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 O espírito de Sintra

Miguel Real


Serra, Luas e Literatura, ensaio de João Rodil publicado em 2ª edição pela Câmara Municipal de Sintra e pelas Edições da Palavra, revela-nos a matéria e a forma que, combinadas e sintetizadas, compõem harmonicamente a alma de Sintra.



O espírito de Sintra não nasce de um longo passado histórico. Sintra não é o conjunto dos seus tholoi, dólmens, antas. Não é o conjunto de figurações pré-históricas que dão alma a Sintra - por toda a costa Atlântica encontramos as mesmas representações e basta deslocarmo-nos à Irlanda para constarmos que talvez lá, mais do que em Sintra, vilas e cidades encontrem o seu espírito a partir destas representações. A alma de Sintra não nasce, também, da reunião dos seus vestígios romanos, por muito importantes que estes sejam. Roma civilizou toda a Península, fundou cidades, abriu estradas, lançou pontes e, mais importante, estabeleceu um modo de vida centrado na força das suas legiões, na universalidade do seu Direito e na gramática da sua língua de que, por todo o Portugal, outras vilas e cidades podem com maior justiça considerarem-se suas herdeiras.

Não é também o palácio da Vila que marca singularmente o espírito de Sintra, ainda que o olhar do turista possa sentir-se atraído por ele e pelas suas exóticas chaminés. Azulejos de origem árabe e salas e terraços de vaga proveniência moura existem por toda a Andaluzia e talvez mais por lá do que por cá possam fazer ecoar um espírito muçulmano perdido na Península. Que a Corte se tenha demorado por Sintra, que aqui tenha caçado e folgado, que no Palácio se tivesse conciliabado sobre os Descobrimentos e que aqui um hipotético Camões tenha lido Os Lusíadas a um delirante D. Sebastião, nada disto demarca Sintra de inúmeras vilas onde a Corte folgou e caçou, conspirou sobre as aventuras marítimas e escutou autos, farsas, poemas e romances ao som de arcos e alaúdes.

Também por Sintra não há resquícios de pensamento filosófico: não é a actividade teorética pura que caracteriza Sintra - não existe uma teoria de Deus, uma prova da imortalidade da alma ou uma concepção do mundo criadas e inspiradas pelo verde da serra. Sintra não é a Engadine de Nietzsche, a Konigsberg de Kant nem a Heidelberg de Hegel e de Goethe, e dos filósofos portugueses reconhecidos (Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, António Sérgio, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva, Fernando Gil) não se lhes reconhece livro que mesmo indirectamente se relacione com Sintra.

Se não são os vestígios do passado histórico que evidenciam o bilhete de identidade cultural de Sintra (a não ser para uma visão turística centrada em dólares); se não são os produtos livres do pensamento metafísico que identificam Sintra, pergunta-se: - Que conterá Sintra que a singulariza entre todas as vilas de Portugal? Que espírito criado pelo homem habitará este lugar? Que "forma mentis" dá alma a este pequeno corpo territorial?

Encontrámos a resposta a estas questões através da leitura da 1ª edição de Serra, Luas e Literatura, publicado em 1995 - entremeando finamente a erudição académica e a sensibilidade poético-telúrica própria da Serra, desenrolando a nossos olhos a história das representações imagéticas por que os escritores portugueses (e alguns estrangeiros) foram compondo a imagologia própria de Sintra, João Rodil revela que, hoje, como superação e resultado de seiscentos anos de escrita, o espírito de Sintra se identifica com o corpo literário criado pelos poetas e escritores que aqui habitaram ou pela serra foram benzidos. Ou seja, o espírito de Sintra é um espírito eminentemente poético, que apenas pode ser comungado poeticamente e, portanto, representado em forma de literatura.

A matéria ou o corpo de que esta alma é a unidade é, indubitavelmente, a minerabilidade esmagante da Serra: a Serra enche, deleita, rejubila os nossos olhos, sacia os nossos sentidos, a natureza elementar e definitivamente fixa da Serra desafia a nossa minusculidade ontológica, a nossa provisoriedade existencial, o nosso aparente brilho social, a nossa eterna vontade de poder sobre os outros. E sempre que atingimos o cume da Serra, de novo nos confrontamos com dois gigantes cósmicos: o azul do mar e o azul do Céu, ambos misturados num indefinível recorte. Face a esta tripla paradoxal maravilha, cujo centro é sempre a Serra, como para tal o ensaio de João Rodil continuamente nos adverte, constatamos que esta apenas pode ser comungada pelo coração através de uma Forma que a sublime, uma Alma que a transfigure esteticamente (e não teoreticamente nem misticamente), um Espírito que lhe corresponda em grandeza e excelência - e este é o espírito poético. Por natureza e condição, Sintra é habitada pelo Espírito da Poesia. Fossem outros os permanentes presidentes da Câmara que nos chegam de Lisboa e Cacilhas, como se fôssemos um arrabalde tipo Póvoa da Galega, fossem os presidentes genuínos sintrenses como João Rodil, e Sintra seria, em Portugal, a Casa da Poesia, cumprindo assim a sua marca individualizadora, a sua singularidade. Porventura como o Marão de Teixeira de Pascoais ou a Arrábida de Sebastião da Gama, Sintra metamorfoseia a nossa sensibilidade e o nosso sentimento em expressão poética, entendo-se esta como forma humana natural de condensação superior de todas as nossas faculdades em linguagem emotiva perante um mundo que nos espanta.

Obedecendo a este impulso de habitante da Serra, João Rodil enquadra as diversas representações imagético-literárias por que Sintra tem sido cantada no ciclo cósmico das estações do ano desenhadas pela própria Serra, como se toda a existência da literatura sobre Sintra coubesse no amplexo de um ano cósmico, como se a literatura fosse o cântico da Serra, a fala da Serra entontecendo o pensamento de Bernardim, de Camões, de Garrett, de Herculano, de Eça.

Serra, Luas e Literatura, livro original que reverte as forças telúricas da Serra em letra de forma, livro apaixonante pelo que demonstra em conhecimento erudito, mas, sobretudo, pela chama poética que o atravessa, incendiando cada capítulo de uma consciência histórica tornada vivamente presente, livro que não é apenas mais um, mas um dos livros finisseculares incontornáveis sobre Sintra, livro pelo qual, finalmente, o espírito de Sintra toma consciência de si enquanto corpo literário e fonte de inspiração estética - e não mística, sublinhe-se para os matulões do misticismo em Sintra.

Filomena Oliveira/Miguel Real (27.06.2006).




 
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