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Noite mágica em Galamares Versão para impressão Enviar por E-mail
Sexta, 15 Outubro 2010 17:21

Uma história de Fernando Morais Gomes

                      

Olhar absorto, dedos férreos, tez altiva. Na pequena sala, agradavelmente  decorada com pinturas campestres inglesas e tectos de flores em papel estampado, ecoavam  os acordes cristalinos daquele piano solitário, voz obediente de seu mestre e criador.

Viana da Mota  ensaiava para um concerto em  Galamares, no Cine-Teatro que em boa hora o Visconde de Monserrate,o  mecenas local, mandara erigir, pequena ilha  numa floresta de palácios altivos e férteis pomares, concerto para ajudar à electrificação da estrada até Colares, pedira a comissão de melhoramentos e  gostosamente anuíra.

Já à beira dos sessenta e cinco, sempre tivera Sintra no seu percurso. Desfiando aquele piano com o transe próprio de quem ama profundamente, ensaiava a sós o concerto que essa noite  tocaria a favor dessa luz tão necessária ao progresso.

Brincando com as notas, familiares e cúmplices,recordava aqueles anos já longínquos em que vindo duma roça nos trópicos aportara a  essa Colares húmida e silenciosa, onde brincara  em correrias e pescara no rio da sua infância. Os primeiros concertos no Salão da Trindade, jovem  e aplaudida promessa da música, virtuoso e  apaixonado. E acima de tudo , a felicidade daquele dia em que  a doce condessa Elise lhe anunciara  a vontade de pagar os seus estudos com Scharwenka, em Berlim.

Nunca esqueceria a emoção desse encontro no chalé de cortiça na Pena, e mais tarde da récita, onde jovem executante, perante D. Fernando , a condessa d’Edla e seus convidados, tocara  pela primeira vez  “Au bord du lac de Pena”, que compusera em sua homenagem. Gratidão de artista paga-se com arte, pensou.

Pela tarde,chegava entretanto o gerador da Sintra- Atlântico para iluminar a sala para  o concerto, que as famílias abastadas amavelmente pagariam. Viana da Mota ensaiava agora andamentos mais exaltados, levado pelo eco daquela sala ainda vazia.

Escolhera as “Cenas da Montanha” para abertura, o von Bullow sempre lhe dissera que era um dos seus temas mais conseguidos,partes da  “Evocação dos Lusíadas”a seguir. No fim, se a luz não falhasse, “A Pátria”, a sua imagem de marca,que   o visconde apreciava sublimemente e a plateia quase sempre reclamava.

Era 15 de  Setembro de 1923, o Outono afastava já os veraneantes para a capital, havia risco de não encher, disseram. Viana da Mota adorava o desafio, porém. Que viessem dois mas bons em vez de trinta a bocejar.

A sala afinal encheu, senhores de  fato impecável, senhoras com os melhores chapéus, os homens da Sintra-Atlântico, a cultura  juntando-se ao progresso. Cumprimentos, vénias, Guilherme Oram,feitor da casa Monserrate, verificando os pormenores, as tosses da praxe, a função.

Saudando em silêncio, com uma simples vénia, José Viana da Mota saboreou o silêncio expectante que sempre ocorre nos recitais, e depois dum momento sepulcral, qual guerreiro alucinado de espada em riste, esperando a fera desafiadora, espalhou o néctar inebriante da melodia redentora  sobre aquele cine-teatro ufano e orgulhoso, transformado num pequeno São Carlos de aldeia, mas nem por isso menos vibrante e atento. Toda a família do visconde assistia, Eduardo Gaio e esposa, ela também pianista  amadora, os Farias, da casa do visconde, bombeiros, autoridades. Algum povo, desconfiado e distante não deixava de espreitar ou ouvir no exterior.

Nessa noite mágica e luminosa, os tordos na serra fizeram silêncio, os sapos abafaram o coaxar, o som hipnotizado e hipnotizador  daquele piano  atravessou o vale e Monserrate,  agitando as acácias, e amenizou as almas . Galamares ganhava o seu pedaço de paraíso por umas horas.

Lá longe, em Lisboa, já para lá dos oitenta, a velha condessa tomava chá, e sorria, como se o som daquele concerto do tímido rapaz que um dia mandara para Berlim lhe chegasse levado pela brisa da noite.

 

O cine-teatro de Galamares, de 1916,encerrado desde os anos 70 e hoje quase recuperado