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Administração
Pelo Direito/Dever de Educar para preservar Versão para impressão Enviar por E-mail
Segunda, 28 Junho 2010 14:17

                 

Estimular a cidadania ao promover a educação e as boas práticas para a defesa do Património deve ser uma tarefa  quotidiana de todos ao serviço dos interesses colectivos. É importante compreender o sentido pleno da cidadania  para ter uma noção do papel que a educação para a defesa do património representa.O processo de cidadania precisa  de ser fortalecido em todos os sectores da vida como um processo de conquista que faz  parte de uma luta comum que fortalece a democracia e leva  as  pessoas  a lutarem pela defesa das causas  mais importantes da sociedade moderna na certeza plena de que a concretização da cidadania que tem enfoque na defesa do Património é uma das lutas mais importantes nesse contexto.

Tal, vem da certeza que  é cada vez mais urgente manter e respeitar os nossos bens patrimoniais, pois apesar  do desenvolvimento científico e tecnológico,é fundamental livrar o  mundo da destruição dos bens ambientais, culturais e históricos, os quais só serão respeitados no momento em que a sociedade se aproximar deles  e  os identifique e acarinhe  plenamente.E aí entra a cidadania e a educação.

Com a industrialização e a vida moderna,as memórias do passado e a diversidade criada pela natureza têm vindo a ser  destruídas  ou adulteradas  sistematicamente. Não se respeita nem a história (as tradições e as obras das gerações anteriores ) nem a natureza (os ecossistemas  na sua diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma ideia da riqueza do que foi produzido, para que sobrevivam amostras dos valores produzidos pela natureza ou pela história,é necessário defender esse legado  contra a miopia cultural ou devassa  inconsciente.

O  processo de reconhecimento do valor do Património por parte da sociedade  no seu todo,é uma tarefa urgente que deve ser reconhecida e incentivada na certeza da concretização da cidadania plena e pro-activa e na construção de uma  prática colectiva de respeito pelos bens patrimoniais que nos cercam, não obstante os progressos e recuos dos últimos anos e dos novos enfoques que a consciência do problema possibilitaram.

O valor que atribuímos aos locais,objectos ou memórias é decorrente da importância que lhes atribui a memória colectiva. E é esta memória que nos impele a desvendar o seu significado histórico – social, valorizando-os como traço de união com o futuro que é já hoje. É possível  e necessário  um desiderato  que permita-e exija-a participação cívica e que gere o envolvimento da sociedade com os bens patrimoniais e naturais que são a nossa Herança Comum.

A  sobrevivência das sociedades depende hoje duma real  educação em defesa do património, da capacidade e abertura para Compreender.E este é um empreendimento que transcende  raças, culturas ou classes sociais. A Terra é nosso lar comum, e criar um mundo sustentável para as futuras gerações é uma tarefa de todos nós.Soa a chavão mas não é demais repetir.

A par da mobilização,deve haver educação.E a educação, em particular, deve primar pelo desenvolvimento de uma acção pedagógica que valorize os bens patrimoniais  na formação de uma consciência integral visando a sua preservação, compreensão e divulgação,como instrumento de alfabetização cultural,com uma atitude pedagógica  que promova a descolonização da memória e dos imaginários através do diálogo cultural com outros e de processos de sensibilização, sacudindo  as mentalidades,com uma pedagogia que cultive a sensibilidade inter-cultural e a consciência necessárias à formação de  um novo paradigma.De certa forma,consagrando um novo Direito/Dever do Homem.

Este processo pode interagir com o ensino formal (escolas),e com o não formal (comunidade, actores culturais, associações culturais ou de defesa do património etc).

A cultura, e a portuguesa em particular, tem de ser transmitida através das  gerações num processo vivo e dinâmico, propiciando a possibilidade de construir e manter  a sua própria identidade. E a manifestação dessa identidade revela-se através do Património Cultural,que não se restringe somente aos bens culturais móveis ou  imóveis, representantes da  memória nacional e protegidos por leis e instituições governamentais, mas igualmente na interacção dos cidadãos com o ambiente, com a natureza etc. É a alma do  país expressa através de saberes, celebrações e formas de expressão do povo, “materializados” no artesanato, nos costumes das comunidades, na  gastronomia, nas danças e músicas,festas religiosas e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cénicas e lúdicas, seja em espaços públicos, populares, colectivos ou religiosos.

Qual o valor dessa diversidade cultural, se não a reconhecemos ou se somos afastados directa ou indirectamente do processo da sua defesa, divulgação ou preservação? Se não aprendemos a respeitá-la, com justificar tanto esforço e investimento público e privado para a protecção e conservação do  património? Uma sociedade que não se reconhece está fadada à perda da identidade e ao enfraquecimento de seus valores mais intrínsecos. O  envolvimento no processo de fortalecimento da  cultura é fundamental para a construção de uma postura consciente e activa no desenvolvimento da cidadania.Esse igualmente o desígnio e tarefa dos actores culturais, fora da Escola e na Sociedade, e no nosso caso concreto,Alagamares, das associações culturais ao nível local.

 A educação visando acarinhar,conhecer e defender o Património, é um poderoso instrumento nesse processo que no fundo leva ao reencontro do cidadão consigo mesmo, resgatando a sua auto-estima através da revalorização e reconquista da sua própria cultura e identidade, ao perceber a sua envolvente e a si mesmo no seu contexto cultural como um Todo, transformando-se em principal agente de preservação, como o ente que das trevas almeja a Luz, na Alegoria da Caverna, de Platão. O conhecimento crítico e a apropriação consciente pelas comunidades do seu património são factores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania.

Para promovermos o reencontro e a reconquista de um grupo consigo mesmo, torna-se necessário reavaliar a própria visão de cultura, de identidade e de auto-reconhecimento .Como ensinar sem estar sintonizado com esse meio? Nesse aspecto, o factor diálogo torna-se a tónica de qualquer acção entre os agentes directos  de defesa e divulgação do  património e sua preservação,e o grupo local com o qual esse património em questão se encontra directamente associado enquanto parte da Memória Colectiva. Só a partir dessa postura será possível uma acção coerente e voltada ao real crescimento e despertar desse grupo: pela interacção, pela troca, pela confiança estabelecida.Em Sintra,ou noutro microcosmos qualquer.

Urge assim um processo constante de ensino e aprendizagem que tenha  por objecto central e foco de acção o Património. É aí que se encontra o leit-motiv de actuação que vem enriquecer e fortalecer o conhecimento individual e colectivo de uma nação sobre a sua cultura, memória e identidade. Através de acções voltadas para a preservação e compreensão do Património Cultural,permitindo que todos conheçam e valorizem a herança cultural que a eles pertencente, proporcionando aos mesmos uma postura mais crítica e actuante na  construção da identidade e cidadania.

Centrado na defesa e valorização do Património, o processo de ensino e aprendizagem pode s tornar-se um instrumento no despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade para com a sua preservação,indo ao encontro do pensamento de Paulo Freire, isto é, na busca de uma  atitude  que capacite o educando na escola ou o cidadão  na sua rua ou cidade a compreender a sua identidade cultural e a  reconhecer-se  de forma consciente nos seus valores próprios, aumentando o seu "sentimento do nós". Como ele disse,”as relações entre os seres humanos e o mundo são em si históricas, como históricos são os seres humanos, que não apenas fazem a história deste mútuo fazer mas, consequentemente, contam a história deste mútuo fazer”.

A postura que tomarmos diante do ambiente em que interagimos transforma-o, propiciando a nossa própria transformação. E para tanto,torna-se  necessário interagir pela percepção do que o outro  nos possa revelar e fornecer em conhecimentos e costumes, saberes inatos que nos servirão de material para a comunicação do nosso saber.

Uma nova postura sobre o Património, seu conhecimento para sua defesa,virá a reflectir-se no processo de auto-estima,mas para que esse todo faça sentido é necessário fortalecer o sentido da sua própria identidade ,é preciso reflectir quanto à responsabilidade que assumimos enquanto profissionais e cidadãos no processo de fortalecimento e revitalização da nossa cultura; sobre a responsabilidade de nos conduzir  no caminho do entendimento e do  comprometimento na construção dum  universo sócio-cultural,assumirmos que lidar com o nosso Património é lidar com o espelho do país.Aprender e Defender o Património é também fazer Portugal.

Fernando Morais Gomes