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Camilo Broca, romance de Mário Cláudio, recentemente publicado nas Publicações D. Quixote, narrativa da presumível genealogia familiar de Camilo Castelo Branco, constitui-se, por dois motivos, como o melhor romance português publicado este ano: primeiro, porque se evidencia como síntese actual da memória da língua portuguesa; segundo, porque, ultrapassando o conjunto de histórias narradas, resgata e condensa, à entrada do século XXI, um suposto "espírito do Norte" presente na história do romance português entre os séculos XIX e XX.
Cruzando ambos os factores, Camilo Broca patenteia igualmente tanto a soberba mestria de Mário Cláudio na manipulação estética da língua quanto o lugar ímpar deste autor no panorama da literatura portuguesa.
Com efeito, Mário Cláudio ostenta em Camilo Broca um elevado domínio lexicológico da língua portuguesa, figurando um amplo leque vocabular histórico-semântico sem paralelo entre os actuais autores portugueses. Forçando um dificílimo equilíbrio entre a memória racional da língua e um universo nortenho de vínculo rural, Camilo Broca revela, de facto, um encadeamento vocabular harmónico reflector simultâneo de várias camadas sobrepostas da história da língua, que, ainda que perdidas no registo escrito, permanecem resguardadas em reminiscência na oralidade do quotidiano, nomeadamente na usada fora dos centros urbanos. Mário Cláudio, num efeito estético surpreendente, ressuscita mil e um antigos sentidos lexicais, dando-nos a reviver planos difusos de diferentes universos semânticos que, em jogo lúdico-estético, reenviam a nossa memória literária (que é a verdadeira memória da língua) para as narrativas de Camilo, de Antero de Figueiredo, de Tomás de Figueiredo, de Raul Brandão, de José Régio, de Aquilino Ribeiro, de Araújo Correia, de Miguel Torga, de Agustina, do último Vasco Graça Moura, de Bento da Cruz, de António Pires Cabral, renovando-os segundo a harmonia entre o seu sentido histórico e o sentido actual. Este efeito, harmónico, desprovido de violência semântica (violência habitual nos autores universitários que, preguiçosos na investigação, enveredam pela descrição ruralista ou pelo romance histórico), não contunde com nem bloqueia a leitura de Camilo Broca. Pelo contrário, jogando passado e presente da língua, desperta no leitor vastas reminiscências linguísticas, cujo trançado inconsciente compõe - mais do que a estrutura circular do romance -, a forma estética do romance. Camilo Broca é um romance que não deve ser lido, mas, usando a competência linguística brasileira, ir sendo lido, lentamente, degustativamente, saltando de história para história, sem o pudor da cronologia, que racionaliza mas inibe a apreciação sensorial do sentido conotativo da frase. Deste modo, este último romance de Mário Cláudio, tornado em objecto estético da língua, mais do que destinado à leitura, é destinado à perambulação, como quem passeia por um quadro, laureando os sentidos, sem intuito cognoscivo.
Numa outra vertente, ler Camilo Broca é penetrar num universo linguístico especificamente português, ou historicamente português, totalmente ao arrepio do actual uso urbano e europeu da língua, de competência vocabular profana, ligeira e facilitista. Não é de admirar, portanto, que se identifique as narrativas de Mário Cláudio com uma expressão luxuriante da língua, seja no sentido da complexidade formal da arquitectónica dos seus romances, seja no sentido de autor de escrita difícil. É que o espaço estético dos textos deste autor se forma, para além da inspiração realista, de um laborioso rendilhado da escrita em que cada palavra é seleccionada enquanto dupla correspondência - primeiro, à memória histórica da língua; segundo; à função que o todo da frase lhe exige. Neste sentido, os romances de Mário Cláudio, mais do que exigirem um leitor social, mundano, exigem sobretudo um leitor estético, cuja qualidade de recepção se encontre em harmonia com o grau de dificuldade que o autor prescreve à sua própria escrita. Lamentavelmente, não abunda hoje este tipo de leitor pelo todo de Portugal.
Para além de memória cristalizada da língua portuguesa, Mário Claúdio evidencia-se neste romance como síntese e resultado de cerca de duzentos anos de uma suposta "pronúncia" do Norte na literatura portuguesa, expressa pelas obras dos autores acima referidos. Com efeito, nas personagens de Camilo Broca cultiva-se uma constelação de valores que, mais do que em narrativas rurais, possui o seu apogeu ideológico nos romances de autores nortenhos: um vitalismo instintivo, uma psicologia de animal da terra, defensor da salvaguarda do nome e do pecúlio familiares sobre a quezília das partilhas e as vinganças dos desenganos, um paganismo panteísta que identifica a natureza com uma lágrima de Deus (Teixeira de Pascoais), transfigurada numa paisagem humana triste, atestada de obstáculos, que são simultaneamente provas à fé e à acção dos homens, um espírito moldado carne em alegria pagã, que convida à exuberância, às acções extremadas, próprias dos heróis ou dos loucos, criticados pela sensatez burguesa, que reduz o desejo de infinito ao interesse familiar, e pelo cepticismo pessoal, que, no entanto, não quebra a força dos braços, sempre dispostos a lutar contra a má sorte ou a resistência numa teimosia de lavrador habituado a domar terra, flora e fauna. Também habitam o desenho das personagens o pudor do corpo na mulher e o horizonte libertino no homem, uma espécie de naturalização dos sentimentos por que irrompe, a espaços, o destino de uma grande paixão, reconstruindo genealogias, levantando casas apalaçadas, posteriormente tornadas totens familiares. É igualmente próprio das personagens de Mário Cláudio o embate de Adamastor do homem contra o meio, concorrendo com todas as suas pulsões vitais para domesticação do ambiente, evidenciando o homem do Norte como dono e senhor da natureza, dos socalcos do Douro aos vales do Barroso e das serras do Montezinho e da Nogueira, passando pelas ventanias das póvoas, gerando um homem extremado, capaz do tudo e do nada, do desespero choroso e da alegria vivificante, numa espécie de balanceio entre uma acracia individualista, em que cada um faz as suas regras, e um comunitarismo religioso de tendência pagã, prestes a desafiar a morte em atitude nobre, mas também senhor de um reles pensamento calculista onde, não raro, a especulação e a grandeza se asfixiam medidas em libras esterlinas, abandonadas ao gozo dos sentidos, ao bucolismo do terrunho e à acumulação do património próprio.
Por todas estas razões, não ler Camilo Broca constitui-se como crime de lesa-cultura.
Miguel Real (24.09.2006).
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