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Hoje quase totalmente desconhecido, Ribeiro de Carvalho (1880-1942) - em sério risco da sua casa da Bela Vista, no Cacém, bairro do Zambujal, ser substituída por um quadrilátero de prédios -, pertenceu à galeria de heróis que sonhou e realizou a implantação da República em 5 de Outubro de 1910.
Proclamar a República, de armas na mão
Ribeiro de Carvalho foi um dos muitos antigos republicanos que, como exemplo ético de cidadania, nos relembra, a nós, adormecidos pela modorra da vida, o que significou, em Portugal, viver, lutar, ser ferido, perseguido e exilado pelo ideal político da República e da Democracia, ideal hoje felizmente consolidado.
Ribeiro de Carvalho foi um dos cidadãos que conquistou a República de armas na mão e a anunciou ao todo de Portugal da varanda dos Paços do Concelho, naquela fotografia mítica de um punhado de lutadores derrubando com a sua palavra e a sua acção sete séculos de Monarquia. Ribeiro de Carvalho foi sempre um homem abnegadamente disponível para os outros, um espírito verdadeiramente sonhador, um combatente da democracia contra todas as formas de ditadura, a ditadura de Salazar, mas também a "ditadura dos sovietes", contra a qual escreveu o então famoso libelo "O que era a Rússia antes dos Bolchevistas", em 1932, onde evidenciava que apenas situações de profunda miséria e repressão poderiam levar os povos ao desejo de um absoluto amparo protector do Estado.
Ribeiro de Carvalho era um homem livre, que desejava toda a liberdade para todos os homens, não apenas a liberdade formal do voto, mas a liberdade concreta das escolhas práticas do quotidiano, sem as quais a personalidade humana sente-se truncada e revolta-se, como ele próprio o fez, dando o exemplo, com prejuízo da sua vida familiar e económica. Deputado pelo Partido Liberal, maçónico, como todos os fundadores da I República, Ribeiro de Carvalho era um homem completo, político, jornalista, poeta, ensaísta, estudioso, membro da Academia das Ciências de Lisboa, mas sobretudo um homem interveniente nos males políticos da primeira metade do século XX português (a pobreza, o analfabetismo, a dependência da mulher, a ignorância religiosa), tentando corrigi-los, pondo a sua palavra, no Parlamento, enquanto deputado, e a sua pena, nos jornais e como director d´A República, ao serviço das causas da justiça social.
O ideal de regeneração de um país decadente
O sonho da República significava para Ribeiro de Carvalho o fim de quase 400 anos de decadência de Portugal, teorizado como cartilha popular entre a classe média urbana no opúsculo de Antero de Quental, de 1871, Causa da Queda e Decadência dos Povos Peninsulares. Porém, o Ultimatum, de 1890, e a crise nas finanças públicas da primeira metade da década de 90 geraram um total desalento face à possibilidade de a Monarquia de D. Carlos I conseguir remediar uma solução para a decadência de Portugal. O suicídio de Antero, o fracasso do 31 de Janeiro do Porto e a publicidade à volta das reuniões jantantes de "Os Vencidos da Vida" comprovaram a existência de um profundo divórcio de mentalidades entre o vértice do regime e a população urbana. O "Rotativismo" bloqueara as instituições constitucionais, a fraqueza das pessoas régias D. Luís e D. Carlos, uma classe política desconsiderada, de que literatura se fazia eco desde a década de 70, um Parlamento de funcionalismo dependente das chefias partidárias, um nepotismo e um compadrio político e familiar que se estendia a todos os patamares da administração.
Entre o povo pequeno-burguês a que Ribeiro de Carvalho pertencia, um dos braços da esperança de superação da decadência do reino assentava na militância na Maçonaria, mítica associação da liberdade e da igualdade, que, por via de um deus de progresso, de ordem e de trabalho, redimiria Portugal. Ribeiro de Carvalho tornou-se maçónico e pegou em armas através da militância na Carbonária. A Maçonaria, como associação, e a República, como mãe das novas instituições, garantiriam, no sonho dos revolucionários do 5 de Outubro, a consagração da liberdade pela igualdade perante a lei, contra os privilégios dinásticos e familiares, e da justiça pelo advento de uma era de prosperidade, cujo instrumento diário de evolução seria constituído pela alfabetização dos humildes e por uma nova educação das elites. Na República, segundo o sonho de Ribeiro de Carvalho, a função real monárquica e hereditária findaria, mas o rei não acabava, já que, agora, cada cidadão, culto, instruído e livre, se tornava ele próprio rei. Todos os homens cultos sendo reis e todas as mulheres rainhas, a República, quase por inércia, faria Portugal regressar ao seu antigo grandioso destino. Ribeiro de Carvalho viveu uma das fases mais líricas da história nacional.
Foi este ideal de justiça histórica de regeneração do país que a República prometeu no sonho de todos os que a fizeram e que nunca foi cumprido, travado e aniquilado pelas forças tradicionalistas e ruralistas, que ganharam historicamente o discurso da ordem e do unicitarismo contra a aposta na liberdade e na democracia. Perdeu o pluralismo e Ribeiro de Carvalho voltou a sair à rua de armas na mão.
Ribeiro de Carvalho, acompanhado por Raul Brandão, Teixeira de Pascoais, Vitorino Nemésio, Leonardo Coimbra, Joaquim de Carvalho, Egas Moniz, tantos outros, pertenceu à classe portuguesa historicamente mais infeliz: a classe média liberal, que verdadeiramente nunca se consolidou em Portugal até à década de 80 do século XX, impedida de crescer pela rivalidade conflituosa entre os extremos sociais. De um lado, os monárquicos ultramontanos, de outro a agitação carbonária; de um lado, o extremismo do anticlericalismo jacobino; de outro, a reacção ruralista da Igreja Católica; de um lado, a conspiração militar e empresaria; de outro a agitação anarco-sindicalista; de um lado, o analfabetismo e a superstição herdadas da monarquia; do outro, o desprezo republicano das cliques políticas urbanas; de um lado, o desenvolvimento dos meios de produção; do outro, o permanente déficit do Estado, que apenas Afonso Costa interrompeu; e a desvalorização crescente da moeda e a inflação posterior à I Guerra Mundial. Em síntese: de um lado, o sonho republicano de elevação Portugal a um nível civilizacional e cultural semelhante ao da Europa Central; de outro, o atraso secular que arrastava Portugal para o extremismo de esquerda ou de direita, revolucionário ou conservador. Ganhou este último e Ribeiro de Carvalho sofreu um curto exílio.
Acção benemérita e política em Sintra
No Cacém, onde se instalou a partir de 1923, foi benemérito da Associação de Bombeiros e "protegeu desveladamente muitas pessoas que viviam pobremente em Agualva e no Cacém". Em 1925, desgostoso com o caminho intriguista que seguira a I República, aceitou integrar as listas da Esquerda Democrática, partido que pregava uma refundação ética da República, onde militaram Domingos dos Santos, em Lisboa, e Leonardo Coimbra, no Porto, e concorrer à Câmara Municipal de Sintra, tendo sido eleito como Presidente do Senado da Câmara. Com o pronunciamento militar de 1926, Ribeiro de Carvalho, com 46 anos, já casado, com filhos, volta à rua de armas na mão. É preso no Forte de Monsanto, deportado para a Madeira sem julgamento, e aqui junta-se, de novo com armas na mão, ao general Sousa Dias na famosa revolta da Madeira de 1931, última rebelião militar contra o novo regime do Estado Novo. Amnistiado, regressa a Lisboa e assume de novo a direcção d´A República, tornando este diário na voz política da oposição, onde escreve diariamente um editorial de fundo que, para muitos, constituía a pequena luz no fundo do túnel negro que era o regime salazarista nos seus primeiros tempos. Abandona a direcção do jornal um ano antes de morrer, em 1942.
Um republicano com alma de sonhador
Ao longo da dezena de anos que viveu sob o regime salazarista, todos os 5 de Outubro Ribeiro de Carvalho desfraldava a bandeira de Portugal sobre o terraço de sua casa no Cacém e, contra as autoridades municipais, mandava estrelejar foguetes no céu, provando assim que, se a República estava morta nas ruas, tragada pelo Estado Novo, no coração de Ribeiro de Carvalho, ela, e a sua mãe, a Liberdade, estavam bem vivas.
Texto de autoria do Prof. Miguel Real. A Alagamares agradece a autorização para publicação.
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