|
Com mais de 60 participantes e um dia radioso, depois duma semana triste e chuvosa, decorreu no passado Sábado, dia 28 de Outubro, mais um roteiro pedestre da Alagamares-Associação Cultural em busca da História Local, desta feita dedicado à Praia das Maçãs e Azenhas do Mar.
Ambas as localidades têm bastante que contar, desde um passado imemorial, de presença romana coeva e templos do Sol desaparecidos, até às angustias do presente, marcadas pelo abandono de património - casas de Alberto Tota e Carvalho Monteiro - e as pressões urbanísticas descaracterizadoras, vivendo hoje no "fio da navalha" de um destino incerto após a entrada em vigor do Plano de Ordenamento da Orla Costeira Sintra-Sado, que tem ideias para o litoral mas tarda em traduzir-se em Planos de Pormenor que identifiquem propostas concretas de uso do solo e permitam elaborar uma estratégia para a zona costeira.
 Foto nr. 1: Roteiro entre a Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar; © Alagamares (28.10.2006).
Os participantes puderam colher um manancial de informações de índole quer histórica quer etnográfica, da palavra fluente e conhecedora de João Rodil, orador profundo e apaixonado, e além do mais filho da terra. As patologias que o (des)ordenamento do território trouxeram a locais hoje alvo do betão inconsequente, foram aspectos focados pelos convidados da Alagamares, o arquitecto Jorge Borges e o arquitecto paisagista Nuno Filipe Oliveira, autores de estudos para um Plano de Pormenor da Praia das Maçãs, que tem tudo para ordenar a praia, faltando a vontade política de desencadear os mecanismos formais com vista a torná-lo, nesta ou noutra versão participada e discutida, eficaz.
 Foto nr. 2: Roteiro entre a Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar; © Alagamares (28.10.2006).
Dos antigos se pode dizer que vieram atrás das praias iodadas, marginadas pelos mindéis e vinhas do bom ramisco, na busca da vilegiatura sazonal. Foram Alfredo Keil, Garcia de Castro, Eugénio Levy, Alberto Tota. E a Praia cresceu em hotéis de charme, impulsionados pela chegada do eléctrico em 1904, e virou praia da moda. Ali veranearam Afonso Costa, José Malhoa, Ferreira de Castro, e outros. Nos anos 20 havia já um fenómeno de massas, falando os livros da acção da Associação de Caridade de Sintra, que levava as crianças pobres e raquíticas a banhos, para, no dizer de Carlos França, médico e grande vulto colarense, "apurar a raça".
 Foto nr. 3: Roteiro entre a Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar; © Alagamares (28.10.2006).
A partir dos anos 70, com o despontar do Algarve e o gosto por praias de águas mais tépidas, o litoral sintrense feneceu, e enfrentou a chegada das urbanizações de gosto duvidoso, dos prédios descaracterizadores, a par com regras ditas de "protecção" que até hoje pecam por lhes faltar um plano de acções concreto e revitalizador da Praia e das Azenhas do Mar.
 Foto nr. 4: Roteiro entre a Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar; © Alagamares (28.10.2006).
Durante o périplo de mais de quatro horas, outros técnicos, que se juntaram aos oradores, revelaram terem igualmente elaborado estudos de ordenamento e consolidação destas localidades, pelo que se pode inferir que estudos aturados e trabalho de "casa" existe, pelos vistos feito para "a gaveta".
 Foto nr. 5: Roteiro entre a Praia das Maçãs e as Azenhas do Mar; © Alagamares (28.10.2006).
Não se viram as maçãs de quatro palmos nem o âmbar de que falava em 1220 Ibn Almunine Alhimiari, escritor árabe do Al-Andaluz. Mas deu para ver que pode haver luz ao fundo do túnel se houver vontade de ultrapassar as contradições e indefinições e se lançar um ordenamento territorial pró-activo e que defina um desígnio e uma marca de referência para estas praias "ex-libris" da nossa costa atlântica.
Fernando Morais Gomes (29.10.2006)
|