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 De Cynthia à Sintra, passando por Shintara

Cultura


Mohamed Moatassim, natural de Marrocos, vive em Lisboa há alguns anos. Formado em Antropologia, interessa-se pela cultura árabe em Portugal. Visitou o Castelo dos Mouros, por curiosidade, do que resultou este artigo. Trabalha como jornalista independente.



A Coroa Descorada

À chegada a Sintra, não basta levantar os olhos em direcção à montanha para ver o Castelo dos Mouros. É preciso ir até ao centro da Vila, virar as costas ao Palácio da Vila e daí, olhando para cima, aparece uma muralha quase despercebida. Um ninho de águia agarrado ao espigão, segue tão bem as suas bordas que se confunde com elas. Mas parece tão longe e tão inacessível. À primeira vista, a ascensão não será fácil. Não obstante, além de um veículo pessoal, não faltam os meios para lá chegar: autocarro ou 2 C.V., quero dizer, uma caleche com 2 cavalos. Serpenteando no flanco da montanha, uma só estrada leva para lá, a Estrada da Pena. Todavia, aqueles que quiserem ir a pé (há intrépidos, encontrei alguns) precisam de uma boa dose de coragem e, sobretudo, de saúde.

"Assaltantes"

Às vezes, são muitos os "assaltantes" que se encontram neste caminho abrupto, andando em fila indiana, com uma mochila nas costas. Geralmente, quando não passam pela estrada, tomam certos atalhos; todavia, precisam de saber quais. Começa-se atravessando o Parque da Liberdade. Situado no flanco da montanha, ao pé da Serra é, por isso, muito escarpado e cheio de alamedas sinuando entre os canteiros, ordenadas em escadas alcatifadas de relva e flores. São, por assim dizer, os primeiros degraus. Depois, a encosta torna-se cada vez mais íngreme. Por fim, alcançam-se algumas casas que ficam a umas dezenas de metros da cerca primitiva, quase totalmente destruída. Só restam vestígios, tapados pela vegetação. E, de repente, nota-se um atalho que leva para uma das mais antigas entradas do Castelo. É uma espécie de guarita, reforçada agora com um torniquete enferrujado. É preciso assinalar que esta entrada não deve ser muito usada, visto que muitos visitantes que conhecem as sentinas preferem contornar a montanha, para se dirigirem à porta principal. Esta permite o acesso ao recinto actual, ao qual se acede através de um caminho tortuoso, salpicado de cascalho e areia grossa.

Mistério

Vamos então por esta entrada abandonada! Além do torniquete, um silêncio de almocávar (*). Em volta, ninguém! Nem sequer um pássaro! Mas, faz-se sentir um murmúrio, o do vento nas ramagens. A alameda sobe imperceptivelmente: permite, às vezes, o acesso a um outro nível, quase sem esforço. Outras vezes, é preciso escalar alguns degraus deformados, cheios de vácuos, bossas e gibas, e pôr os pés no sítio certo para não tropeçar. O caminho torce; está invadido de ervas e semeado de manchas de sol. O cimo dos choupos está tão folhudo que só se vêem pedaços de céu. E os raios do sol parecem ter rebentado em mil bocados cintilantes. Aqui e ali, grandes penedos de granito, cuja parte superior exibe uma cabeleira de líquenes: estranhas cabeças sem olhos nem orelhas! Menires improvisados, jarros gigantes? Grutas misteriosas colocadas ali não se sabe como, ou será só um capricho da natureza? Ou foram cavadas para a celebração de ritos ocultos nos tempos de outrora. Mistério!

E a alameda prolonga-se, tapete de pedras e terra, bosselada, rachada, atapetada de tudo que a vegetação liberta: folhas, raminhos, bolotas. Aqui e acolá, árvores escorchadas, cascas desfiadas. Eis, lá em baixo, folhas banhadas de sol: frutos de prata de um jardim mítico qualquer, à espera de serem apanhadas por um herói qualquer, recompensando uma prova qualquer!

(*) Almocávar ou almocábar, cemitério dos Mouros.

"O Castelooo!"

O solo é cada vez menos acidentado. Parece mesmo que foi aplanado. De repente, oiço andar atrás de mim, por causa do cascalho que range sob os sapatos. Acompanhado por duas crianças, um casal ultrapassa-me, andando com bastante rapidez. Os miúdos prestam-se com muito gosto a esta ascensão. Afogados até ao pescoço nos seus casacos, as mangas mais compridas do que os seus pequenos braços, saltitam como pardais. Depois de uma curva, numa alameda dotada de um rochedo, perco-os de vista. Pouco depois, oiço duas vozes agudas gritar de alegria: "O casteloooo!". Com efeito, logo após a esquina da alameda, um caminho sobe para a actual entrada do Castelo, cuja parte do recinto já se vê. Antes de lá chegar, à direita, um pátio com um carvalho plantado no meio e paredes em ruína. A entrada da única sala, ainda intacta, é de estilo românico. O que pode ser? Uma antiga estalagem? Um entreposto abandonado? De modo nenhum! São os restos da igreja de São Pedro de Canaferrim, a capela românica do Castelo. Fica fora do recinto. Segundo a crónica oficial, foi construída por ordem de Dom Afonso Henriques(*), uns anos após a rendição da fortaleza, em 1154. Outras fontes optam pela tese de uma antiga mesquita.

A origem do nome "Canaferrim" é bastante obscura. Mas como na documentação medieval escrevia-se "Calaferrim", estaríamos na presença de um vocábulo híbrido: "Cala", do árabe "qal'a", promontório, e "ferrim", ferro. Em suma, é uma explicação entre outras. Aliás, a região é rica em nomes de origem árabe. Assim, evocando só alguns exemplos, citaremos as localidades de Algueirão, Almoçageme, Assafora, Azóia, Cacém.

Ossadas, jarros e vasos

Escavações empreendidas neste sítio, nos anos 80 e 90, permitiram exumar diversos objectos em cerâmica. A sua origem remonta ao Neolítico antigo (de 5000 a 2500 anos A.C., para a Europa). Situado no sul do Castelo, numa depressão, está fora do alcance dos ventos dominantes. Por esta razão, teria servido de armazém, segundo os arqueólogos. Contudo, apesar da grande variedade dos restos achados, alguns estavam num estado tão mau que não permitiam estabelecer uma cronologia bastante precisa. É também neste lugar que, em 1993, outros vestígios relativos à civilização muçulmana, foram encontrados. Assim, tulhas subterrâneas abrangiam um conjunto de objectos heterogéneos: fragmentos de telhas, uma quantidade pequena de ossadas, por um lado. Cântaros, vasos, pratos, gomis, etc. por outro. Confrontos com informações recolhidas noutros sítios arqueológicos (**) permitiram estabelecer uma avaliação mais ou menos precisa. Eis dois exemplos: os vasos remontariam aos séculos IX-X. quanto aos cântaros, seriam de uma época mais tardia, dos séculos XI-XII. Todos os objectos achados durante estas escavações estão expostos num museu que fica numa pequena localidade, a uns quilómetros daqui: São Martinho de Odrinhas.

(*) Primeiro monarca de Portugal. Conquistou Lisboa em 1147.
(**) Silves, Palmela.

A alcáçova

Apanhando uma alameda que sobe para a entrada do castelo propriamento dito, uma placa de madeira em forma de seta indica: Castelo dos Mouros. Duas torres já estão visíveis. Uma ramalhuda, herbosa; a outra, glabra e onde se ergue uma bandeira. Dotada de um olho - uma seteira -, exibe-se orgulhosamente, dominadora, solidamente agarrada a enormes penedos. Estamos diante de um verdadeiro forte, um "hisn" (*) ou uma alcáçova. E as ameias recortam-se num fundo de céu azul. A uns metros daí, em frente do portão, mas mantendo-se afastado um pouco, um jovem com fato de funcionário. As mãos atrás das costas, anda devagarinho, curvando o busto um bocado. Mas logo que aparece uma pessoa ou um grupo, ergue-se e, com grandes passadas, vai imediatamente colocar-se frente à entrada. É um empregado municipal cuja função é a fiscalização dos bilhetes. Barra a passagem, cortesmente!

(*) Outro nome para alcáçova, em árabe.

A cisterna

Estamos finalmente dentro do recinto! À esquerda, duas espécies de cilindros erguidos num terrapleno. Nos seus cumes, a abertura está parcialmente obstruída. É a famosa cisterna do castelo. A entrada fica mais adiante, num nível inferior. Chega-se lá contornando um poço dotado de um parapeito com alguns centímetros de altura. Através da grade, emana uma frescura desabitual que pica o rosto e exala-se um cheiro de podridão. Enquanto estou a olhar para o líquido enegrecido, que cintila levemente, oiço o eco de duas vozes e qualquer coisa (uma pedra?) cai na água, fazendo um "puf " sonoro que me faz sobressaltar!

A água da chuva penetra na cisterna por quatro manilhas situadas nos cantos superiores. Servia para o abastecimento dos ocupantes do castelo. Separados do tanque por uma alameda, muros baixinhos, parcialmente destruídos, demarcam uns compartimentos a descoberto, que parecem ter servido de abrigo para cavalos ou outros animais.

Além, um terrapleno, no meio do qual se ergue uma árvore ao lado de um rochedo. Esta rotunda improvisada leva a uma parede intransponível. Esta é constituída de penedos gigantes e de um montículo eriçado de álamos. Numerosas inscrições adornam estes megalitos. Os visitantes deixaram vestígios da sua passagem e dos seus caprichos. Aqui, é o castelo dos …Namoros! Não é preciso ser arqueólogo para concluir que não remontam ao Neolítico.

Arrepiando caminho, reencontramo-nos em frente do portão de entrada, mas a umas dezenas de metros. Um troço de muralha projecta-se entre os choupos com cumes altíssimos. É o limite ocidental do castelo. Aí encontra-se a famosa Porta Árabe. Encimada por um arco em ferradura, dá acesso a uma das torres desta parte do recinto. Presentemente, abriga a central eléctrica da alcáçova.

Restauração

A solidez da fortaleza espanta os visitantes. Decerto, a alcáçova "resistiu" às agressões dos séculos, mas não sem danos. Por exemplo, a Torre Real foi em parte destruída por um raio, em 1636. E o terramoto de 1755 danificou-a seriamente. Mas, se o clima rói e esboroa, não se deve esquecer a acção do homem, pois o castelo sofreu múltiplos assaltos, primeiro pelos Normandos e, mais tarde durante a Reconquista, no século XII. Na realidade, o bom estado de conservação não depende de um milagre, porque ele beneficiou de muitas obras de recuperação e de conservação. Em primeiro lugar, as dos séculos XII-XIII, respectivamente por Afonso I e Fernando I. Em seguida, no século XIX, pelo rei Fernando II, igualmente o autor da rearborização da região. E por fim, no século XX (*).

(*) 1939: reconstrução das muralhas; 1986: limpeza do recinto; 1999: limpeza e obras de alvenaria.

De Cynthia à Sintra

Lá em baixo, no vale, Sintra expõe as suas casas com telhados almagres. O palácio destaca-se pelas suas entradas ogivais e, sobretudo, pelas duas chaminés gigantes, parecidas com incensórios e que eram, há pouco, de uma brancura imaculada. São cinzentas, agora. Estamos a 450 metros de altitude, e a planície desenrola a sua verdura até ao oceano, que a bruma ascendente impede de distinguir.

Acerca desta localidade, os primeiros testemunhos escritos são romanos. Ptolemeu (século II D.C.) atribuiu-lhe o nome de "Mons Lunae". Suntria, a forma medieval mais antiga, provém de um radical indo-europeu, "Sun", que pode significar tanto sol como lua. Todavia, duas versões diferentes optam por este último astro. A primeira faz derivar Sintra de Cynthia, símbolo da lua na mitologia celta. E a Serra é o promontório onde eram praticados os velhos cultos deste povo. A segunda sustenta que Cynthia vem do grego, Kinthya (Artemísia - Diana, para os Romanos), a deusa da lua. Daí, a denominação de "Monte da Lua". E, também, o nome de Sintra.

Passando por …Shintara

Durante a sua presença na região (séc. VIII-XII), os Árabes não deixaram de elogiar a beleza de Shintara (*). Assim, um autor do século XII, Al-Himiari, descreve-a como sendo "uma das cidades que dependem de Lishbuna (**), na Andaluzia, na proximidade do mar. Está permanentemente mergulhada num nevoeiro que não se dissipa. O seu clima é saudável e os seus habitantes vivem muito tempo". E acrescenta: "Shintara é uma das regiões onde as maçãs são mais abundantes. Têm um tal tamanho que algumas podem alcançar quatro palmas de circunferência. As pêras também. Na Serra de Shintara, crescem violetas selvagens. Da costa próxima, extrai-se um âmbar de excelente qualidade (…)".

Também do século XII, o famoso geógrafo, Al-Idrissi, destaca a dependência de Sintra relativamente a Lisboa. E todos salientam a importância económica da região e a posição estratégica do Castelo. Com efeito, este era a sentinela de Lishbuna.

(*) Sintra, em árabe.
(**) Nome árabe de Lisboa.

Sinfonias verdes

Sintra possui uma paisagem idílica. A região goza de um micro-clima que lhe imprime um carácter particular. Os maciços montanhosos interceptam o nevoeiro proveniente do oceano, o que leva a uma humidificação constante. Isso favoreceu a aparição de uma biodiversidade extraordinária (*). E de uma espantosa exuberância de verdes. Segundo os botânicos, haveria cerca de seiscentos tons diferentes, o que é único no mundo. "Sortilégio de verdes sinfonias", canta a poetisa portuguesa Oliva Guerra.

O sítio abunda, também, em fontes naturais. E isso vê-se nos múltiplos chafarizes revestidos de azulejos de cores vivas e atraentes, cuja água corre num fio ininterrupto. No Verão, basta vê-los para refrescar-se. Ao longo dos séculos, esta natureza fascinadora inspirou numerosos poetas e escritores portugueses e estrangeiros.(**). No século XIX, os Românticos cantarão a sua esplêndida natureza, o seu encanto incomparável. Alguns entre eles associarão esta luxúria floral ao mito do paraíso perdido. Evocando a Serra de Sintra, o poeta inglês Lord Byron falará de um "Éden glorioso". Por seu lado, o famoso compositor austríaco , Richard Strauss, aquando da sua visita a Portugal, considerou-a como a coisa mais bela que ele jamais viu. E o Palácio da Pena e seu parque relembrou-lhe o Castelo do Graal.

(*) A vila foi classificada Património Mundial, no dia 6 de Dezembro de 1995.
(**) De Gil Vicente e Camões a F. Pessoa, passando por Eça de Queirós, para os Portugueses. De H. Christian Andersen a Valéry Larbaud (entre outros), para os estrangeiros.

O "Ad-Darve"

Mas voltemos ao Castelo! Na vertente sul, três das torres quadrangulares erguem os seus muros sólidos, furados de seteiras, como olhos sem órbitas. No interior, o vento sopra fortemente. Sentimo-lo penetrar e enrolar-se como uma serpente à volta duma presa. Outrora, postos de vigia; hoje, observatórios para admirar a vastíssima e verde planície de Sintra, que se estende a perder de vista. As crónicas históricas falavam de ver o inimigo de longe, das torres de vigia. De facto, quando o tempo o permitia, não era difícil detectar no vale, ou no oceano, uma manobra de tropas ou um barco inimigos. Os visitantes entram e saem pelas aberturas, sobem ou descem alguns degraus, e andam de uma torre para a outra. Imortalizam frequentemente a sua presença nestes sítios tirando algumas fotografias. Depois, reiniciam o seu passeio no caminho da ronda, o adarve (*) em português. É ora nivelado ora acidentado.

Esta parte do recinto foi construída sobre enormes blocos de granito de cor cinzenta escura, como se vê por todos os lados nesta serra. Presentes tanto no exterior como no interior do castelo, estes rochedos são de vários tamanhos. À vista, os mais leves devem pesar pelo menos algumas toneladas. Se um deles tivesse o "capricho" de cair, faria certamente estragos enormes, Pois, se alguns deles parecem plantados no solo, outros dão a impressão de estarem apenas ali "postos". Todavia, a massa rochosa sobre a qual assenta a cerca faz parte da montanha. Excepto em caso de cataclismo, os penedos não estão prestes a cair. Mas, um terramoto já teve lugar, em 1755! E os rochedos continuam lá, ancorados, inamovíveis, tenazes!

(*) Do árabe "ad-darbe", caminho e, em sentido lato, rua ou ruela.

Quinhentos degraus

E a muralha prolonga o seu desdobramento. Contorna um terrapleno algo acidentado, mas verdejante. Além, começam os…quinhentos degraus. No terreno que sobe progressivamente, levam para as últimas torres do castelo. Uma delas é a Torre Real, de tamanho, claro, muito maior. Entre as ameias, o vento sopra ainda com mais força. Balizado por degraus pequenos, o caminho de ronda toma a forma da encosta. Quase imperceptível no início, esta torna-se cada vez mais íngreme. Ao fim desta ascensão um pouco penosa para alguns, engraçada para outros, a Torre Real impõe a sua presença altiva. Entra-se por um portelo bastante baixo. No interior, num pedaço de muro, uma saliência em pedra, semelhante a uma banqueta. Uma espécie de estrado constituído de blocos de pedra permite a subida para a parte superior da Torre. Um casal de namorados, mão na mão, já tomou lugar nestas alturas. Uma vez em cima, tem-se a impressão de estar num dos cumes do mundo. E isso dá vertigem, um poucochinho.

Ao pé da Torre, uma espécie de terraço; limitado pela muralha ameada do recinto semicircular, dá para o vazio. Um vazio…vertiginoso. Alguns passeantes chegam quase como um furacão, soprando com dificuldade, olham à pressa, deitam uma olhadela circular, tiram eventualmente algumas fotografias e, logo depois, desaparecem. Mas, em geral, é o sítio onde se demora e se descansa um bocadinho. Sente-se e contempla-se com calma a paisagem. Pois, do outro lado do vale, em cima de um outro monte, distante umas centenas de metros, pavoneia-se o Palácio da Pena. Mesmo "vestido" de um andaime, não perdeu nada da sua majestade. Construído no século XIX, pelo rei D. Fernando II, no sítio de um antigo convento do século XVI, lembra, com as suas cores cambiantes (amarelo, ocre, azul) um palácio de contos de fadas.

Suicídio no Castelo

Estamos no fim do percurso, pelo menos relativamente à cerca. Da parte de além, só rochedos graníticos e vegetação densa: é a …muralha natural, e dá para um abismo. Raros são os que voltam a percorrer o mesmo caminho ao contrário. Porque a curiosidade incita a descer por um caminho estreito, situado entre o pé da Torre e um lanço de muralha que se perde na vegetação. Encontra-se uma azinhaga pequena delimitada por um pequeno muro de construção recente. Demarcado por pinheiros e rochedos de granito, este caminho vai bordejando até ao terrapleno frente à Porta Árabe. É em cima deste pequeno muro que uma placa de contraplacado foi colada com cimento. Apesar da cor castanha clara que contrasta com o cinzento do muro, mal se repara nela. Cercada de cruzes pequenas, contém um texto (em português) pelo menos insólito: "Vou-me embora sem ódio deste mundo maldito" (Chapi, 2/12/1998). Neste castelo quase deserto, isto dá arrepios. Então, suicídio ou brincadeira? Soubemos, infelizmente, que a mensagem era mesmo dum suicida. Foi o Sr. M., um antigo guia do Castelo, que arranjou e colou esta placa, a pedido da mãe do desesperado.

Passagens secretas

Existem histórias estranhas acerca da localidade. Osborn (*), um cruzado inglês, descreve Sintra como uma região "tão enigmática que o vento bastava para engravidar as éguas". Por seu lado, um antigo vigilante do castelo, A.D., sustenta que, neste lugar "as pedras parecem crescer, como as pessoas". Afirma também a existência de passagens subterrâneas, que têm a sua origem na alcáçova. Todavia, acrescenta que não tem nenhuma prova. Muita gente fala disso, mas ninguém sabe localizá-las. Assim, uma galeria daria para o Palácio da Vila, a antiga residência dos Walis (governadores). Com efeito, estes sempre cuidaram da sua segurança, temendo complicações políticas, como por ocasião das duas revoltas mozárabes (**) dos meados do século IX, em Sintra, em consequência de movimentos idênticos em Lisboa. Por conseguinte, era previsível que a residência fosse dotada de corredores secretos que podiam tanto ter a sua origem no Castelo, como levar para outros lugares situados fora da cidade. E esta fica ao pé da montanha, a umas centenas de metros do Castelo! Mas que pensar destas passagens secretas que, supostamente, ligariam a alcáçova ao Convento dos Capuchos, ou aquela que iria ter até à pequena localidade de Rio de Mouro? O enigma fica inteiro e a montanha preserva os seus segredos.

Relíquia do passado, testemunha de uma época volvida, mas cheia de uma carga simbólica, o Castelo foi classificado Monumento Histórico Nacional (***). Mesmo não sendo mais do que uma coroa descorada, ainda rivaliza com o majestoso Palácio da Pena, para o privilégio da celebridade e do prestígio.

(*) Osborn: autor do único texto conhecido acerca da tomada de Lisboa. Participou no assalto à cidade ao lado de D. Afonso Henriques, em 1147.
(**) Mozárabes: do árabe "musta'rab", arabizado. Cristãos que adoptaram a língua árabe durante a presença muçulmana na Península Ibérica.
(***) 16 de Junho de 1910.




 
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