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Da obra "Bairros de Sintra", de José Alfredo da Costa Azevedo, publicada pela C.M. de Sintra e que engloba a Vila Velha - Ronda pelo Passado, A Estefânia e o Bairro de São Pedro, acrescida ainda dos "Aditamentos e Actualizações" que o autor efectuou posteriormente, vale a pena recordar o prefácio que Vitor Serrão e José Cardim Ribeiro lhe dedicam...
Prefácio de "Bairros de Sintra"
É-nos difícil falar do historiógrafo sintrense José Alfredo da Costa Azevedo (1907-1991) - o popular José Alfredo -, cujo convívio de anos, nos então Serviços Culturais da Câmara Municipal de Sintra, continua a constituir para nós uma referência de qualidade humana, de paixão intensa pelas coisas do Património e da História, e também, sobretudo, de grata recordação.
Trata-se de tarefa duplamente dificultosa. Era um desses "homens-bons" de Sintra, já raros, que, como ninguém, amou a sua terra nas suas múltiplas vertentes, a ela devotando todas as energias de estudioso sensível e de homem comprometido com ideais. Escrever sobre José Alfredo, sobre o homem, o intelectual, o artista, o político e o resistente, falar de tantas acções culturais conjuntas em que interviémos em prol da dignificação de Sintra - dessa Sintra que ele já não viu alcandorada pela UNESCO a Património da Humanidade -, é trabalho não só difícil como, de certo modo, triste: é que, antes de tudo, temos de recordar com enlevo e saudade aquele homem probo, sensível, mordaz, com quem percorríamos o concelho sempre que um monumento, uma estação arqueológica ou uma área de interesse natural estavam ameaçados por um incêndio ou uma urbanização, e que víamos trabalhar quase diariamente, nos idos anos oitenta, nas salas do Palácio Valenças, sede da Biblioteca Municipal e do Arquivo Histórico de Sintra, vendo-o reunir pacientemente os materiais com que compunha depois as suas crónicas.
E que crónicas! Nelas, toda Sintra refloresce na sua qualidade botânica, paisagística e florestal, no acervo exemplar de monumentos sacros, dos palácios, dos edifícios civis, das quintas serranas e dos típicos conjuntos habitacionais que desde a antiguidade pré-histórica à actualidade se pode aí em profusão recensear, pois todos eles constituem matéria de investigação de José Alfredo, que lhes aduz a dimensão do humano, da "petite histoire", das coisas singelas... O património natural da grande Serra, do castelo e do mosteiro alcantilados, dos bosques sem tempo, com lagos transparentes e fontes refrescantes, dos palacetes e quintas de uma aristocracia conformada, gáudio de sonhos românticos e deleite de célebres viajantes, os recheios gótico-manuelinos ou barrocos das suas igrejas, os núcleos de arquitectura saloia, expressão personalizada da criatividade popular, de tudo isso falou José Alfredo, extasiado com essa comunhão ímpar entre o meio ambiente manchado de verdes e fragas e a expressiva realidade dos agregados urbanos (Vila Velha e Estefânea) caracterizados em facetas multiformes por quase nove séculos de história humana.
Se olharmos para o percurso apaixonante deste "homem-bom" que dedicou à investigação, à pesquisa, à preservação e fruição dos monumentos e espaços de Sintra o melhor das suas energias e da sua existência, feita de lutas, de dificuldades e de labor, maior sentido faz a vasta e dispersa obra que nos legou, ora nas páginas do Jornal de Sintra, ora em publicações municipais e hoje inacessíveis, ora em textos inéditos e em memórias soltas.
O lançamento das Obras de José Alfredo é um acto de justiça e, ao mesmo tempo, um apreciável contributo para os investigadores presentes e vindouros, que passam a dispor de um instrumento de trabalho coerentemente organizado em sete cuidados volumes, por dedicado esforço de Eugénio Montoito. Nestes escritos, sempre apresentados com modéstia que define quem interroga o mundo num olhar humanista, encontramos os mesmos pressupostos de integridade que fizeram de José Alfredo o homem que recordamos: paixão, rigor, seriedade, brilho, probidade metódica e científica, humor e, sempre, uma rara sensibilidade de artista. Foi verdadeiro agente cultural apto a intervir e a destacar-se no seu universo em pose de rebeldia e inconformismo quando o mínimo acto vandálico se desenhava; para nós, será sempre uma espécie de velho bardo dos valores patrimoniais dos bairros de Sintra, a Vila Velha, Santa Maria, São Pedro de Penaferrim, a Estefânea, e a Serra, sempre a Serra, com o seu Castelo dos Mouros, os seus monumentos, as suas lendas e encantamentos, a sua bruma que não se dissipa, e o recanto onde jaz o seu amigo e tão admirado Ferreira de Castro e que ele próprio, devoto cumpridor da última vontade do escritor, escolheu com desvelo.
Para nós, portanto, este sintrense José Alfredo foi, nesses anos que aqui com saudade recordamos em que convivemos a ritmo quotidiano comungando desgostos e vitórias, uma espécie de consciência moral das pessoas de vontade.
Falando das páginas que se oferecem ao leitor e que ora se distribuem, ordenadas, por estes sete volumes de textos e desenhos, devemos afirmar que José Alfredo foi, dentro da sua específica metodologia de trabalho didáctica e fácil, um dos mais qualificados sintrenses de uma geração de memorialistas e monografistas onde, aliás, pontificou também Francisco Costa.
Não tinha formação académica, mas superava essa pretensa lacuna com a inteligência e o trabalho árduo de quem sabe ver as coisas, tornar vivas as memórias e é capaz de interrogar os factos. Por isso a sua micro-história sintrense, a história da Vila Velha e das suas gentes, das queijadas e das festas, das igrejas e dos conventos, dos viajantes ilustres e dos saloios, tem um certo sabor nostálgico mas de referência insubstituível. Através de largos anos de assídua colaboração na imprensa regional, com destaque para o velho Jornal de Sintra de António Medina Júnior, em que desde sempre escreveu artigos de cultura local, e nos diversos livros que deu à estampa através dos serviços municipais e que muito nos honrámos então de prefaciar, definiu com transparência os seus pressupostos: o património histórico/cultural/natural existe para ser amado, conhecido, fruído e salvaguardado, e não serão precisos academismos empoeirados ou possidentes doutorites para que essa consciencialização pública se faça.
Além do mais, José Alfredo é em si, sê-lo-á sempre, parcela viva do Património de Sintra, personalidade artística de fina sensibilidade como desenhador e aguarelista de trechos "ao natural", como inflexível resistente antifascista e tolerante democrata de sempre, como poeta, como conversador apaixonante e pedagogo apaixonado na motivação dos mais jovens para a defesa da sua Sintra. Investigador apegado ao conhecimento da "petite histoire" regional, tão bem narrada aliás nos já clássicos trabalhos reunidos em seis volumes de Velharias de Sintra (1980-1987), e nos livros O Denominado Túmulo dos Dois Irmãos (de colaboração com o olisipógrafo Fernando Castelo-Branco, 1978) e A Vila Velha. Ronda pelo Passado (1978), é neste campo que a figura de José Alfredo merece ser agora considerada.
Esses textos readquirem, com a presente compilação, onde se articulam inéditos e escritos esparsos de intervenções menos conhecidas, a unidade que à sua faltaria. Podemos apreciá-la agora no seu conjunto, com a certeza de que a História assim se constrói, repositório de memórias singelas e de factos grandiosos.
Não teve formação académica, nem precisou: ele foi assim, tivemos ocasião de o dizer uma vez, uma espécie de "Túlio Espanca de Sintra", pois o que aquele historiador de arte fez para a sua Évora, e todo o Sul, encontra, de algum modo, paralelo na acção cultural autodidacta de José Altredo. Por isso, foi galardoado em 1980 com a Medalha de Ouro do Concelho e, até ao seu falecimento, aos oitenta e três anos intensamente vividos, continuou a pugnar pela dignificação de Sintra, pela sua salvaguarda, pelo conhecimento cultural do seu espaço. Ele fez o perfil do genuíno agente-produtor de cultura de Sintra, e é assim que, com muita saudade, o recordamos.
Texto de Vitor Serrão e José Cardim Ribeiro,
in "Bairros de Sintra", de José Alfredo da Costa Azevedo.
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