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 Uma estratégia cultural para Sintra

Jorge Telles de Menezes

Vivemos numa paisagem cultural, protegida por autoridades regionais, nacionais e internacionais. Para alguns (que são todos demais), essa paisagem é uma fonte de rendimento, para outros, uma fonte de suposto divertimento (mais lúgrube que alegre, na realidade), para outros, muitos, uma paisagem indiferente, ou de postal-fotográfico, como são para eles, afinal, todas as paisagens, incluindo as dos seus interiores.


Mas para uma infinita minoria de amantes da espiritualidade de Sintra, ela é uma fonte de criatividade. É essa minoria do passado, do presente e do futuro, ou seja de sempre, que fez de Sintra um local de eleição, uma essência da cultura portuguesa, europeia e universal. Essa minoria é a guardiã excogitadora e criadora permanente de Sintra.

Sintra não precisa de visibilidade, Sintra já a possui como foco irradiador e indestrutível do espírito humano na sua multiplicidade. As ideias técnicas de progresso dão-se muito mal com Sintra, conforme o rei romântico D. Fernando já com fina ironia sugerira, ao designar o "seu" Castelo da Pena como a sua "locomotiva". O progresso, entendido no banal sentido burguês de acumulação de lucro como único merecimento e critério de avaliação do sucesso, esse sucedâneo superficial da indagação pela verdade, está nos antípodas da essência histórica e espiritual de Sintra. Sintra recusa visceralmente o paradigma técnico-científico. Nada há de mais odioso e feio em Sintra do que as manchas de penetração dessa modernidade mercantilista de fachada, e betónica de essência e coração.

Veja-se a tristíssima figura que faz o Hotel Tivoli no centro da Vila, ou a destruição do carácter burguês oitocentista da Estefânea pela feíssima arquitectura das agências bancárias ali instaladas, além de alguns outros prédios que, um pouco por todo o lado, vão roendo com a sua alma mecânica e fria o coração romântico de Sintra, para não citar o que é boca cheia de todos os Sintrenses sensíveis, isto é que a pavimentação e outras intervenções "urbanizantes" nesse antigo bairro da Estefânea, são uma horrível afirmação do gosto "suburbanista", contra o carácter romântico-burguês tradicional dessa área, com seus materiais industriais e absurdas soluções, como a pseudo obra de arte diante do Centro Cultural Olga de Cadaval, ou a incongruente rotunda com fonte no cruzamento para a Várzea. Também se poderia falar do triste espectáculo ainda permitido das filas de automóveis aos domingos (parece que a buzineira dos casamentos abrandou!), de pessoas doentiamente sentadas a observarem nem sabem bem o quê, talvez o vazio das suas próprias existências, e que vão deixando um rasto mortal na paisagem, um travo ácido atrás de si, destruidor das pessoas que aqui estão vivas, da natureza, dos edifícios, em suma, do espírito de um lugar. Definitivamente, Sintra repele esta modernidade tardia, pacoviamente satisfeita, intelectualmente morta, culturalmente deserta.

A situação é gravíssima, pois é óbvio que estamos, no fundo, perante um conflito civilizacional, entre, por um lado, uma ainda impante tardomodernidade, tão confundida com a pós-modernidade de matriz norte-americana e norte-europeia, inconscientemente assimilada como porta-estandarte da nossa tardo-modernização, e que leva a que uma região até aqui algo periférica para o paradigma do "desenvolvimento" técnico dominante, mas a sofrer um processo de galopante metropolinização por Lisboa, tenha muita dificuldade em esgrimir com argumentos espirituais e culturais, se do outro lado se encontra a pujantíssima (e tantas vezes pouco escrupulosa) indústria da construção civil e a sua aliada, a cínica banca, com uma administração pública pelo meio, que anda ao sabor das corrrentes "personalizantes" e "fulanizantes" do poder, e contando ainda com a pior arma de todas: a ignorância, a inconsciência e a insensibilidade generalizadas, enquanto do outro lado só encontramos argumentos espirituais, históricos, literários, culturais, ambientalistas, cívicos, críticos, independentes. Mas é justamente essa desigualdade que nos desafia a sermos radicais nestas reflexões, querendo, obviamente radical dizer, que queremos ir até à raiz.

Em nome do espírito, dos valores culturais, da memória, e sobretudo em nome dos nossos filhos, dizemos que não a todas as tentativas de betonizar mais o riquíssimo património genético (cultural-ambiental) de Sintra, que por lei, e por estatuto universal já está protegido. Estamos dispostos a recorrer a todos os meios para o impedir. Lutaremos sem hesitações contra uma administração compadria e corruptível que fecha os olhos aos mais indignos atentados contra a memória de Sintra, (perpretados pelos portadores de uma visão egoísta e primitiva da vida, ainda que muitas vezes engalanada com abundantes títulos de erudição bacoca e fartíssimas contas bancárias de dinheiro, tantas vezes ganho com autênticos desfalques e jogatanas com o tesouro público).

Para o bem de Sintra temos algumas medidas imediatas a propor que somente escandalizarão certas mentes egoístas e predadoras, que julgam que a vida e a existência são um jogo de monopólio, em que ganha o mais esperto (não o mais inteligente!), que a verdade é sinónimo de luxo ostentatório, e que a beleza é um enquadramento para um olhar fosco entre duas placas de betão. Quando dizemos "primitivas", falamos daquelas mentes que não conseguem encontrar um equilíbrio entre o proveito próprio e o proveito comum. Primeiro, gostaríamos de salvaguardar que o nosso pensamento é edificante; mesmo se temos de combater um "inimigo" desprovido de espírito, não usaremos as armas dele, para não ficarmos amarrados ao lodo da sua materializada consciência. Soarão as nossas palavras, porventura, como uma epifania, uma celebração, um idealismo desenraizado, uma estratégia utópica, que não toma em conta as "reais" forças e alavancas de "desenvolvimento" contemporâneas. Talvez se pense ainda, que buscaremos somente um lugar para exercer as nossas reflexões metafísicas, mas que o pragmatismo do "progresso" e da "história" não se compadece de tais excessos "românticos" e "individualistas", numa era em que são sempre as "maiorias" quem decide. Um "metafísico", ao fim, segundo a lógica do sistema dominante, deveria antes do mais poder comprar o seu próprio lugar excogitador.

Mas aquilo de que nós falamos, na realidade, é bem do oposto, isto é, falamos de uma fruição colectiva de um espaço vocacionado para a especulação estética e reflexiva, de uma construção colectiva metafísica da paisagem, da conservação de um refúgio "sagrado" da cultura humana, da defesa de uma "tradição" suficientemente forte para desmascarar todas as tentativas de "modernização", cujo gato escondido com rabo de fora se chama: lucro absoluto, irresponsável, anti-social, como impulsionador de uma pseudo-vida, num espaço, enfim, que é por natureza universal e já intemporal, e que por isso a todos pertence e a nenhum em particular. É possível parar o pseudo-progresso que pretende arrancar Sintra da sua quietude sagrada. Até o mais encarnecido "tardomodernista" gostará de passear por atalhos da floresta sem dar pontapés em embalagens de plástico.

Sintra, lugar de confluência

É imperativo criar-se a Universidade de Sintra. Mas muito antes, teremos de começar pela divisão administrativa do concelho. Historicamente, o "império saloio" tem vindo a perder cada vez mais importantes áreas da sua influência. É legítimo reivindicar o "saloiismo" de Queluz ou da Porcalhota, do Cacém, de Rio de Mouro, ou da Terrugem. Mas a contaminação "suburbanizante" reduziu drasticamente os limites daquilo que é genuinamente "saloio". Veja-se o caso desesperado da Várzea, o impasse da Ribeira, a "suburbanização de bom gosto" da Praia das Maçãs, de Fontanelas, da Praia Grande, do Magoito. Sintra tem de concentrar forças naquilo que são as suas últimas reservas, e, para tal, deve desprender-se da carga de administrar freguesias como Mem-Martins-Algueirão, Rio de Mouro, Cacém, Massamá, a própria Portela de Sintra enquanto importante parcela da freguesia de Santa Maria e São Miguel, já perdidas para o paradigma betónico-bancário dominante.

Estas "freguesias" de Sintra são autênticas cidades criadas do quase nada ou quase tudo que era a realidade saloia, que se sobrepuseram a uma reduzida e indefesa população local, mas que exigem almas frias, tecnocráticas, desenraizadas para o seu eficaz governo. Elas carecem do essencial, de mitos que as fundem e justifiquem existencialmente. São demasiado jovens, se isso for algum pecado, mas Sintra, a antiga, tem muitos pergaminhos a defender, muita história, muitos jardins do paraíso, e os seus governantes não poderão, como a evidência demonstra, ter a mesma arquitectura de alma que um governante saído das frias paredes do recente betão. Queremos ser inequívocos: defendemos uma divisão imediata do concelho, para que Sintra e a sua essência possa sobreviver também para os vindouros. Recuar os limites, isto é, aceitar "teoricamente" aquilo que já é uma realidade, para concentrar forças, parece-me o movimento estratégico essencial para garantir a atenção extrema de que Sintra necessita.

Quando falamos de confluência, certamente que recusamos em absoluto qualquer confluência possível com o paradigma de "desenvolvimento" da aliança entre a construção civil e a banca. Terá de haver um centro de decisão superior a essa aliança que lhe imponha regras, planos e projectos. Para nós, Sintra como local de confluência significa a presença viva, actual, presentificadora nas suas formas contemporâneas, da cultura pré-nacional - celta, romana, bárbara, grega - mas igualmente da cultura árabe, e, finalmente, da cultura cristã-ocidental, antes de dever ser também um laboratório do futuro. Sintra é um santuário cultural, aqui deve ser promovido o ecumenismo das várias formas de expressão artística, cultural, filosófica e literária. Nós gostamos muito de jazz, mas em Sintra deviam, primeiramente, ser ouvidos acordes de música árabe, medieval, grega e romana antiga. Renova-se uma antiga e histórica sala cultural de Sintra, outrora destruída pelo mesmo tipo de lógica "desenvolvimentista", e pespega-se, bem subsidiada por abundantes dinheiros públicos com uma programação que nunca foi discutida e apresentada à população. Assim é muito fácil, escolhe-se por catálogo, dá-se um ar intelectual, auferem-se excelentes salários saídos directamente do erário público, mas música antiga árabe ou celta, quem gostaria de escutar isso? adivinhamos já as pérfidas objecções. Mas eu digo que sim a um festival musical e dramático anual onde confluam todas as representações contemporâneas das indeléveis marcas civilizacionais de Sintra; há tão bons intérpretes de música antiga celta, árabe, judaica, medieval, grega … música que ecoa nas nossas raízes, que respira nos muros e nas árvores de Sintra!

Mas apesar do apelo romântico para a música, também penso no lugar primacial da arquitectura e da escultura na história de Sintra. Se Vila Nova de Cerveira o conseguiu, por que razão não o há-de Sintra, que é naturalmente vocacionada para a arte arquitectónica, conseguir atrair arquitectos de mérito, não para "betonizarem" mais, mas para, conhecendo e respeitando as idiossincrasias, a morfologia local, contribuírem para o enriquecimento do património monumental e artístico de Sintra? Um concurso internacional bianual de ideias para uma arquitectura e um design actuais de expressão romântica? Por que não tornar Sintra num expoente universal do Neo-Romantismo arquitectónico e escultórico mesmo que este tenha de renascer aqui das cinzas?

Retomamos agora em síntese algumas das ideias expostas, para avançarmos por onde começámos: a criação da Universidade de Sintra. Assim, e recapitulando, a divisão administrativa, levaria necessariamente a uma profunda reformulação das actividades económicas, quer dos novos concelhos, quer de uma Sintra confinada somente pelos limites do Parque Natural. Sintra, como é óbvio, está unicamente vocacionada para a área dos serviços culturais, incluindo aqui uma concepção cultural da actividade turística, e para projectos de investigação e desenvolvimento, ou seja para actividades económicas que sejam perfeitamente compatíveis com o tesouro ambiental sintrense. Ainda dentro dos confins do Parque temos a importante indústria extractora de mármores que deveria prosseguir, mas buscando uma gradual evolução para a actividade transformadora e artística, perspectiva que se religa à necessidade de um concurso mundial bianual de escultura e à importância de atrair artistas que tragam projectos de grande qualidade arquitectónica e escultórica. O passo seguinte deveria ser a substituição das exportações da pedra marmórea em bruto por um seu aproveitamento integral na região e exportação, sim, mas de produtos de arte acabados.

Seria, contudo, a Universidade a principal força aglutinadora de projectos inovadores com estreita ligação às actividades económicas residentes. Como é óbvio, a Universidade trabalharia em profunda ligação com um conselho científico e cultural permanente de Sintra, actuando com uma grande agilidade modular, capaz de acompanhar e cobrir as necessidades profundas da realidade humana do novíssimo concelho. O seu núcleo de investigação seriam os Estudos Sintrenses - eventualmente como uma pós-graduação - não numa perspectiva unicamente colectora e descritiva, mas com um cerne dinâmico que permitisse interpretar constantemente a realidade dada na suas permanentes transformações. Uma Universidade virada para a intervenção e, sobretudo, com os olhos postos no futuro, capaz de atrair projectos de investigação pioneiros para as áreas mais diversas, desde que respeitassem o princípio sagrado da comportabilidade ambiental. Visto que a área rural seria, nessa reforma administrativa, um dos três componentes essenciais da nóvel Sintra, por que não reanimar as tradições agrícolas da região, quase perdidas, mas com uma aproximação científica e experimentalista na área da agricultura biológica? A Universidade deveria ter como objectivo estratégico da sua actividade a captação de projectos e vontades que significassem justamente uma mais-valia em termos de avanço no conhecimento humano em áreas integradas no conceito de um desenvolvimento sustentado.

A área florestal e os parques deveriam ser igualmente objecto de estudos de vanguarda; não basta, de facto, preservar o património de que somos herdeiros, mas sentados aos ombros dos gigantes que nos precederam deveríamos também avistar um pouco mais além, abrirmo-nos à experimentação e à inovação. Falamos, obviamente, da necessidade de criar estruturas de apoio à área florestal, dotadas de cabedal científico para fazerem enxertos na paisagem, enriquecendo-a com novas espécies e replantando aquelas já desaparecidas; as gerações vindouras saberiam apreciar esse gesto, tal como nós hoje agradecemos aos mestres que nos antecederam pela sua ousadia criadora de antanho.

Um Parque Natural como o de Sintra não é algo de inerte, senão, pelo contrário, algo de extremamente volátil, visto que nele está sobretudo em permanente actuação o factor humano. Por isso cremos que será necessário fazer um tremendo esforço de qualificação das povoações da zona rural, da área florestal e da orla marítima. Não se trata em primeiro lugar de alargar os limites de expansão dessas povoações, mas de conceder qualidade ao já existente, reabilitar os casais saloios, os moinhos, as quintas abandonadas, qualificar com critérios urbanos as caóticas "manchas" que já são a Várzea, Cabriz, S. João das Lampas, a Terrugem, para não falar de muitas outras localidades. Se é imperativo atrair projectos económicos que apostem num turismo de habitação rural, num turismo cultural, em projectos agro-ambientais, ou em áreas de investigação e desenvolvimento, com realce para todas as actividades ambientalmente sustentáveis, então é fundamental requalificar aquilo que já está construído, e que em muitos casos é simplesmente horrível; sem haver expansão dos limites de construção das freguesias é possível aumentar o número de habitantes do concelho unicamente pela renovação e qualificação do já construído.

Mais uma vez nos defrontaremos aqui com o paradigma de desenvolvimento baseado na aliança entre a construção civil e a banca, que aposta essencialmente no destruir e construir de raiz, em vez de, como é apanágio de uma sociedade desenvolvida, apostar primeiramente na recuperação e renovação do património já edificado. Comprendemos que também não existe conhecimento científico disponível para proceder a uma renovação de qualidade, mas esse conhecimento técnico está internacionalmente disponível. Se já importamos quase tudo o que consumimos por que não importar também conhecimentos que nos podem ser úteis? O caso da Vila de Sintra é mesmo exemplar do que defendo. O número de habitantes vai-se reduzindo imparavelmente, mas os edifícios, os andares vazios são a nota dominante. Há casas que foram renovadas, no âmbito do programa Recria, para evitar a sua derrocada, mas que depois das obras permaneceram fechadas. Porquê? Ora, porque a lógica egoísta e anti-social dos seus proprietários, com a passividade das autoridades, assim o permite. Gostaria de ver as dificuldades dos nossos políticos a tentarem explicar estes casos de tão desregrada aplicação de dinheiros públicos aos seus colegas ingleses ou holandeses. Que enxovalho não passariam!

Mas quantos projectos inovadores não poderiam nascer nesses espaços devolutos se houvesse uma reconversão da estratégia turística para a Vila de Sintra! Deixem-nos sonhar um pouco: o Hotel Tivoli seria destruído por implosão, e no seu lugar renasceria o Hotel Nunes, seu digno histórico antecessor, ligado e associado por questões de funcionalidade ao degradadíssimo Hotel Neto por meio de passagens aéreas (porque não ser inovador com conta, peso e medida?). Mas não se ficaria por aqui. O posto de Turismo e Galeria Municipal deveriam ceder lugar ao antigo Hotel Costa, e a famosa Estalagem do Víctor teria de sair das suas sombras de abandono. Certamente que não aconteceriam aqui somente renovações de fachada, mas uma autêntica reconstituição histórica dos seus interiores, seguindo eventualmente o trilho iniciado pela recuperação do renomado Lawrence's, e a literatura, a música e a sociabilidade estariam presentes por representação virtual da vida romântica de outrora que concedeu o carácter definitivamente artístico de Sintra. Saraus literários rigorosamente à época, assim como à época seriam a gastronomia, os trajes, as encenações musicadas, as declamações, as breves e as grandes representações de "cenas da vida romântica", reconstituição de restaurantes famosos, e lá fora as charretes, as bicicletas, os automóveis não poluentes dos moradores, os autocarros amigos do ambiente que circulando quase em permanência faziam a ligação aos interfaces na periferia.

Imagine-se Sintra com uma oferta de camas no centro da Vila dez vezes superior à actual! Quantos postos de trabalho poderiam ser criados, quanta população não se fixaria aqui, renovando a debilitada estrutura demográfica! Mais ainda se pensarmos também na dinâmica social que a Universidade introduziria. Então, sim, os turistas competiriam com os locais pelas ruas históricas de Sintra, os negócios, o comércio, a intervenção cultural floresceriam, Sintra seria um centro difusor e atractor potenciado. Como se depreende, acreditamos em que a renovação da tradição e o cumprimento coerente na actualidade da verdadeira natureza e vocação cultural de Sintra é que são, no fundo, as obras de progresso autêntico de que aqui se necessita.

Que melhor cenário para uma re-ligação, para uma conversão, para uma revelação do que Sintra? Porque não trazer de novo até Sintra o espírito religioso, vivendo-o no horizonte de um ecumenismo genuíno? Cremos que Sintra nos pode re-ligar ao Todo pelo amor da Natureza, e que é o ambiente ideal para as grandes confraternizações regeneradoras, para a vivência de um telurismo vivificador. O piedoso alegra-se com a montanha, pois o piedoso é tranquilo, dizia o Mestre Confúcio. Abrir Sintra aos crentes, deixar que aqui se erguessem de novo belos e singelos conventos e templos habitados por cânticos de paz. A própria Universidade poderia promover esse encontro e reflexão ecuménica. Trazer de novo monges para os poucos conventos que restam, como o dos Capuchos, em vez de exibi-los como monumentos nacionais constantemente vandalizados, construir uma frente de resistência espiritual à galopante "barbárie" das obscurantistas seitas do presente. Convidar monges de outras religiões a estabelecerem-se em Sintra, garantir a segurança de novos "eremitas" que queiram povoar a Serra com o seu misticismo asceta, reintroduzir também antigas espécies animais e vegetais entretanto extintas, limpar a Serra de todas as infestantes, permitir unicamente a circulação de veículos ambientalmente compatíveis, contando para todas estas tarefas com a boa-vontade das ordens religiosas.

Correlativamente, a questão da segurança em todo o Parque Natural deveria ser coordenada por uma instância superior que articularia as várias forças e dispositivos disponíveis. É óbvio que o Parque necessita de uma força policial caracterizada pela diversidade de meios para combater uma criminalidade que é sobretudo "ambiental" e "cultural", não menosprezando o crime social. Falo de uma polícia com uma grande flexibilidade de horários, preparada para trabalhar na montanha, nos parques, nas zonas rurais e na orla marítima, cuja missão principal seria combater o principal foco de criminalidade que se traduz no vandalismo ambiental nas mais variadas nuances. Uma polícia capaz de fazer abortar à nascença qualquer construção ilegal, uma polícia que dê caça e reprima todas as seitas obscurantistas que à noite profanam e destroem o património natural e edificado da Serra e dos Parques. Uma polícia que nas zonas urbanas faça prevalecer a lei, impedindo o ruído diurno e sobretudo o nocturno, os comportamentos anti-sociais e obscenos, a impunidade da gritaria em torno dos bares nocturnos. Uma polícia que nesses casos não actue mais preventivamente, mas repressivamente. Uma polícia que persiga todos os empreiteiros de obras que despejam os seus lixos a céu aberto em espaços públicos e privados, todos os caçadores furtivos, todos os automobilistas com condução criminosa, todos os delapidadores do património. A segurança passa também pela polícia saber construir relações de amizade imparciais e não discriminatórias com todos os elementos da população residente. A geografia física e humana do Parque exige uma polícia com meios adaptados a essa realidade, apta tanto para lidar com grupos satanistas como com empreiteiros malfeitores, apta tanto para se deslocar em meios urbanos, como nos parques, na montanha, nas áreas rurais e orla marítima.

Resumindo, Sintra como Lugar de Confluência, terá uma vertente de genuíno turismo cultural, rural e ecológico, de renascida vida religiosa e espiritual, de fonte irradiadora de saberes através da sua Universidade, de exemplar requalificação ambiental, de salutar segurança e prevenção, de promotora de grandes eventos culturais na observância dos princípios tradicionais de universalidade, uma Sintra capaz de atrair e reter inteligência e excelência em todas as actividades económicas, científicas, tecnológicas, especialmente aquelas que se relacionem com a preservação do ambiente e a experimentação sustentável, uma Sintra capaz de fazer reviver as suas tradições agrícolas segundo modelos flexíveis, uma Sintra, enfim, capaz de criar riqueza a partir daquilo que já é a sua própria riqueza: o seu incomensurável património.

Jorge Telles de Menezes (31.07.2006).




 
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