Painel de Administração
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| Maravilhas naturais e coisas menos naturais |
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| Quinta, 09 Setembro 2010 13:30 |
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Por estes dias, Sintra andou ufana com a possível atribuição dum galardão de Maravilha Natural de Portugal. Passe a desnecessidade de espaços como Sintra e sua serra envolvente precisarem de tal galardão,(Sintra é e será sempre uma maravilha natural) impõe-se contudo algumas palavras sobre,não as parnasianas e bucólicas paisagens, os cheiros a Éden ou o orvalho da manhã, tão candidamente pueris, mas sobre outras realidades bem mais terrenas, na fronteira com o purgatório humano, e inferno instalado nalguns casos, decorrente de inúmeros quistos e tumores por aqui disseminados, num quadro circulatório de AVC no trânsito, gangrena de edifícios ou apatia esquizóide nos comportamentos. Sintra é um microcosmos onde o natural muito se interpenetra com o humanizado, decorrente de ,morfologicamente, a serra ser o que é hoje muito graças a intervenção humana e florestação exótica a partir sobretudo de D.Fernando II, isto para o bem, mas também por ser o jardim às portas da Grande Urbe que já lhe ameaça as fronteiras naturais e a invade com as avassaladoras hordas modernas chamadas turistas e excursionistas, que pouco ou nada deixam dormitar as pedras seculares ou as armérias e camélias com que um dia a quiseram presentear. E temos assim uma Sintra com outras 7 significativas e significantes características: 1-A Sintra do desleixo, da ruína desmazelada promovida a vestígio sagrado onde se mexe estraga se não mexe morre. 2-A Sintra do excursionismo de fim de semana, do turista de 2 horas do circuito Vila-Piriquita-Regaleira-Comboio. 3-A Sintra do plano de urbanização mais antigo de Portugal e ao mesmo tempo da incapacidade de planificadamente fazer o que quer que seja. 4-A Sintra onde todos mandam, poucos executam e nenhum respeita. 5-A Sintra de costas para as pessoas, património da Humanidade, mas onde tudo o que cheire a pessoas serem ouvidas, participantes, integradas, de regresso à (sua)Vila, sabe a heresia, como aquele faqueiro precioso que se compra no dia do casamento, mas que quase nunca vai à mesa ao longo dos anos, com medo de estragar. 6-A Sintra dos proprietários urbanos que, donos de vasto património o deixam ruir esperando mais valias urbanísticas, mas que apesar disso, são agraciados com comendas pela sua benemerência e filantropia. 7-E por fim, a Sintra do comércio ora débil ora elitista, da restauração ora precária ora do bolso cheio, da hotelaria do hostel barato ou da byroniana suite, mas onde o meio termo dificilmente tem lugar. Tudo isto é muito antigo, nada novo, velhos problemas e também velhas críticas à incapacidade de resolver, o que é muito nosso aliás.Já em debates e textos nos nossos espaços falámos deste tema. Numa altura em que concursos de TV proclamam as “novas sete maravilhas”, nós, para quem já há muito que temos o privilégio de numa delas viver e fruir, temos igualmente o dever de chamar a atenção para aquilo que não vai assim tão bem, que na grande angular parece harmónico mas no aproximar da vista se vê tolhido por abandono, não interessando agora quem é o culpado, se particular ou instituição. Ao nada fazermos, assim, sim, todos seremos culpados e cúmplices do crime de défice de cidadania, por omissão. Hoje, apenas uma pequena viagem no comboio-fantasma daquela outra Sintra dos escombros, a Sintra que fenece, culpa de todos e que por isso talvez a não mereçam. Alguns exemplos: 1-O edifício da Pensão Bristol,embargado em 2006,e eternizado na paisagem do Centro Histórico.Este edifício é um case study de como uma obra aprovada pelas autoridades por respeitar um plano de 50 anos é 3 meses depois parada pelas mesmas autoridades com o argumento preciso de desrespeitar esse mesmo documento, o tal plano de Groer de 1949 .O tribunal leva o seu tempo a resolver, a paisagem vai-se habituando ao entrapado desta nova múmia, um dia qualquer coisa servirá pois será melhor que o que está.A coisa só podia correr mal pois com um licença emitida a 6 de Junho de 2006...(666, número fatídico) 2-Edifício na Vila Velha, também ele é sentinela de incúria e inércia. 3-Casas na Volta do Duche. Obras prometidas,com instalações e cartazes pós-modernos as embrulharam, qual Christo,mas lá continuam as casas em ruínas. Alguém saberá que há leis que impõe obras de 8 em 8 anos? E que tal se os IMI’S fossem penalizadores para os adeptos do dolce fare niente?.. 4-Hotel Neto. Mais uma chaga, esta já antiga. Antigo poiso de Ferreira de Castro no seu veraneio por Sintra, é o contraponto do inenarrável Hotel Tivoli, homenagem de Sintra a essa nobre espécie chamada patos bravos… ![]() 5-Edifício na R.Alfredo Costa Ao menos o do lado está a ser recuperado.Pode ser que o contágio seja benéfico.. 6-Edifício na Av.Heliodoro Salgado. Bela imagem para quem avista Sintra vindo de Chão de Meninos.É uma casa senhorial? Um palacete assombrado? Não, é Sintra, bucólica, ladeada de alguidares de chineses e plásticos tupperware, mas, atenção, património da Humanidade… 7-Garagem na Estefânea, Sintra Aqui está um espaço que recuperado poderia dar um local multiusos para contratualizar com os agentes culturais locais. Uma nova centralidade. Assim, continuamos a ver os comboios passar… 8-Hospital da Misericórdia Recuperado, fechado,não é já tempo demais? 9-Quinta do Relógio D.Carlos passou aqui a lua de mel,a ver vamos que outras festas aqui poderão ocorrer.A Câmara parece que vai comprar. 10-Obras na Junta de Freguesia de S.Maria e S.Miguel. Mais um mamarracho. A velha junta entaipada, a nova,(o “caixote”) parada por se escolherem os empreiteiros pelintras, um dia algo acontecerá. 11-Vivenda particular na Quinta de Vale dos Anjos, Seteais.O ex-TVI Paes do Amaral dum anexo ao abandono prepara-se para se instalar na jóia da Coroa.Quem pode, pode… 12-Casal de S.Domingos,R.Alfredo Costa Já foi espaço expositivo, mas a cultura segue dentro de momentos.Mais um espaço que podia estar ao serviço da comunidade mediante protocolo com agentes culturais ou artistas. 13-Edifício em frente ao Café “Saudade”, junto à Câmara.Disto não queremos ter saudades. ![]() 14-Logradouros das antigas garagens do Larmanjat, o primeiro comboio monocarril de Sintra. Quem,saído do comboio desce para a Vila, depara logo com estes exemplos de desmazelo.E por vezes não há uma segunda oportunidade para deixar uma primeira boa impressão… 15-R.dos Arcos, debaixo do Café Paris, na Vila, também a precisar de obras e limpeza. Já agora, o que aconteceu à cúpula em ruínas desse edifício, que desapareceu misteriosamente? AGORA A par disto, outros exemplos: a forma como o mobiliário urbano é arrumado de forma “discreta” ou enquadrado na paisagem, surgindo casos em que muitas vezes é ele em si quase a peça mais dominante do espaço envolvente, como muitos dos recipientes de lixo,dominantes na paisagem ou erradamente colocados, o atestam. Outros aspectos a ter em atenção, tendo em conta a existência de um Elucidário Arquitectónico aprovado, são os letreiros, a adequar à imagem de conjunto e não dissonantes, como o da imagem abaixo; e a necessidade de aos poucos ir retirando as “espinhas de carapau” das antenas antigas. E já não falamos de outros exemplos, mais na zona de S.Pedro de Penaferrim: a Gandarinha, esventrada, a Quinta D.Diniz, que ao lado da realeza, dos Marialvas e outros fidalgos, parece o solar do Cavaleiro sem Cabeça. Alguém com cabeça para viabilizar isto? Já lá se realizaram actividades culturais muito interessantes nos anos 90.Quando o interesse público for mais forte que o direito de herdeiros,o Estado de Direito vencerá o imoral direito a estar neste estado…E a Quinta de Santa Teresa? Nem hotel, nem solar, nem habitação. Assim é que está bem, talvez à espera que os Dois irmãos do túmulo à porta ali dancem à noite uma valsa walpurgiana entre fluidos inspirados em De Groer.E muito mais. Apontar não é escarnecer, é lembrar para que não saia das preocupações.Só assim seremos dignos de Sintra Património da Humanidade, maravilha natural onde estas coisas não podem nem devem ser naturais. Deixa sobre as ruínas crescer heras, Deixa-as beijar as pedras e florir! Que a vida é um contínuo destruir De palácios do Reino das Quimeras! Florbela Espanca Fernando Morais Gomes |