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| O destino infausto de Salomão Ben Crespe |
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| Domingo, 24 Outubro 2010 21:13 |
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Uma história de Fernando Morais Gomes
Salomão Ben Crespe, cinquenta e cinco anos, parco de carnes, figura esguia, diariamente cumpria o rotineiro trajecto entre a pequena sinagoga de Sintra, de que era rabino, e a R. da Pendôa, onde tinha casa e seu irmão ofício de sapateiro. A comunidade era pequena, a sinagoga apenas permitida após uma inesperada carta de aforamento em 1407. Tentativas houvera de alargar a judiaria para lá da urbe, porém El-Rei D.Afonso V ordenara que todo o judeu só pudesse utilizar a porta da judiaria como local de comércio, para lá da mesma estando vedado mercadejar. A tolerância era parca, cristãos-velhos denunciavam com frequência às autoridades, por esses idos de 1496,que crianças judias brincavam junto à igreja de S.Pedro de Canaferrim, num claro desrespeito por tal solo sagrado. Os tempos iam agitados, em Espanha havia ocorrido a expulsão dos irmãos, sangues turvados originavam comportamentos sanguinários, valera na altura a tolerância de El-Rei D.João, esse Príncipe Perfeito que montara acampamentos junto à raia para receber os sefarditas deserdados do reino vizinho, no entanto só podiam permanecer oito meses e pagando taxas incomportáveis a El-Rei. Famílias judaicas eram já algumas, sapateiros, alfaiates, ferreiros, a Judiaria prosperara, Jacob de Baiona ou Abraão Ruivo, haviam sido anciãos respeitados e laboriosos, Salomão Palaegno era por essa época um dos principais mercadores da Vila Velha. Salomão ia amenizando a vida com as diárias leituras dos Livros Sagrados na sinagoga, duas ménorahs em prata oferta da comunidade local como adorno, único local de refúgio dos filhos de Israel .Alguns vindos de Espanha se refugiaram em sua casa, maldizendo a sua sorte, acossados por um sangue impuro e pela infelicidade de ser felizes nos negócios. Um dia, um édito real acordou transtornado o sábio rabino. El-Rei D.Manuel, no encalço do cristão rei de Espanha decretava a conversão forçada desse povo, promessa de casamento para com a sua católica noiva, os impuros que buscassem a purificação pelo baptismo, assim seria grandioso senhor da Cristandade, temente à Santa Madre Igreja. Salomão logo reuniu as principais famílias, assustadas, xingadas nas ruas pela plebe, pedia-se sangue, pela usura haviam porfiado, pois que pagassem, semíticos herdeiros desse Caifás que matara a Nosso Senhor Jesus Cristo. Na igreja de S.Martinho, frei Gonçalo do Rosário acicatava á conversão, homilias incendiadas, marranos para bem longe , juntos aos gafos em S.Pedro. A vila passava por esses tempos por seca prolongada, logo nas igrejas justificada pela má influência dos judeus, o Senhor castigava o convívio com os pecadores, o inferno estava exangue dessa justiça cristã que apaziguaria os elementos encolerizados com Sintra. As pestes dos anos anteriores eram o sinal da ira divina, incendiavam os clérigos. Nas semanas subsequentes, oficiais do Paço correram as casas dos infelizes, curando de saber quais hereges se mostravam tementes a Deus e ao Santo Padre, labaredas purificadoras se encarregariam dos que resistissem. Salomão Bem Crespe juntou a comunidade, em salas escuras, velhos recitando salmos, filhos assustados pegando as saias de chorosas mães a medo entoaram os cânticos que os filhos de Moisés, David e Salomão repetiam desde que a terra do leite e do mel fora alcançada, Terra Prometida longe desta outra agora madrasta e castigadora. Com o tempo, alguns converteram-se, era o fogo ou a sobrevivência. Frei Gonçalo do Rosário somava os baptismos salvíficos, no momento da água cair cristalina, muitos fechavam os olhos, interiormente rezavam pela redenção do povo de Israel. Várias famílias de Sintra tentaram fugir, mas o rei alertado fechou os portos. Os filhos de Rute de Córdova, menores de 14 anos, foram levados á mãe para serem educados como cristãos, a comunidade que sobrou passou a ser um andante espectro silencioso arrastando uma lepra disfarçada, onde só os corações podiam ainda em sofrimento ser livres. Salomão Ben Crespe, amargurado, abandonou Sintra, retirou-se para Lisboa, nos nove anos seguintes subsistiu como alfaiate, um primo converso tinha uma casa junto ao Hospital de Todos os Santos, no Rossio. 1506 entrara de novo flagelada pela peste, os cristãos velhos celebravam a Semana Santa, Pesach hebraico, igrejas enchiam pedindo pelo fim da praga e pela redenção das almas, frades vendiam indulgências, muitos amancebados com rameiras em vidas dissolutas. Na igreja de S.Domingos, ia o dia 19 de Abril, dominicanos assanhados peroravam contra os males do reino e seus pérfidos causadores, a turba cega pedia sangue. Olhos turvados pela impotência viam já sinais divinos num crucifixo junto a uma capela,um milagre se anunciava, muitos rezavam já, um cristão novo porém arrefecia os ânimos, apenas uma candeia acesa ao lado do crucifixo, adiantou. Reconhecido como marrano, logo a plebe o matou, e saindo acossada pelos dominicanos perseguia na rua todos os que se lhe afigurassem desnaturados e incautos às leis de Deus. Salomão Ben Crespe passava a caminho do Paço da Ribeira, devagar andava, vergado pela idade e desgostos que a vida lhe causara .Acto contínuo virando-se para o lado da igreja de S.Domingos viu vir em direcção a si um grupo de exacerbados populares, acicatando: Mata!Mata!. E agarrando-o pelos cabelos, o arrastaram pela terra pejada de excrementos dos cavalos, golpeando e pontapeando, como se a cada pontapé uma chaga de Cristo fosse curada e o reino dos Céus ficasse mais próximo. Atordoado, junto a si mais três infelizes, duas crianças de berço arrancadas a suas mães e jorradas para um monte de lenha que logo se armou, guincharia própria de açougue com o bezerro sentindo a chegada do cutelo justiceiro. Salomão fechou os olhos, olhou o céu, sorriu,e deixou que o calor agora libertador daquele madeiro improvisado tomasse sua carne e entranhas, a alma preservada estava já para a eternidade, descansaria agora ,o Deus de Israel não o abandonaria. Nesse dia do ano de 1506 da era de nosso senhor D.Manuel, venturoso rei de Portugal, o fumo negro da perfídia, e o esturricado cheiro da justiça dos homens tombava sob a capital daquele Império onde o Sol nunca se punha, mas as trevas não largavam.
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