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 Fernando Grade: um poeta nos passos da História

Jorge Telles de Menezes

A tertúlia literária sintrense "Os Meninos da Avó" conheceu uma fase em que as próprias sessões eram pretexto para a criatividade. Escreviam-se originais para aí serem lidos, traduziam-se no momento poemas que eram lidos em seguida, apareciam poemas de gavetas obscuras. Este texto de introdução ao Poeta Fernando Grade, foi lido por ocasião da apresentação do seu livro de poesia "Sempre Tive um Vinho Muito Ciumento", na Casa da Avó, em Sintra, no dia 1 de Junho de 2005.

Destacados pelo império para o reconfigurarmos por dentro das suas fronteiras reais e imaginárias - ninguém sabia muito bem a origem deste missionarismo destruidor - encontrámo-nos nas ruas ardentes de Luanda, nos cafés onde se escreviam revelações apocalípticas nas portas dos lavabos, e os denunciantes não tinham mãos a medir entre os jovens estudantes, os doidos, os poetas, as mulheres que nunca foram virgens, os agentes de outros impérios, os teólogos em ruptura, os travestis, os masoquistas, outros poetas que falavam da loucura dos mortos, pintores bêbedos e morfinómanos, belas mulheres, também outras, que chegavam de barco e avião para oferecerem seus corpos aos desertores nas praias, enlevos arrebatados ao pôr-do-sol do império.

Era preciso que o Fernando Grade chegasse, porque havia um vazio antes dele, o vazio das palavras cósmicas, do ritmo planetário em que se desenhava o futuro dos impérios que tinham de soçobrar, de desaparecer do mapa político, para que o Big Brother estendesse as suas garras até aos intestinos de uma Europa viúva, de uma África exausta, de uma Ásia adormecida, de uma América do Sul depauperada. Ele fazia falta com suas provocadoras conferências sobre arte contemporânea, seus poemas surrealizantes, seu inconformismo genético para colocar o problema da Revolução, que sorvíamos nos textos de Marx e de Vaneigem, no plano da transformação mental e da clarificação dos costumes. Até na sua idiossincracia ele fazia falta, com seu bengali, seu casaco de linho azul, sua boina preta e seu cabelo sempre mais comprido do que os regulamentos militares permitiam.

Depois do Grade, o poeta David Mestre nunca mais foi o mesmo e crismado ficou de Xoni, o poeta João Serra nunca mais foi o mesmo, para além de ter passado a ser o João Maluco, e quando partíamos à boleia para os planaltos ou o deserto com a beat generation na mochila, os olhos cheios de flores de San Francisco e libertarianismo de Amsterdam, passámos a levar também a antologia do "Desintegracionismo", desse último -ismo da literatura portuguesa, movimento fundado por ele e outros poetas como Armando Ventura Ferreira ou Hugo Beja, para jantarmos os corpos amazónicos das livres mulheres do sul no gelo que o Grade trazia da Gronelândia (1), incendiando a sintaxe do catecúmeno Português liceal para obter novas formulações sobre o ocaso de um império perante nós a desintegrar-se. Democracia, sim, mas onde ficaria o amor, revolução, sim, mas onde ficaria o pacifismo de um Cristo social? Perante a boca dos fuzis nós representávamos, com a vida na ponta das mãos, a angústia dos equilibristas antes do salto mortal.

Num império em declínio toda a gente está de passagem, os próprios colonizados estão de passagem para serem cidadãos do seu país, todos lançam sementes para o ser que encontrarão no espelho, quando o dia zero chegar. Por isso também o Grade partiu um dia, deixou o quarto da pensão na Maianga, as amantes fáceis e as mais difíceis, quadros da série "Teoria das Multidões" no Museu de Angola, a fulminância do gosto intervencionista, saudades, exposições, conferências, poemas, as sementes de que precisávamos para o dia zero. Deixou um exemplo de coerência e desassombro para combatermos até ao crespúsculo no nosso posto de poetas incontroláveis.

Nesse teatro trágico, sanguinário, em que vida e morte combatem no teu próprio corpo, em tua própria mente, nessa macabra encenação que o império escolheu para o seu destroçamento, a nossa trincheira chamava-se poesia. Depois de o Grade partir, o David Mestre "Xoni", o Jorge Ribeiro e eu próprio, criámos o grupo Poesia-Hoje, para lermos poemas do Viriato da Cruz, do António Jacinto, da Alda Lara e de tantos outros, olhando nos olhos os inspectores da pide presentes nos recitais. Descobri os musseques e a sua imensa vida espiritual, era lá que eu aprendia a tocar piano com meu professor africano, era lá que eu ia, aos sábados de manhã, às missas evangélicas para ouvir os gospels, era lá que eu namorava. De madrugada, o David e eu sentávamo-nos nas esplanadas dos cafés fechados na baía de Luanda, e na noite húmida e inchada de violência contida, líamos, escrevíamos, conversávamos do futuro nas entrelinhas do dealbar da manhã. Tudo acabou mal, muito mal, da pior maneira possível. Um soldado podia ser poeta, mas a poesia não devia agitar o sono hipócrita da ordem moribunda.

O novo era mais forte do que o velho, foi por isso também que andámos juntos nas ruas de Lisboa no 25 de Abril de 1974, não precisávamos de nos ver, andávamos lado a lado, éramos todos um único querer durante momentos que pareciam nunca acabar. O novo enterrou o velho, o velho enterrou o novo, e vimo-nos então no Chiado, no Verão Quente de 1975, enquanto os ingleses desciam a Rua Nova da Trindade, com seus sorrisos sardónicos, lendo em voz alta dos cartazes que cobriam todas as paredes, num coro que nunca parava: Pi Ci Pi! Pi Ci Pi! Pi Ci Pi!. Dei-te um poema novo nessa ocasião, não sei o que lhe fizeste, mas disseste-me na altura, com toda a tua franqueza, que eu não percebia nada da tua "Teoria das Multidões". Talvez na altura não percebesse, mas com a evolução que as coisas tiveram no nosso país e no mundo, garanto-te hoje que a única teoria das multidões que eu percebo é a tua.

Que não se melindre o autor presente, porque parece que estou a escrever para o futuro, mas para além do calor que a poesia do Fernando Grade continuará a irradiar, calor do sonho, da rebeldia, da utopia, é essencial que se saiba que ele é um exemplo alto do que é um escritor empenhado, como um actor marcando os passos da história, empenhado na escrita, mas primordialmente empenhado no homem, no social, nas questões fundamentais para todos nós. O que distingue o seu empenhamento é a sua vertebração poética. Falo de uma unidade nele manifesta entre o ser social e o ser poeta: coincidência plena! Bem pode a comunidade regozijar-se por existirem tais seres como ele, embora igual eu não conheça, para que ela se reveja no seu inconformismo como um sinal de esperança, daquela profunda esperança que todos temos no desocultamento do ser que tudo clarificará. Enquanto vivermos temos a responsabilidade de colocar questões fundamentais ao Fernando Grade.

(1)- V. Poema de Fernando Grade "Uma Rapariga na Gronelândia ou Jantarei o teu Corpo sobre o Gelo", in "Desintegracionismo", Lisboa, 1965.

Jorge Telles de Menezes (24.11.2006)




 
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