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 «Pantónicas»: Uma performance na Horta

Jorge Telles de Menezes

As "Pantónicas", género de performance que combina teatro, música, poesia, imagem e outros meios, foram criadas pelo agrupamento sintrense Sintoniclab, no ano 2000, tendo-se até hoje realizado cinco apresentações. O nome deriva do conceito de A. Schoenberg de pantonalismo. Os Sintoniclab são hoje um "ambiente" e uma fonte de criatividade dentro da macro-estrutura que é o Teatro Tapafuros.


A 5ª Pantónica teve lugar no Cine-Teatro Faialense, na cidade da Horta, Açores, no passado dia 30 de Setembro. Foi o resultado de um seminário do Teatro Tapafuros, de Sintra, com as alunas da Escola Profissional da Horta. Estiveram em palco dezassete alunas como performers, coro e solistas, além de cinco músicos e dois actores. Jorge Telles de Menezes, colaborador da Alagamares, presente no encontro, escreve sobre a experiência.

É de teatro que as Pantónicas, afinal, falam

A palavra dita é a geratriz da palavra poética, escrita. Nos ancestrais ritos das civilizações agrárias, a poesia, antes de o ser como nós hoje a concebemos, era dita em sintonia com a música e a dança, quando das celebrações invocatórias do mistério ou transcendência.

Na suspensão ou inversão do tempo desses rituais propiciatórios o homem sai para fora de si mesmo, da sua condição mineral e orgânica, e nesse estado de ex-tase, de esquecimento de si na loucura colectiva revela-se-lhe uma ponta do grande mistério que existe em todas as coisas, em todo o ente, páginas de um livro grande como o universo, escrito desde o princípio dos tempos, e que ele na sua trágica finitude anseia por ler integralmente.

Esta imagem arquetipal da origem das três artes que confluem nos antigos rituais de re-ligação macrocósmica do homem, a saber, a palavra dita, a música e a dança, corresponde no essencial à mais funda ideia do que é um recital pantónico. Na Pantónica V, "Arquipélago", coube aos estribilhos ditos em coro a função axial e religadora de toda a performance, observando assim uma das linhas orientadoras desta arte, o princípio repetitivo. Não que as Pantónicas não desdobrem o seu próprio cânone, mas elas reconhecem que se inserem num vasto movimento de fusão estética entre várias disciplinas nascido na segunda metade do século XX.

Há um aspecto curial que separa, contudo, uma celebração pantónica dos antigos rituais pagãos, que é a sua irrepetibilidade; cada apresentação é única, não se repete no tempo de um calendário, nem no espaço sagrado votado aos rituais como acontecia nas sociedades agrárias. Enquanto comunhão coeva, a acção pantónica é uma celebração e um ritual nascido no seio da sociedade técnico-científica como expressão de um des-terramento, de uma destribalização do homem moderno, e por isso as suas temáticas são em geral abstractas ou abertamente metafísicas, raramento incidindo sobre o elemento político.

É de teatro que as Pantónicas, afinal, falam. Teatro, música e poesia encenados uma única vez, irrupção de uma Gestalt, uma pré-configuração conceptual que fornece uma arquitectura flexível, que pela maleabilidade e permutabilidade dos seus materiais deixa na sua construção um lugar para o imponderável. "Arquipélago" adoptou como modelo o próprio fenómeno da vida na sua macro-expressão: nascer, viver e morrer, e dividiu estes três tempos em nove momentos separados por intermezzos. No acto de nascer estão contidos os momentos da explosão e da expansão. No intermezzo que se segue exprime-se a renovação dos elementos. No acto seguinte, viver, sucedem-se cinco momentos: erupção, desolação, germinação/germinar, tempestade e bonança. Aqui encontramos o homem no centro que é a sua vida, centro a partir do qual ele se religa à sua condição cósmica pelo germinar em sincronia com o segundo intermezzo, ou acalmia dos elementos. No terceiro e último acto, morrer, ocorrem a contracção e a implosão, que são precedidas do último coro, ou revolução dos elementos. Nove ilhas, nove momentos, um fio condutor que é a Gestalt de um organismo vivo na sua sequência natural, um arquipélago que se ex-põe como capicua para a encenação, e uma configuração que oferece o sentido para a seriação dos poemas, eis a estrutura dentro da qual em quatro dias cresceu e se apresentou "Arquipélago".

Cenograficamente, postada no início junto da porta do fundo de cena, mas do lado de fora, já sobre a ponte de carga, uma performer lê o primeiro poema, marcando o começo do espectáculo. Ao fundo da ponte, pendurado numa escada em posição descendente, um performer segura um livro aberto nas mãos, o livro da sua vida ainda por escrever. É o primeiro momento - a explosão -, e numa marcha cadenciada avançam batendo os pés sobre o metal da ponte as dezasseis performers do coro e solistas até ao centro do palco, enquanto a primeira que lera o poema fecha a porta atrás de si e o actor nas escadas desaparece de cena. O espectáculo passa a desenrolar-se dentro da caixa negra do palco.

A vida é agora uma representação da sua própria evolução num ser humano, desde a sua explosão/nascimento até à sua implosão no palco do mundo. No poema final, lido pela performer inicial, esta encontra-se novamente na realidade existente para além da porta do fundo, a vida não se encerra na representação que dela fazemos neste citéreo existir. Paralela e continuamente, novas fases da vida se sucedem, mesmo depois da morte, e o performer inicial ascende a esse estado quando depois de lido o último poema atravessa o palco em silêncio, de costas para o público, para sair pelo fundo de cena e ficar em posição ascensional nas escadas com o livro fechado nas mãos. A primeira performer pede silêncio ao público com um gesto, fecha a porta e a performance acaba.

Uma apresentação pantónica deveria ter como audiência ideal um público participativo, objectivo que nem sempre tem sido conseguido. Desta vez, no entanto, perante um público imóvel, é de salientar a extraordinária participação anímica de um bebé na assistência que, entre outros momentos, abriu e fechou a ouro com sua voz a actuação em palco dos performers e músicos. Se na vida raramente temos a possibilidade de dizer que existem acasos perfeitos, o mesmo é indiscutivelmente verdade acerca da arte. O que aconteceu nesses momentos foi um perfeito acaso de beleza, o casual encontro entre a voz de um bebé e o início e o fim de uma performance, no sentido anunciador da moderna ideia de beleza como a definiu o misterioso conde de Lautréamont. A parte final de "Arquipélago" é assim um jogo aleatório e indeterminado como é a própria vida, com uma porta aberta para o infinito.

Jorge Telles de Menezes (14.10.2006)




 
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