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Quinto romance do sintrense Sérgio Luís de Carvalho (SLC) (*), Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio, publicado recentemente, evidencia já um universo ficcional seguro, específico e estruturado, que não só singulariza o autor no actual panorama do romance português como o torna numa voz extremamente rara, imune a narrativas de moda.
Podemos desdobrar o universo ficcional de SLC em três pontos que, cruzados e unificados harmoniosamente, compõem as linhas mestras permanente da sua narrativa, expressas singularmente neste último romance.
Em primeiro lugar, o seu estilo, ousadamente individual, marcante desde Anno Domini 1348: a língua portuguesa trabalhada entre uma sintaxe medieval-renascentista, já fugida do latim mas deste guardando construções gramaticais, e um léxico contemporâneo, gerando na mentalidade comum actual perplexidades de entendimento, que o tratamento na segunda pessoa do plural mais contunde, confundindo o leitor médio.
Em segundo lugar, as personagens. Seres de carne e osso, hesitantes nas suas opções, frequentando restaurantes, atravessando ruas, meditando sobre e aprendendo com os seus erros, as personagens de SLC tendem, no entanto, a figurar-se como "tipos" de valor e carácter universais, como maximamente o exemplificam as personagens de Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio, o "Antiquário", o "Moço", a "mãe do moço", a "namorada do moço", o "avô do Antiquário", o "Lequeiro", o "Relojoeiro", o "Titereiro", o "Antiquário" da história da Guerra Civil espanhola… Como excepção, "Antónia", indubitavelmente a personagem de maior grau de afectividade do romance, refúgio seguro e sensato do Antiquário, mulher que lhe renova a vida dando-lhe um filho. Finalmente, duas personagens laterais, de expresso conteúdo simbólico, o "gato", figuração da passividade humana, de vida totalmente exterior à dinâmica da História, como se coexistissem em mundos paralelos, e o "cão abandonado", figuração da vítima inocente da História. De Anno Domini 1348 a Retrato de S. Jerónimo no seu Estúdio, e sobretudo a partir de El-Rei Pastor, as personagens, em SLC, vão-se tanto mais despindo de nomes quanto mais se tornam representativas de padrões ou modelos de comportamento humano, universalmente verificáveis, atingindo neste seu romance de 2006 o ponto máximo de abstractização das personagens - não se lhes reconhece o rosto, a cor do cabelo, os casacos, se são gordos ou magros, se fumam ou bebem álcool.
Finalmente, o tema dos romances de SLC. Neste último, como nos restantes, e de harmonia com a filosofia da criação das personagens, o que fundamente interessa a SLC, como autor, porventura devido ao seu ofício de historiador, é a interrogação e decifração da História. Se nos seus dois primeiros romances, de carácter histórico, o bem e o mal encontravam-se perfeitamente divididos, ainda que ambos congraçados pela sombra da morte, que a todos une e igualiza, SLC, a partir de El-Rei Pastor (2000) torna-se mais saliente um cepticismo e pessimismo históricos, que o romance ora publicado de novo absolutiza. Não se trata de negar a eficiência dos impulsos libertadores da História (as revoluções) na generalização dos direitos, trata-se, nos seus romances, de consciencializar que o ferro, o fogo e o sangue por que são conseguidos têm como consequência a vitimação de inúmeros inocentes. Neste sentido, lei inexorável da História, a cristalização de leis e costumes por grupos sociais dominantes conduz, como consequência, à revolta, por sua vez atractora de uma juventude generosa que combate por maior justiça e mais igualdade. Do embate destas duas fracções, de que resultará mais ampla liberdade, resulta igualmente, porém, um número indeterminado de vítimas, cuja inocência não os imuniza dos constantes genocídios praticados à uma por vencedores e perdedores, os primeiros defendendo os seus privilégios, os segundos arrastados pela fé num amanhã que cantará.
Neste romance, SLC apresenta cinco histórias diferentes decorridas em cinco momentos diferentes do tempo e em cinco espaços geográficos diferentes (Pérsia, século XIII; Inglaterra, século XIX; França, 1789; Itália, 1849; Espanha, 1936 - 39), todas unidas, no entanto, pela recorrência da mesma situação existencial que, estruturalmente, se afirma como motor da História: a luta entre a opressão e a libertação, a justiça e a injustiça, a minoria e a maioria, a tirania e a igualitarização. Porém, consciente desta suprema lei, que extrema a minoria na defesa das suas prerrogativas e fanatiza a maioria na luta pela justiça, o Antiquário, o "Mestre" de hoje, conhecedor da roda martirizadora da História, auto-culpabiliza-se pelo destino do seu aprendiz, o "Moço", em cuja fé e inocência, porém, se revê quando jovem e recebia do avô os mesmo conselhos de sensatez. Porém, a História não pára, e o Antiquário, buscando refúgio no seu casulo individual - a loja de antiguidades e o atelier de restauração -, torna-se, ele próprio, vítima inocente da História, desencadeandose-lhe de novo, intimamente, os sentimentos de culpa e de remorso, compensados pelo acolhimento que faz do cão abandonado.

Gravura: "São Jerônimo no seu estúdio" (1475-6), por Antonello de Messina. Óleo sobre madeira, 46 x 36,5 cm. National Gallery de Londres – Inglaterra.
(*) - Sérgio Luís de Carvalho - 1990: Anno Domini 1348, prémio Ferreira de Castro da Câmara Municipal de Sintra, traduzido para francês e candidato finalista ao Prémio Jean Monnet de Literatura Europeia em 2004 e Prémio Amphi em 2005; As Horas de Monsaraz, 1997; El-Rei Pastor, 2000; Os Rios da Babilónia, 2003.
Miguel Real (13.08.2006).
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