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 António Gancho: Donne-moi ma chance, encore...

Jorge Telles de Menezes

O que nos impressiona neste poeta, natural de Évora, mas que passou quase toda a sua vida no concelho de Sintra, internado na Casa de Saúde do Telhal (*), é como um homem considerado louco pela sociedade foi capaz de atingir um tão raro grau de lucidez poética nas letras europeias, lucidez onde transluz uma ainda mais rara sensibilidade lírica, lucidez e sensibilidade que se plasmam numa sintaxe e numa semântica luxuriosamente subversivas e autoconscientes do conservadorismo "natural" dessa instituição social bem vigiada que é a língua escrita.

António Manuel Luís Gancho escreveu poesia com o tempo que é necessário para fazê-lo, bem cada vez mais raro para os poetas.

Em O Ar da Manhã, quatro livros de poesia reunidos num só volume, lê-se em epígrafe donne-moi ma chance, o que, por coincidência ou não, é o título de uma famosa canção francesa dos anos sessenta, interpretada por Richard Anthony. Para um poeta que teve o destino que teve, bem poderíamos dizer que a vida não lhe deu a sua oportunidade. Mas ele não se encontra só na galeria dos poetas que não tiveram uma vida para serem apenas no reino das ideias, da poesia e da estética, como defende Fernando Pessoa no seu Livro do Desassossego: "A vida prejudica a expressão da vida. [...] Às vezes não me reconheço, tão exterior me pus a mim, e tão de modo puramente artístico empreguei a minha consciência de mim próprio".

No maravilhoso poema intitulado Sobre a Ordem da Poesia, António Gancho fala-nos desta arte enquanto fundamento ontológico para um entendimento universal entre os homens, um entendimento para além dos géneros, das nacionalidades, para além mesmo das próprias palavras, por meio de uma secularização do sagrado em que não haverá nada de mais divino do que a divinização do próprio homem, como preconizaria Mestre Eckhart, pela centelha que uma vez alumiada, nunca mais se apagará na sua alma. O poeta pré-sente, em plena era atómica, as raízes primordiais de justificação da sua existência: ele é o cantor, o autor da melodia que todos cantarão um dia unidos numa consciência colectiva em que o egoísmo individual se há-de dissolver e o ser se desvelará como entidade total de que o próprio universo depende para a finalidade última de seu autoconhecimento. Na sua vibratilidade lírica, este poeta navega na profunda tradição ocidental trovadoresca e jogral, como marinheiro de muitas línguas, senhor da sua rota, singrando num diálogo irrequieto e inovador com esse vasto oceano que da medieva idade até ao surrealismo surpreende (e se surpreende...) com a sua subtil e musical maquinaria. Vemos nitidamente o sorriso inocente e bondoso do poeta a pairar na nossa proximidade de leitores, misterioso como também o é o gato invisível de Lewis Carroll.

Ei-lo que, reivindicando a "viagem interior", prossegue a exploração espacial num tempo suspenso na consciência abissal do homem, viagem iniciada pelo mestre fundador de todos os Modernos, o Conde de Lautréamont. Mas este viajante alumbrado por sua centelha interior, surge-nos também como um pedagogo, um doutrinador onde ressoa a gravidade lapidar de um Antigo, grego ou romano, oculto por um reposteiro que o poeta nos descerra: "...e o homem sacrifica muitas vezes ao perigo da guerra / a noção do convívio", lê-se no seu poema Interioridade. Ele fala-nos aqui da escalpelização dos animais selvagens, quer dizer dos animais selvagens que o homem encontra na viagem por si mesmo, querendo significar, assim nos parece, a entificação da besta que em nós jaz adormecida, o trazê-la até à expressão no plano ôntico-existenciário, o despertá-la da sua inconsciência em nossa meta-interioridade, o con-versar com o animal selvagem, o con-vertê-lo a uma filosofia com valores, não sacrificando, por conseguinte, a noção de convívio ao perigo da guerra, pois todas as guerras começam sempre primeiro dentro de nós, com os animais selvagens que nos habitam inconscientemente.

O maior paradoxo deste poeta encontra-se no facto de a partir de uma existência encarcerada ter sido possível levantar alto voo um dos espíritos mais livres da poesia portuguesa, um inovador e um rebelde na sua linguagem que é tendida até um extremo comparável só ao dos grandes mestres do absurdo, aqueles que no século XX nos ensinaram a pormos muitas reticências em tudo o que dizemos, pensamos ou escrevemos, desde Joyce a Beckett. O seu esperanto poético exprime um elevadíssimo grau de consciência da materialidade da palavra, do seu valor significante, e da relação complexa que a sua invulgar imaginação e sensibilidade de artista estabelece com essa realidade opaca e quase intransponível, com essa matéria simultaneamente subtil e férrea que é a língua e as suas palavras.

Antes da sua escrita, é necessário, para entendermos António Gancho, apreendermos a vasta liberdade conceptual do escritor, o horizonte cosmopolita em que a sua poesia se inscreve, a abertura ao mundo e ao Outro, e a sua transfiguração utopizante do real enquanto pressupostos de uma obra que nos leva, como torrente violenta, até um oceano de pura espiritualidade. As suas raízes culturais transcendem amplamente o Portugal provinciano e fechado em que viveu, elas encontram-se num diálogo com o melhor da poesia europeia, e mesmo hoje, nesta nossa autocomplacente democracia, suspensa dos cordelinhos financeiros e jurídicos de Bruxelas, essas raízes profundas no húmus da poesia europeia são incomparavelmente mais autênticas e universais do que as dos apressados "europeizantes" que nos (des)governam.

Ao lermos a sua poesia somos ainda transportados por uma música que brota dentro de nós, leitores, como remota memória arquetipal, e nos precipita, sôfregos, para a leitura do verso seguinte, num tropel ansioso em que somos executantes numa orquestra invisível dirigida por um maestro de sonho. Os tempos são outros, mas a capacidade de elevação espiritual do homem permanece intacta em cada um de nós, em cada geração; para o verdadeiro poeta não existem, por conseguinte, tempos "medíocres" como diria Rainer Maria Rilke. Há uma tradição europeia de poetas "loucos" que escreveram sua poesia "louca", a qual, por regra, não é considerada "poesia" pelo grande público. Em Portugal, quem aprecia verdadeiramente a poesia de um Ângelo de Lima, ou quem, na Alemanha, valoriza com autenticidade os "poemas da loucura" de Hölderlin? Pois bem, poucos, muito poucos, só aqueles que entendem que na poesia cintila a alma divinizada do homem em diálogo com Deus, o homem descarnado, o homem puro espírito, livre de todos os convencionalismos, inclusive daqueles grilhões que a instituição-língua impõe aos seus cultores poetas, como é exemplarmente o caso deste grande poeta português, de seu nome António Gancho.

(1) - António Luís Valente Gancho, faleceu no dia 2 de Janeiro de 2006, nesta casa de saúde mental, com a idade de 66 anos, e no dia em que cumpria 39 anos de internamento. Situada na freguesia de Mem-Martins, esta clínica faz parte da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus. Nela faleceu também outro grande vulto da cultura portuguesa do século XX, o pintor Mário Eloy.

Jorge Telles de Menezes (09.01.2007)




 
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