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Um withmaniano bíblico de uma explosiva interioridade radicada no poder fálico, criador do fogo. Espírito, alma, coração, Deus numa torrente orgástica ejaculada em poemas-de-carne. A mulher-morte, frio objecto a ser animado pelo pénis incendiário. A plenitude, a integridade do homem moderno como a consciência analítica e simbólica das suas pulsões inconscientes...
Comoção patriarcal com a ternura, a fragilidade da condição feminina. Reivindicação do macho-touro fecundador, máscara de um pensamento estruturado sobre a empiricidade do sexo. Autocracia poética, ditadura do falo; explosão surrealizante velho-testamentária. Bio-filosofia do sémen fundador do universo. Visões fragmentadas sobre as formas primordiais da vida, nas suas relações essenciais: o amor, o pranto perante a morte da mãe, a criança, a alimentação, a defesa de um espaço vital próprio elevadas a uma densidade ontológica, a-histórica. Esquecimento do ser uno e primordial na reinvenção técnica da consciência por meio da análise da psique.
Weltanschauung fenomenológica expressa na consciência de um irremediável e fatal estar-no-mundo. Patética reivindicação de uma narrativa masculinizada. Momento suspenso de terror perante a grandiosidade do universo em contraste com a fragilidade/feminilidade da linguagem. A (re)ligação ao universo construída sobre um estar-no-mundo questionador, profundamente inquieto diante da suposta normalidade das coisas. O pensamento é aqui transgressão, pensar é enlouquecer. A loucura é o desvio regenerador, vivificante. Poesia tradicional, sem tradição.
Depois de uma longa "masculinidade" desembarcamos na estação do interactivo, do "tu cá, tu lá", e quanta tremura, quanta percepção da ramagem da floresta, quanta lucidez auto-referencial, quanto esgotamento de um ego chamado, convocado e que somente pode peidar-se metaforicamente diante da árvore sem ver a floresta, de cima. Que faz Jorge Luís Borges, desamparado, nesta selva autocêntrica? Sentimos o homem, sensível, a evoluir na sua vida. E se não conhecêssemos a sua biografia, que também não conhecemos? Seria mais desconcertante? Porque nunca sabemos do que o poeta fala, mas pressentimo-lo, aproximativos, como num cerimonial hierático. Nunca quis falar de si, dos que conheceu biograficamente, mas tão só referi-los enquanto essências, metáforas do seu desejo.
Nunca, também, foi auto-reflexivo, nunca a linguagem na sua poesia se pensou como tal, mas sempre foi implicitamente entendida como a afirmação imanente de um ego estruturado segundo conceitos tradicionais indiscutivelmente aceites: alma, espírito, Deus - em que a loucura é um risco menor, uma "ousadia".
Formalmente indeciso, o poeta dá-se mal com inovações gráfico-semânticas em moda, preferindo com acerto regressar à expressão clássica que molda a sua tradicional torrencialidade. Não "existe" nesta poesia qualquer reflexo de uma crise da linguagem; ela é pré-industrial, ela é velho-testamentária, ela é - luminosamente - oriental. Como uma pedra negra ardendo, uma luz para todos os invernos. Poesia do sexo, das obsessões de um "homem", esse ser antropologicamente delimitado, mas onde nunca se ouve a voz dela, da "mulher", como se a experiência do amor se esgotasse no acto-palavra, no último pingo de esperma tombado no fundo de um omnipresente ânus.
Mas este homem-autor não quis que nada soubéssemos dele através da sua poesia. Ele foi, poderíamos dizer, um poeta da subjectividade simbólica. Ele gostaria de ser lido e debatido dentro de grandes naves espaciais. Psicanaliticamente, poderíamos falar então de uma infância violada, que teria como contraponto a absoluta integridade das "crianças" na sua poesia. O maior paradoxo é, no entanto, o de estarmos defronte de uma poesia sem uma poética. E se não fôssemos portugueses? Saberíamos que do "alto" da sua timidez, o poeta constrói, por vezes, um discurso meta-histórico? É óbvio, ele reivindica, desassombradamente, uma a-historicidade fundamentada nas pulsões do indivíduo; o poeta é aqui um "anjo" no mundo, mas um anjo caído, in-liberto, perdido e achado de novo por qualquer um dos gestos convencionais do amor sexual, medidos pela distância entre a boca e o ... ânus. Temos de adivinhar tudo, neste poeta, esquecermos que o vimos, que ouvimos uma vez o sussurro da sua voz. Adivinhar os cadernos em que escreve, o que pensa das chuvas ácidas.
Mas, não "parece" possível - não sei como ainda consegues escrever - diz uma mulher que irrompe súbita e desestruturante como surgem as mulheres oráculos, peixes vermelhos, talvez negros. A mulher de boca vermelha diante dos punhos de um homem impaciente pelos astros. O homem espantado com a sua própria ignorância - habituado a dizer rudemente, contra a neve, eu quero; os seus punhos descreviam círculos no ar e a mulher afiava punhais de amor, enquanto se aproximavam de uma encruzilhada; a partir daí, que os dados sinuosos decidissem sobre o futuro sorriso das aves, das crianças, os dados que desde as antigas assembleias dos bosques foram lançados contra a erva fofa e verde da carne - e a mulher não entendia como era possível que ele continuasse a escrever com a tempestade. Porque se fizera silêncio, silêncio grave como num balanço da vida. E a violência dos seus corpos era grandiosa e danificadora. Subterráqueos, diziam que se amavam, em segredo. Mas as pequenas vilas não perdoavam: o homem devia ser crucificado nas falas quotidianas das tabacarias. Na última noite ficaram sentados, virados para ocidente, num silêncio de meses, como se estivessem de novo sentados, calados, com saladas e um copo de vinho (1).
Talvez Borges esteja nesta poesia como símbolo do labirinto; ficaremos, então, diante de uma obra que se constrói espiralmente, em anéis cada vez mais amplos, cada vez mais distantes do bigbang de um orgasmo divino. Estamos perante um poeta da extensão, de um arco tenso em que as palavras são pedras milenares na construção de um templo aberto. Cada palavra-pedra traz a sua própria assinatura, como nos livres pedreiros. O sentimento mais profundo e determinante é de natureza elegíaca, pois a alegria está ausente desta percepção trágica e oriental do mundo.
Poderíamos falar aqui de um niilismo místico, de um secular endeusamento do corpo e do empiricismo do seu entendimento da verdade, de uma ciência do espírito, oracular e agónica, de uma reivindicação da morte dos deuses e de Deus e da sua substituição por um orgulho humano, no masculino. Mas não encontramos uma transparente fundamentação desse orgulho, cuja dogmática cristalina é afirmação paradoxal de uma anti-vida, de uma mundana e mundificada consciência do seu valor na história do mundo. Não existe aqui uma metafísica, no sentido em que esta é por definição especulativa. Respiramos, às vezes, a atmosfera de um mausoléu pré-rafaelita. Vemos o retrato do poeta e dos "jardins bifurcados" que o emolduram, e interrogamo-nos sobre o significado desse grande silêncio metafísico.
A sua "poesia" é uma das mais brilhantes narrativas do século vinte português. Uma epopeia do ego, refulgente como um diamante negro na claridade inocente dos dias. A sua arte é a composição do verso/linha como unidade rítmica fundamental, como sequenciação de um resfolegante ritmo de pensar. Mas não encontraremos aqui um teatro de corpos dentro da paisagem absurda do mundo, senão um cameraman que vê o que os seus olhos captam através de uma lente onírica, alheada do "real", na qual se reflecte o desejo estilhaçado por um corpo eleito como único sensor do mundo, numa absurda mas incontornável recusa de um absoluto. Como num expressionista, o pai foi morto aqui, mas por ausência. Hermetismo órfico, de uma poesia agonicamente dionisíaca. Um poeta do qual, com propriedade, se poderia dizer que nasceu com os olhos para o mundo por dentro.
(1)-Hipertexto de mote alheio.
Jorge Telles de Menezes (11.11.2006)
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