista Colóquio Letras, noutros jornais e revistas, tem sido membro de vários júris literários, é responsável pela publicação das Obras Completas de Ruben A., colaborador do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, do Dicionário de Literatura, autor de vários prefácios de livros, conferencista. Como ensaísta, publicou em livro Viragem do Romance Português (1969), José Cardoso Pires (1972), Júlio Dinis (1973), Fotobiografia de Ruben A. (2000, 2ª ed. 2001) (com José Brandão e Nicolau Andresen Leitão), Biografia de Júlio Dinis (2002, 2ª edição 2006). Mais recentemente publicou Blaise Cendrars: Poesia em Viagem (nova tradução e apresentação) e Blaise Cendrars: Folhas de Viagem (selecção, tradução e notas), 2005. Tem em preparação Biografia de Ruben A., Antologia de Ruben A. e Dicionário de Júlio Dinis (os dois últimos com Madalena Carretero Cruz).

Como poeta, a sua poesia figura em muitas antologias, tendo publicado em livro Momento (1956), A tua Palavra (1958), Névoa ou Sintaxe (1959), Itinerário (1962), Gramática Histórica (1971, com o pseudónimo Álvaro Neto, a reeditar em Maio de 2007), Distância (1977), Ciclo (1982), Jornal de Campanha (1986)- distinguido com o Prémio de Poesia da Cidade de Lisboa -, Caderno de Encargos (1994) e Sequências (2000), ilustrado com colagens de Maria Gabriel. Jornal de Campanha é um dos melhores livros sobre a guerra colonial cuja violência está expressa em pouquíssimos versos. A poesia de Liberto Cruz é marcadamente lírica, ancorada na vida - sem ser biografista. Nela se pode entrever um itinerário com o corpo, a natureza, o sofrimento, a procura de tomada de consciência, a viagem, a nostalgia da própria vivência poética, filtrada por uma rara sensibilidade e um modo de ser poético, pela procura de rigor, da música das palavras e da arquitectura do poema, privilegiando a procura de harmonia, do essencial, de claridade e luminosidade, de expressão contida, sintética e meditativa, num caminho de global direcção para a evidência e a sabedoria de viver.Em Gramática Histórica aprofunda a chamada poesia experimental, pela escolha irónica de termos de fonética, morfologia sintaxe e semântica, com alusões indirectas e implícitas à vida de Portugal nos anos 60 e 70. Poeta do exílio, preocupa-o a expressão do enigma da morte e da perda dos entes mais queridos, nunca deixando de cantar o amor ao longo de toda a sua obra poética. Em Caderno de Encargos faz um balanço da sua vida, dos principais temas da sua poesia, em 66 sonetos, com mais alusões a outros poetas. Em Sequências, o seu último livro publicado, depois do balanço e da travessia da vida, aspira à expressão apenas do essencial do seu olhar meditativo para a vida e o movimento do espírito, em poemas brevíssimos que retomam muito livremente e sem códigos algo que se aproxima dos haikai orientais. Publicámos um artigo sobre Caderno de Encargos, de Liberto Cruz, em 26 de Janeiro de 1996, p.14, no Jornal de Sintra, com o título "Liberto Cruz: o regresso às origens".

M.S. Lourenço foi bolseiro da Fundação Gulbenkian (1965-68), Leitor de Português (1968-1971) nas Universidades de Oxford, de Santa Barbara (Califórnia), tendo ainda ensinado na Universidade do Estado de Indiana (E.U.A.-1972-1980), e na Universidade de Innsbruck (1983-1984). É pós-graduado (Master of Arts, Oxford) e Doutorado (Lisboa) em Filosofia Analítica, tendo-se fixado como professor de Lógica e Filosofia da Matemática no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, na qual foi muito recentemente homenageado, com Maria de Lurdes Ferraz, no âmbito da cadeira de Teoria da Literatura, tendo argumentado sobre a necessidade de um curso da Lógica para o estudo da Teoria da Literatura. Foi Presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia e é actual Director da revista internacional de filosofia Disputatio. Como filósofo, publicou em livro A Espontaneidade da Razão: A analítica conceptual da refutação do empirismo na Filosofia de Wittgenstein (1986), Teoria Clássica da Dedução (1991) e A Cultura da Subtileza: Aspectos da Filosofia Analítica (1995). Publicou poemas, ensaios e a tradução de uma parte de Finnegans Wake de James Joyce na revista O Tempo e o Modo, ensaios na Colóquio Letras e crónicas no semanário O Independente, estas reunidas num volume Os Degraus do Parnaso (reeditado e ampliado em 2002) que obteve o prémio Dom Dinis, em 1991. Traduziu obras de filósofos- Wittgenstein, Godel, Kneale, Guardini, Guitton, entre outros -. e de escritores - Joyce et Beckett. Ganhou um prémio de tradução do National Translation Center, nos Estados Unidos, pelas sua traduções de Joyce e Beckett.

Como escritor e poeta publicou O Desequilibrista (1960), sua obra de estreia, Fora de Colecção, a que se seguiram duas pequenas colectâneas de histórias - O Doge (1963, assinado pelo pseudónimo Arquiduque Alexis-Christian von Gribskov - Tradução de M.S. Lourenço- reeditado em 1998), Ode a Upsala (1964), todos eles demarcando um lugar difícil de se definir na literatura portuguesa fazendo neles convergir o pós-surrealismo, o nonsense, o humor, uma certa angústia, a reflexão filosófica, teológica, gnóstica, metafísica. Ao longo da sua obra poética, tem defendido o labor e o aperfeiçoamento da musicalidade do verso, da arquitectura musical do poema. Na sua poesia , marcada pela cultura clássica e uma cultura muito aprofundada, com inúmeras alusões, é notória a procura da capacidade visionária através da expressão poética, em particular no seu livro Wytham Abbey. Depois da sua estadia em Oxford criou uma nova orientação estética e técnica da escrita poética em Arte Combinatória (1971) e Wytham Abbey (1974) sempre complexa e muito profunda, exigindo do leitor também uma profunda reflexão. Em Pássaro Paradípsico (1979) - com ilustrações de Mário Cesariny - condensa a orientação construtivista e a estética neo-simbolista da sua poesia: cada verso é uma palavra e cada poema construído como uma composição musical; a sua poesia fica definitivamente ligada ao som e à música, mas de um modo muito pessoal que continua a sua obra de um autor que esteve sempre fora de tudo o que seria previsível numa obra literária. Em Nada Brahma (1991), em verso e integrando um texto dramático, procura realizar o ideal da poesia como arte musical. Os Degraus do Parnaso constituem uma tentativa de reformulação narrativa do mesmo ideal. Pássaro Paradípsico, os livros de filosofia e as traduções de livros filosóficos estão assinados por Manuel Lourenço.

No III Encontro de História de Sintra, Liberto Cruz apresentou uma comunicação sobre M.S. Lourenço cujo título fala por si: "M.S. Lourenço, o desequilibrista definitivo". Apresentámos a poesia de Liberto Cruz na nossa comunicação "O itinerário poético de Liberto Cruz". Na poesia de ambos se encontra a presença subtil de Sintra, em particular dos primeiros livros e em Caderno de Encargos de Liberto Cruz e no último - Nada Brahma - de M.S. Lourenço. Esperamos que este III Encontro, organizado pela Associação Alagamares, de 3 a 5 de Maio, no Palácio Valenças, tenha contribuído para que Liberto Cruz e M.S. Lourenço entrem definitivamente na História de Sintra.

Helena Langrouva (07.05.2007).




 
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