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Numa carta para Karl Jaspers, Heidegger vê-se humildemente como um guarda de museu (1) que afasta as cortinas para que possam ser admiradas as grandes obras da filosofia do passado. Levantar, desocultar o ser por revelar em cada existência, com um olhar novo para dentro da sua entidade própria.
No pensamento heideggeriano que avança tecendo espirais em torno de um conceito, afirmação e negação constituem dois aspectos contraditórios, mas reciprocamente indispensáveis da mesma realidade do ente. Existe no pensamento circular de Heidegger uma nota oriental, uma suspensão da razão dialéctica e evolutiva, uma mergulho acrónico numa entidade metafísica das coisas, como Rüdiger Safranski (2) observa ao comparar o pensamento do filósofo com uma história Zen. "Alguém antes de se ocupar com o Zen, vê as montanhas como montanhas e os rios como rios. Depois de ter atingido uma certa contemplação interior da verdade do Zen ele vê que as montanhas já não são montanhas e os rios já não são rios. Mas se ele for iluminado, então ele vê de novo as montanhas como montanhas e os rios como rios".
Oriental, justamente pela sua circularidade, pela subjacência do mito do eterno retorno, pela busca do transcendente nos limites histórico-biológicos de cada indivíduo, pela situação do julgamento, não num hipotético fim da história, como acontece na concepção escatológica tradicional ocidental, mas dentro dos limites de cada existência individual.
Como no pensamento grego, a única saída possível é aceitarmos o que nos é destinado. A nossa entrega a essa fatalidade dispensa-nos da questão ética do bem e do mal. O nosso valor (quem sabe se a nossa salvação) está na determinação com que aceitamos o nosso destino. Aqui também ressoam ainda talvez ecos do determinismo luterano. A verdadeira história do homem é o embate com o ser que se oculta e que cegamente lhe dita o seu destino. As histórias da história, são crónica.
O projecto de Heidegger é, fundamentalmente, um projecto linguístico. Quantas vezes nos faz ele pensar em Ferdinand de Saussurre, sobretudo no carácter simbólico e representativo da linguagem humana. O pensamento ocidental busca desde sempre as raízes perdidas da sua origem na fonte do grego clássico. Mas as modernas línguas do Ocidente, começando pelo latim, ao traduzirem as palavras gregas omitem o essencial, isto é o pensamento que estava por trás delas. Utilizamos as palavras gregas, mas não pensamos como os gregos. Somos uns desenraizados, uns desterrados, falta-nos o chão, traduzindo literalmente Heidegger.
O intelectual ocidental é um tradutor, nunca um criador, que perante cada nova ruptura ou irrupção do ser na linguagem, recorre aos neologismos possíveis retirados da arca perdida da Grécia da união entre o ser e a palavra. A nossa vocação cultural é o desterro, o desenraizamento, arrastando o resto da humanidade connosco nesta voragem. Será que nos conseguiremos deter um dia para meditarmos sobre a essência do que dizemos e, consequentemente, fazemos? Como sôa a vazio tanta da nossa cultura, como são quase ridículos (se não fossem perigosos) os nossos heróis movidos pela grosseira e vã cobiça do ter. Neste dilaceramento do ser poderá sobrevir um homem novo, aquele que o ocidental tão profundamente anela por voltar a ser no futuro. Um homem reconciliado com o mundo, com o outro, indagador da essência e em ligação com o simbólico e o sagrado. Um homem sem respostas, unicamente construtivo.
A sua escrita demonstrou-me luminosamente que a destinação do filósofo é ainda, e será, indagar sobre a essência da causa primeira, sobre a recepção de Deus no homem, e sobre a natureza da relação (e do seu destino) entre o ser e o ente. Mas a sua obra-projecto é, igualmente, a afirmação da auto-consciência de uma dimensão mediúnica e teleológica, ôntica-existenciária, do próprio facto linguístico, enquanto o meio exclusivo dessa desocultação. Por isso a sua escrita é também, e sobretudo, uma irrefragável declaração da lapidar sentença de Goethe, de que a verdade só o será, se for expressa com beleza. A atenção dada à formalidade linguística, corresponde na intensidade de Heidegger à fundamental e autêntica busca da própria verdade.
(1) - Estas despretensiosas linhas foram escritas ao sabor da leitura da minha tradução de Holzwege (Atalhos da Floresta). Como poeta, sinto-me fascinado pela escultórica linguagem do filósofo alemão.
(2) - Rüdiger Safranski, "Um Mestre da Alemanha: Heidegger e o seu Tempo", pág. 496. Trad. Jorge Telles de Menezes, Instituto Piaget, s/d. Lisboa.
Jorge Telles de Menezes (18.11.2006).
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