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Puro O'Neill em prosa, "Ambulância", de Manuel da Silva Ramos (*), corresponde à irrupção actual da veia satírica que tem alimentado a literatura portuguesa desde a sua origem, com as Cantigas de Escárnio e Maldizer e algum teatro de Gil Vicente, corrente abafada pelo espírito da Contra-Reforma entre as segundas metades dos séculos XVI e XVIII, ressuscitada por Bocage, Cruz e Silva, Nicolau Tolentino e Agostinho de Macedo, majestosamente praticada por Eça de Queirós no século XIX, e, no século XX, cultivada com mestria por Almada Negreiros, Natália Correia, Alexandre O'Neill e Luís Pacheco.
Alguns textos de Rui Zink e, principalmente, dois livrinhos de Sérgio Almeida, Análise Epistemológica da Treta (2003) e Armai-vos Uns aos Outros (2004) (Quasi Editores), tentaram, já no século XXI, prestar actual legitimidade ao romance satírico como modo crítico e mordaz de denúncia social. Superior em qualidade, é, no entanto, em Ambulância que a vertente satírica do romance português, confluindo com a tradição portuguesa da graça jocosa, a frase curta ao modo do epigrama faceto, o refrão trocista, a repetição pela semelhança fonética ao modo surrealista, o entremez escarnecedor e acutilante, numa palavra, o universo literário da farsa e da sátira se revê hoje como arma de arremesso contra os poderosos do mundo da política, do futebol, da Igreja e da construção civil.
Ambulância constitui-se como expressão da revolta do narrador (o "escritor", com evidentes traços auto-biográficos do autor) contra a actual situação social e política de Portugal, optando pela mordacidade e pelo escárnio como modo de ataque e denúncia. No estilo, firmado na frase cáustica e invectivadora, enquanto palavra de ordem literária desprezivamente cuspida contra o Poder, Manuel da Silva Ramos guarda, na primeira parte do romance, a lição surrealista de Os Passos em Volta, de Herberto Hélder, manipulando o significante das palavras segundo associações lúdico-estéticas, sem preocupação pelo referente; na segunda parte, após a p. 153, o estilo satírico, fortemente sarcástico, violentamente o'neilliano, atinge o seu mais fundo objectivo, o coração de Portugal, desnudando-o, deixando-o a sangrar, doente, mostrando-o violentado pela corporação do "Chove-Cherne" (imagem literária de todos os políticos dos últimos 20 anos), deitado moribundo na maca de uma ambulância a caminho do hospital, um Portugal despido de todo o lirismo, suportando hoje, sob um partido de esquerda, a mais brutal devastação histórica dos direitos sociais adquiridos ao fim de um século de miséria e revolta.
Sempre determinado pela sátira, Ambulância experimenta um conjunto diversificado de géneros literários: a epistolografia (notável a carta para o amigo morto de Minde), a reportagem (cúmplice com Lúcia Reis, do Jornal do Fundão), praticada ao modo pessoalíssimo de Fernando Assis Pacheco, o memorialismo (recordações da errância emigrante do narrador-autor pelas terras de França; recordações da infância e adolescência entre as serras da Gardunha e da Estrela) e o documentarismo (costumes e rituais arcaicos da Beira interior).
Para além do crivo amargo da denúncia, a narração ostenta igualmente uma faceta de ternura e de pena pelos sofrimentos injustos suportados pela personagem principal e narrador - o "Escritor -, que, cavaleiro solitário, sem família constituída, sem trabalho certo, acompanhando-se do povo simples, viajando pelas margens da sociedade (casas de alterne, bairros populares, aldeias isoladas do interior), convivendo com os excluídos sociais (Luís Gato, prostitutas brasileiras, loucos da Covilhã, estressados de guerra, travestis, os últimos operários vidreiros da Marinha Grande…), assume na sua voz, como escritor, a figura das acusações e das reivindicações dos injustiçados - e, antes de mais, de Carlitos, deficiente mental, morto à pancada pela mãe, e Milita, explorada como vidente pela tia Felismina, linha de fio que presta continuidade e unidade ao fragmentarismo estrutural de Ambulância.
Deste modo, Ambulância, jogando humor com dramatismo, anedotário com revolta, sarcasmo com ternura, reaviva na mente profunda do leitor o Portugal do "Zé Povinho" anti-burguês de Bordalo Pinheiro, explorado e humilhado sob a albarda posta pelos políticos monárquicos da "Regeneração" e do "Rotativismo", substituídos pelos actuais políticos democráticos, que de boca para fora soltam loas à inclusão, apaziguando o instinto sanguinário explorador das elites económicas, e, na prática da acção, fomentam a mais profunda exclusão social que Portugal tem sofrido desde os últimos cento e cinquenta anos.
Desmascarador e impenitente, ostentando desbragadamente a autêntica farsa social hoje vivida sob o nome de "Portugal", Ambulância constitui-se, sem dúvida, como o mais importante romance publicado este ano em Portugal, fazendo-nos lembrar, pelo tom verrinoso, pela acusação directa contra os "Chernes" da política, o conteúdo social dos poemas de Gregório de Matos na Bahia do século XVII, poeta popularmente cognominado "O Boca do Inferno". Tanto pelo rasgão violento que produz no pardacento horizonte actual do romance português, quanto pela recuperação da vertente satírica da nossa literatura, Ambulância mostra-se verdadeiramente merecedor de um prémio literário.
(*) - Este artigo corresponde ao texto de apresentação do romance em Sintra, na sessão do dia 7 passado, na tertúlia d'0s Meninos da Avó, na Quinta da Regaleira.
Filomena Oliveira/Luís Martins (10.06.2006).
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