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 Francisco Costa: ser um poeta de ... Cynthia!

Jorge Telles de Menezes

Ser, na osmose com a sublime montanha do nosso humano espanto, o Poeta trovador desta benevolente cantata dos deuses, sê-lo por obra do destino, esse livro inenarrado, cujas páginas apenas Deus folheia na sua imensurável solidão. Do humilde lavor do homem para fixar na palavra a transcendente Luz, saem preciosos versos, que nos evocam o mistério envolvendo a criação do Grande Esteta: a Natureza - suprema verdade, cenário certo da Vida e da Morte.

De que nos falam, estes Versos da Intimidade, senão dessa fusão da Vida no cósmico anfiteatro de Deus? Concebidos são eles desde essa consciência da relatividade da razão humana, à qual só a Fé supera no dom da verdade; trágico será assim o pobre destino humano, e a Salvação, se for encontrada, sê-lo-á apenas na percepção mediatizada, mas sempre incompleta, da eternidade da divina vontade.

O poeta também se torna sacerdote, num ciclo de existência que lhe cabe, se é que não erramos ao interpretar os sinais desse Além que nos transcende. Como estátua, peregrina a Poesia no sentido inverso da História, parando no Tempo, retrocedendo, lembrando-nos sempre um tempo que já esteve mais próximo do Arquétipo, do que o nosso, seus leitores contemporâneos.

A experiência de que nos fala o Poeta, é o mais autêntico - por conseguinte o mais belo! - testemunho que ele nos pretende transmitir. Daí a exemplaridade da sua poesia. O poeta torna-se assim um "possesso", o seu destino traz a marca imponderável da oculta mão de Deus. A Verdade das leis escritas no Grande Livro Invisível, possui o poeta, talvez dissesse, como o grande vidente de Buenos Aires, torna-o um amanuense do Espírito.

Ter sido escolhido para cantar Cynthia, é este o não pequeno destino do poeta Francisco Costa. Que mais poderia ambicionar a pobre linguagem humana, senão poder transpor para a sua própria órbita, a atmosfera sublime do Jardim que a benevolência divina, certamente com um doce sorriso criou, para levar o transitório humano a meditar na Sabedoria encerrada na Beleza perante seus olhos deposta?

"A Deus só consagro o que me é dado por Deus"

Nos ulmeiros, nos cedros andam sinais do Jardineiro, e até os humanos castelos se tornam místicos e imponderáveis, lenda que a Hera das Estações já inscreveu no seu livro aberto. Epigráfica teria de ser assim a poesia deste "jardim terreal"; que maior glória haverá, senão a de decifrar nas nuvens, nas árvores, nas pedras, as inscrições que a eternidade vai gravando na sua marcha reintegradora do tempo, que é para nós humanos, quase inapreensível?

Confunda-se, pois, o Poeta no frondoso verde, nas fontes, na floresta-deusa, na Primavera e nas outras estações, nas folhas que vão caindo amarelas com o vento, sobre o mar bramoso, para nos oferecer a suprema essência do perfumado canteiro, onde a sua própria intimidade medrou, e da qual nos vamos apossando, nós leitores, suavemente, aproximando-nos mais de Deus, ou do fundo de nós próprios, com esta Poesia.

Podemos reencontrar nestes versos a nostalgia do paraíso perdido, fragmentos epigráficos dessa Beleza original, cuja Luz tão forte nos teria cegado depois da Queda se, porventura, a tívéssemos contemplado. Fica-nos o assombro perante esta herança inscrita em poemas de árvores, de pedras, ocasos esplêndidos, nuvens, bruma de incertitude de mundos, em palavras esculpindo eternidade na fronte do Poeta que buscava o Sonho, que nos traduzisse para a Alma, reflexos de uma Glória inicial que foi Absoluta.

Jorge Telles de Menezes (17.09.2006).




 
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