Painel de Administração
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| Luís Bento põe Lusitânia Online |
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| Sexta, 01 Janeiro 2010 13:57 |
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Luís Bento tem 44 anos e uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas. Participou esporadicamente nos anos 80 na imprensa. Gere actualmente o blog http://bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com/ Fez uma edição de autor através de uma editora independente no Brasil do livro Lusitânia Online, uma súmula de contos seleccionados de crítica de costumes, tendo outros em preparação.Depois de ter participado no encontro literário da Alagamares falou connosco de si e dos seus projectos
ALAGAMARES-Como e porque motivos o Luís Bento surge no mundo literário? LB-A necessidade de alinhavar umas quantas palavras com sentido e o interesse pela leitura manifestaram-se desde muito cedo. Na minha juventude devorava volumes sem destrinça de género ou corrente literária. Formei-me em Línguas e Literaturas Modernas, colaborei esporadicamente na imprensa nos anos oitenta e, apenas por acidente de percurso, acabei por desenvolver carreira na banca. Contudo, embora adormecido, o bichinho da escrita, a necessidade de intervir, de opinar, de tentar agitar consciências, acabaria por se manifestar de forma mais intensa, há cerca de dois anos, através da participação em blogues e da publicação de um livro de crónicas. Acima de tudo, foram a crítica social e de costumes e a análise do nosso quotidiano, os grandes responsáveis por esta presença recente no mundo literário. ALAGAMARES-Os seus textos assentam numa certa mordacidade e ironia, bem como nas memórias dum passado recente. Como definiria a sua forma de escrever? LB- Procurei sempre um ponto em comum para chegar a um público mais vasto. Fugir do humor fácil e aproximar-me, em maior grau, de uma escrita com qualidade literária ou, pelo menos, munida de alguma bagagem cultural. Os jogos de palavras, os duplos sentidos, a condução da história para um rumo e surpreender, repentinamente, o leitor com um rumo inesperado, o encadeamento sucessivo entre ironia e sarcasmo de mãos dadas com algumas referências culturais e algum domínio da língua, onde prevalece, sempre, um fundo moral e uma sensibilidade crítica, tornam-na numa escrita solta e ágil tratando os temas do quotidiano de forma universal priveligiando, acima de tudo, a valorização do indivíduo.
LB-Pelo contrário, estas ferramentas vieram democratizar o acesso à escrita e à edição. Sendo, tradicionalmente, um meio muito fechado, grande parte das pessoas, encontrou nestas ferramentas o modo de se expressar. Para além da possibilidade de pôr em contacto variados estratos sociais e profissionais, que de outra forma nunca trocariam ideias, estas novas ferramentas tornaram-se num veículo fácil, rápido e gratuito de dar voz a um pensamento popular que se está a tornar cada vez mais crítico e interventivo. É um processo irreversível! Blogues, sites, redes sociais podem evoluir para outras formas de comunicação, mas vão coexistir, em definitivo, com os livros. ALAGAMARES-Quais são as realidades com que um escritor ainda não consagrado se tem de debater para chegar ao grande público? LB-Extremamente duras. Meio fechado, receio da concorrência, status, desinteresse de críticos e editoras. Um mundo de acesso muito restrito ao qual só a ajuda de alguém conceituado ou um evento mediático e exterior à escrita poderão tornar possível o milagre. Neste sentido, a actividade da Alagamares é muito importante porque é mais um veículo que pretende dar a conhecer novos autores e novas formas de pensamento sem preconceitos ou pressões editoriais. ALAGAMARES-Quem são os seus autores de referência? LB-Indubitavelmente Miguel Torga, os neo-realistas e Lobo Antunes. Miguel Torga pela ligação telúrica, pela palavra pesada e trabalhada no sentido de descrever as condições das gentes da terra, reminiscências da juventude na aldeia.Os neo realistas pela forma de resistência ao regime, Lobo Antunes pelo artifício do trabalho literário. A escrita sai num jorro encadeada e enredada em pensamentos crus, irónicos, pequenas histórias delírios em ritmo intenso e contínuo. No final, a revelação do conflito interior do personagem ou do narrador que nos leva sempre ao ponto de partida e perante o qual não ficamos indiferentes. ALAGAMARES-Quais os projectos que tem no futuro próximo? LB-Para além de continuar a divulgar o Lusitânia Online, o meu primeiro livro de crónicas editado pela Editora Novitas no Brasil que circula na internet e que chegou recentemente a algumas livrarias, pretendo editar um romance, também ele uma saborosa crítica de costumes, construído em dois planos: durante o período revolucionário, um grupo de adolescentes vive e sobrevive às peripécias da época acalentando alguns sonhos e objectivos. No verão de dois mil e oito, o grupo reúne-se num jantar. Será o percurso em busca dos amigos que o fará concluir que todos eles falharam. À semelhança das personagens queirozianas, apesar da democracia e do maior grau de informação, algo nesta atmosfera lusa oprime a criatividade e a vontade de progredir, de ser diferente. A viagem pelas memórias fá-lo descobrir-se e descobrir a sua inadaptação aos tempos modernos onde, apesar da modernidade, acabariam por não evoluir e perder espontaneidade. No final, para além do desencanto com o rumo da revolução por parte de uma geração a atravessar a meia idade que se deixou engolir na voragem da cultura massiva da globalização, resta um final…inesperado que surpreenderá o leitor…. O romance chama-se Verde Código Verde e aguarda que alguma editora manifeste algum interesse na sua publicação. Paralelamente, aguardo uma resposta de um conhecido realizador de cinema sobre a história e vou continuar a publicar e a desenvolver alguns textos no meu blogue: http://bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com ALAGAMARES-Acha que a literatura das grandes causas passou? O que pensa da chamada literatura light? LB-Pelo contrário, é cada vez mais necessária. Sem literatura de causas não temos pensamento crítico. A literatura light, embora necessária, conta histórias onde os leitores se revêm no seu quotidiano retratado por outrem esboçando um sorriso, uma opinião, mas sem grandes análises filosóficas ou temáticas. A literatura das grandes causas é, hoje, cada vez mais necessária num mundo amorfo, globalizado, embriagado pelos apelos do crédito fácil e do consumo desenfreado. Há que alertar e agitar consciências! ALAGAMARES- Há uma "ditadura" dos grandes editores, hoje em processo de concentração no nosso país? LB-Até ao momento sim, mas o panorama vai mudar. Tarde, demasiado tarde, olharam para um mercado em ruínas de pequenos e médios editores e livreiros e tentaram uniformizar uma corrente literária: o retrato do quotidiano, mas, revelando-se este cinzento e sem graça, o público, gradualmente, afastou-se deixando de responder “à chamada”. Destruíram a pureza e a simplicidade de cada corrente ou tendência. Aperceberam-se agora disso iniciando, discretamente, um processo de venda selectiva. ALAGAMARES-A quem não o conhece, como convenceria a ler um livro por si escrito? LB-Pelo entusiasmo e persistência com que escrevo.Há muitas sub-leituras nas entrelinhas com o intuito de despertar consciências, numa escrita simples, diferente, de braço dado com a ironia e o sarcasmo, sem pretender ser erudita e onde, no final, apesar dos amargos de boca, a mensagem é de esperança numa reviravolta e numa finta ao destino.
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