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Tertúlia Mário Dionísio em Galamares-9 Outubro 2010
        

No dia 9 de Outubro nas Caves de S.Martinho, em Galamares,Sintra,a Alagamares e o Centro Mário Dionísio levaram a efeito uma sessão evocativa da figura de Mário Dionísio, escritor e professor que em Galamares veraneou nos anos 50, e aí conviveu com vultos como Ferreira de Castro,José Gomes Ferreira e outros.Foram projectadas imagens, e cantadas músicas por Pedro e Diana, inspiradas em letras de Mário Dionísio.

Foram  oradores as escritoras Eduarda Dionísio e Filomena Marona Beja e o arq.Francisco Castro Rodrigues.

Ver reportagem no Sintra Canal (clicar em "Alagamares" na coluna da direita)

http://www.sintracanal.tv/

 

Mário Dionísio tinha casa alugada  «ao ano», como se dizia, a casinha então isolada do Sr. José da Quinta, que vivia nas traseiras, ao fundo de uma estrada escalavrada que ia da linha do eléctrico lá para cima, na curva onde se vendiam as belas «nozes douradas de Galamares»…

Começaram por ficar na Pensão Mariana, o «ferro eléctrico», que era mais barata do que as «Caves de S. Martinho» mais conhecidas por «café do Sr. Alcino», onde é hoje a sede da Alagamares.

Outros amigos  já lá tinham casas alugadas «ao ano» –  José Gomes Ferreira,  Rui Grácio, os dois quase à entrada de Monserrate – outros com casa própria, o Roberto Nobre (rente à linha do eléctrico à entrada de Galamares quando se vem de Sintra). E, por perto, havia Keil do Amaral, no Rodízio – uma casinha pequenina no meio do pinhal, projectada por ele – Castro Rodrigues, nas Azenhas do Mar, onde quase nasceu, e outros.

 

        

         Mário Dionísio no pinhal,em Galamares

 
Eduarda Dionísio, recorda "do pinhal todas as tardes, com amigos dos meus pais, alguns com filhos da minha idade, dos «hamacs» de lona presos às árvores com nós especiais e pedacinhos de maçã para atrair as formigas que assim não incomodavam quem se punha a ler, estendido, das mantas estendidas no chão, dos livros, de conversas. Os mais novos, como eu, a partir pinhões a tarde inteira e a colher agulhas de pinheiro para fazermos «trabalhos manuais», a fugirmos e a sermos reencontrados. Lembro-me de apanhar caracóis, não para cozer e comer, mas para guardá-los nas latas de tabaco de cachimbo do meu pai «Revelation» e a deixá-los à socapa passear à noite pelas paredes do quarto da pensão, e de manhã, as reprimendas… Lembro-me dum «palácio» em frente, na Serra de Sintra, com um talvez criado de libré que aparecia à janela durante a tarde, antes de o nevoeiro começar a descer, fazendo-o desaparecer e ao palácio, e o que a partir dele se imaginava sobre marqueses e marquesas… Lembro-me dos passeios até ao riacho com rãs, lá em baixo, e a Monserrate abandonado, com entrada livre, lá em cima… Lembro-me das idas (não diárias) à Praia das Maçãs, de manhã, no eléctrico amarelo (os meus mais não tinham carro) e das desgraças - crianças todos os anos mortas, pelas areias movediças, pelas correntes. Lembro-me de horas a fio na bicicleta, pela estrada esburacada que levava à casa do Zé da Quinta, abaixo e acima, e dos arranjos dos pneus e da corrente. Lembro-me da comida feita em fogão a petróleo nessa casa. Lembro-me de ir comprar ovos, uns metros acima, ao aviário moderno, com milhares de frangos a crescerem sem espaço debaixo de umas lâmpadas vermelhas. Lembro-me do Sr. Zé da Quinta a querer matar mulher e filha, pela vinha fora, não sei porquê. Lembro-me dos pirilampos e de um cometa, coisas que ali vi pela primeira vez. Dos arcos e flechas construídos e usados o dia inteiro, para acertar e não para matar. Fisgas talvez, mas poucas".

E lembra "um campo de ténis cheio de buracos, nas traseiras da Pensão Moderna, um grande palácio, onde alugavam quartos, onde todos, até eu, se puseram a tentar jogar ténis… com raquetes de não sei quem… Tardes desportivas maravilhosas, outra forma de estar e conversar…  

E lembro-me muito bem, que estando em férias lá, o Pitum Keil Amaral me foi buscar para entrar numa récita que no Rodízio organizava. E lá cantei, mais ou menos mascarada. Foi a primeira vez que pisei um «palco», que era ao ar livre, em casa da avó dele. Dessa alegria lembro-me muito bem"

Recordou ainda Ferreira de Castro, sentado à mesa do café com o seu pai, em Galamares, dentro ou na esplanada, e também em Sintra, no café Paris, onde  jogava «negus» com a filha enquanto eles conversavam. "Acho que aprendi com ele a palavra «cacimba» de que ele se queixava, uma noite, na esplanada do Café do Sr. Alcino",recordou

O Café do Sr. Alcino era local da peregrinação diária, duas vezes por dia: depois do almoço e depois do jantar. Para beber café e conversar.

"Enquanto os meus pais e os amigos conversavam, eu e um companheiro da minha idade (e às vezes outros filhos de «visitas» esporádicas ou regulares), saltávamos o muro, para lá cá e para lá, com variantes várias. Era ponto de honra não entrarmos pelo portão pequenino. O muro (que eu julgava enorme, e só percebi que era baixinho quando há não muito tempo lá regressei) servia para isso e não para delimitar a propriedade. E saltava, saltávamos. Também à corda, eu que era menina. E a fazer girar o «prato chinês» e parece-me que já o « holá-oop» (escreve-se assim?) à volta da cintura.  

Também foi, sentada num muro, mesmo em frente da esplanada do Café do Sr. Alcino, para onde éramos autorizados a ir, com cuidado, que aprendi as marcas dos carros. Foi o Rui Quartin Santos que me ensinou: o jogo era ver quem dizia primeiro a marca do carro que dava a curva em frente da Pensão Mariana: Austin, Opel, Volksvagen, Peugeot, Citoen (que ia dos 2CV à Boca de Sapo)…

E lembro-me dos teen-agers, «muito» mais velhos do que eu, que incluiam os filhos do prof. Barahona Fernandes, nessa esplanada, a ensaiarem os primeiros passos dos primeiros rocks, de vez em quando, perante o incómodo dos intelectuais… A música saía do juke-box (não se chamava assim nessa altura) que lá havia e que engolia parece-me que 10 tostões em cada música,o mesmo que custavam os rajás de gelo (laranja, ananás) que comíamos muito de vez em quanto, por causa da saúde e das poupanças – o «palino» era muito mais caro – vinte e cinco tostões … só em dias de festa…"

 

            

             Na esplanada do Alcino, hoje sede da Alagamares

Filomena Marona Beja, num tom mais distanciado, enunciou a biografia de Mário Dionísio, professor, pintor, homem de causas,enquanto Castro Rodrigues, companheiro das lutas no MUD Juvenil nos anos 40 se focou mais no antifascista e combatente pela liberdade no PCP de que se afastou nos anos cinquenta.

A neta de Mário Dionísio, e Pedro, cantaram e declamaram temas com base em letras desse grande vulto.

A Alagamares propôs recentemente que uma artéria na freguesia de S.Martinho, em Sintra, onde se situa Galamares, venha a ter o nome de Mário Dionísio

    

Eduarda Dionísio                                Filomena Marona Beja  Castro Rodrigues