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Li uma frase de Hannah Arendt que parafraseio aqui: o que está acabado não regressa -, fica para sempre no reino do acabado, do perfeito, do que está definitivamente numa esfera superior do ser. O que aqui volta é porque está ainda imperfeito, é porque lhe falta vivenciar aspectos da verdade de ser para se realizar na sua completude multifacetada.
O que aqui é então vivido será um recapitular da memória de uma fonte primordial à qual anelamos regressar, e que na tensão de verdade que colocarmos no arco do nosso existir, nos atirará, ou ainda não, definitivamente para esse esplendor de podermos absolutamente voltar a fazer parte do ser.
Teremos, porventura, de regressar uma e outra vez para encontrarmos a transcendência de um único sentimento, a revelação de uma singular faceta da verdade. E assim, por aqui nos vamos encontrando, confundidos com o entrecruzar de tantos destinos nos quais julgamos, iludidos, descobrir um reflexo do nosso, inconscientes do acontecimento que nós próprio somos, maquinando, forjando simulacros, cenários de representação para uma afirmação arrogante no mundo, quando afinal, ao despirmo-nos diante do espelho interior nada temos para afirmar, excepto, e se a tanto nos elevarmos, somente para interrogar. Uma interrogação que calamos todos para nós mesmos, que nem sequer balbuciamos em silêncio, que é quando estamos mais próximos do ser.
Grave é o silêncio eterno dos seres acabados. A tagarelice mundana é o insciente acontecimento que não permite a interrogação porque é meramente existir nos sentidos. É no silêncio que se vai fabricando o ser. Se por acaso, então, dois seres num ciclo de retorno de todo o imperfeito se encontram aqui na fase derradeira de permanência no inacabado, aqui se amam e se conhecem, então o seu voo no aberto sobre o abismo do mundo há-de atirá-los espontaneamente para o trilho de regresso ao eterno suspenso do que irradia primordialmente. A esse único encontro derradeiro, libertador, chamaremos amor? A esse salto para o futuro, a essa suspensão no "horror" do presente, a esse adeus eterno ao mundo chamaremos regresso ao ser, espiritualidade?
Amor e espírito, fases derradeiras na terra antes da ascensão ao eterno e acabado irradiante, luz aqui no centro do ente que somos. Amar, para além de uma disposição particular, de um "objecto" específico é essa energia aglutinadora, corrente silenciosa, que nos leva de regresso e nos confirma aqui na terra enquanto facetas do ser, um passo intransitivo na vida eterna do espírito, manifesto no transitivo de cada existência.
Jorge Telles de Menezes (23.06.2006).
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