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Rui Mário à Conversa com a Alagamares Versão para impressão Enviar por E-mail
Quinta, 11 Dezembro 2008 12:19
 
Rui Mário, encenador e professor, figura ligada à cena teatral sintrense através do trabalho dos Tapafuros, homem de cultura e do teatro, colaborador da nossa associação desde a primeira hora, falou à Alagamares sobre o seu trabalho, pensamento e planos para o futuro.

ALAGAMARES(A)-Rui Mário, você está ligado sobretudo ao trabalho dos Tapafuros, companhia hoje incontornável no panorama sintrense. Como e porquê nasceram os Tapafuros?

Rui Mário(RM)-O Tapafuros tem uma história muito interessante, nascida numa escola que não tinha na altura um pendor artístico. Na altura foi um professor de Filosofia, Carlos Amaral, meu amigo, que sugeriu que se apresentassem trabalhos na forma de pequenas coreografias, pequenas encenações, com grupos de três a cinco pessoas, e a partir daí, criou-se uma dinâmica turmal que se manifestava nos fins de período escolar, e quando se tinham de apresentar os trabalhos da escolha de cada grupo, e acontecia que no fim se reuniam cinco, seis grupos para produzir esses quadros teatrais.

A-E estamos aqui a falar de quantos anos?

RM-A partir de Junho de 1990, fim desse ano lectivo. A partir daí viríamos a formar o grupo em Novembro de 1990, quando este se apresentou extra-turma, tendo ocorrido uma representação em 14 de Novembro, com uma apresentação para a escola inteira.

A-Que trabalho foi esse?

RM-Foi uma coisa muito simples, uma coisa da nossa lavra, chamava-se “Entra mudo e sai calado”, e foi emocionante e inesquecível.

A-Contudo tendo começado como projecto escolar o Tapafuros passou a visar o grande público, como é notório desde alguns anos para cá. Quais os trabalhos que se seguiram e quem foram os colaboradores essenciais no projecto Tapafuros?

RM-O projecto foi muito bem consolidado em termos do seu crescimento natural. Após essa fase, alguns foram para a universidade, e o Tapafuros encetou uma fase para fora da comunidade escolar, neste caso visando a comunidade de Rio de Mouro, usando as infraestruturas da Escola Leal da Câmara, do Complexo Paroquial de Rio de Mouro, e dinamizando as estruturas dessa freguesia. Os projectos alargaram-se e a vontade de realizar três espectáculos por ano consolidou-se, a par da vontade de fazer espectáculos para crianças, sobretudo a partir de 1996 e a convite da Câmara de Sintra, segundo a qual éramos o grupo mais dotado para esse tipo de trabalho. Aliás, o trabalho para a infância e o teatro de rua marcam o trabalho do grupo.

A-Como é que encara o panorama teatral sintrense actual? Há uma cena sintrense no teatro?

RM-A cena sintrense tem vindo a ser construída, e teve uma pioneira na Companhia de Teatro de Sintra, que desbravou muito caminho. O primeiro espectáculo de teatro que vi foi do Teatro da Meia Lua, em 1989, e na altura fiquei muito surpreendido com o trabalho deles, que foi muito inspirador. A cena teatral daí para cá tem vindo a impor-se e tendo o concelho de Sintra crescido há lugar para muito mais cultura. Só para falar do nosso exemplo, nós temos estado a dinamizar há anos o largo fronteiro ao Palácio da Vila, a Regaleira, e já pensámos em dinamizar outros espaços, como Monserrate, o Palácio da Pena,etc. Há efectivamente uma cena teatral sintrense e ela prende-se com espaços monumentais que é pena não estarem ainda dinamizados, mas achamos que mais alguns anos e passar-se-á a compreender isso, quer em espaços estaduais ou privados que podem ser abertos à cultura.

A-O teatro no panorama actual está vivo, ou sofre com a invasão da sociedade da multimédia, do cabo…Acha que as pessoas se afastaram do teatro, ou pode-se falar dum retorno ao teatro?

RM-Penso que o ritual de ver teatro é essencial para o ser humano, e o teatro cada vez mais se recomenda, está vivo, as crises atravessam todos os segmentos da sociedade, não só o teatro, nós com cerca de 12.000 pessoas ao ano não nos queixamos. Fizemos agora um estudo sociológico que em breve será publicado, e do qual resulta que temos todo o tipo de públicos, desde o juvenil, ao universitário e de outras faixas etárias, muito diversificadas.

A-Das peças que levaram à cena, qual deu mais gozo participar?

RM-É sempre muito difícil falar disso, até porque tenho trabalhado mais como encenador do que como actor nos últimos tempos, mas dá-me muito prazer trabalhar com pessoas, e o desafio principal é passar ás pessoas a construção de um objecto artístico, isto é como juntos fazer coisas, e ultrapassar algumas propostas artísticas, como orquestrar esforços para a construção desse objecto artístico que é o espectáculo de teatro.

A-E sente que há uma renovação, quer nos actores quer no público?

RM-Há um crescendo. Eu sou professor da Leal da Câmara, e só este ano três alunos meus entraram no Conservatório, o que me deixa não só feliz como simultaneamente alarmado pelas dificuldades que trás, até pela dimensão do país e a capacidade de resposta a tanta gente que se quer profissionalizar.

A-Que tipo de teatro é que o público mais aprecia? Há um segmento que privilegia o teatro experimental ou o grande teatro do mundo?

RM-No século XXI muitos tipos de rótulos têm-se diluído, e há muita interdisciplinaridade que surpreende o público, mas ele está mais interessado em descobrir a novidade do teatro, que muitas vezes passa por ter os actores a respirar ali á sua frente, bem presentes, e isso não se poderá perder. O resto vem já do tempo dos gregos, e hoje complementado com a tecnologia.

A-Uma pergunta inevitável: Os apoios aparecem e são suficientes?

RM-Evidentemente que o ideal seria que fossem mais no incentivo ás artes. O Tapafuros tem procurado não estar á mercê desse tipo de apoios, com a bilheteira temos procurado colmatar e conseguir que os projectos sejam reais.

A-Planos para o futuro. Quais as próximas peças?

RM-Nós queremos continuar na Regaleira, com projectos de nome e de adesão com o público, nós caminhamos com o público, e por isso temos a adaptação para crianças do “Sonho de uma noite de Verão” de Shakespeare, e se tudo correr bem pegar n’ “A Tempestade”,a sua última peça. E também pegar num autor espanhol,Ramon Gomez de Serna, com uma viagem poética muito interessante.

A-Por fim: como definiria o teatro em duas palavras?

RM-Eu diria, para terminar que o teatro ainda é uma noite brumosa...