fechar

Painel de Administração

Webmail, login, publicação, back-end.

Administração
Tertúlia - "Mistérios de Sintra" Versão para impressão Enviar por E-mail
Sexta, 27 Fevereiro 2009 10:22
 
No dia 26 passado um novo jantar-tertúlia da Alagamares no restaurante D.Pipas, em Sintra, versando o tema "Os Mistérios de Sintra", mais propriamente sobre o esoterismo presente na história da nossa vila. 

Recebidos pelo presidente da Alagamares, Fernando Gomes, o jantar, de tão concorrido, foi sujeito a uma lista de espera, caso raro nas tertúlias sintrenses, e constituiu uma belíssima noite onde Sintra foi pensada e repensada por mais de 60 participantes.

Foram três os oradores: Victor Adrião, conhecido militante do esoterismo de SintraJoão Rodil, que a Sintra tem dedicado páginas de uma beleza maravilhosa, e Luís Filipe Sarmento, contestatário da existência de um espírito esotérico em Sintra, nomeadamente no seu conhecido romance "A Vida Social dos Ocultistas", já em terceira edição, se não nos enganamos.

Com efeito, o leque dos oradores não poderia ter sido mais bem escolhido pela Alagamares. As três posições sobre o Esoterismo estavam ali muito bem representadas, como se comprovou ao longo das intervenções dos oradores, gerando uma forte agitação na sala e até algum atrito por parte de uns jovens que, supõe-se, eram fiéis seguidores de Victor Adrião.

Este, na sua intervenção, fez jus aos seus livros entusiasmados sobre a existência de um mundo oculto em Sintra, que teria guiado desde sempre os passos dos sintrenses e da sua vila. Tomando uma pose arrebatada, lançando continuamente o olhar para o tecto, fazendo pausas voluntárias na locução de certas palavras que considerava importantes, meneando os braços e as mãos ao modo dos oradores evangélicos, Victor Adrião proferiu uma genuína lição inflamada sobre o esoterismo em Sintra, considerando-a terra sagrada e desvendando os poderes ocultos que, a partir da Serra e dos povoados em redor, a transfiguram em lugar hierofântico dePortugal. Verdadeiramente, o seu discurso recheia-se de uma terminologia estranha a Sintra, combinando as diversas tradições esotéricas orientais e europeias, que tanto a Sintra pode ser aplicada como à maioria das serras monumentais.

Discurso circular que convence quem já está convencido, Victor Adrião representou maravilhosamente o discurso esotérico, manifestando forte sabedoria na sua terminologia.

João Rodil apresentou uma versão radicalmente distinta. Partiu das lendas populares sintrenses, do espírito poético, lírico e religioso das populações, centrando-se sobretudo na referência às Nossas Senhoras cultuadas em Sintra, e evidenciou, na exacta posição teórica contraria à de Victor Adrião, que o único esoterismo presente em Sintra nasce de uma genuína mitologia cultural do povo, reflexo da sua vivência mítica, estética e religiosa, desprezando a conceptologia new wave , egípcia e oriental das chakras e outros termos totalmente estranho à história cultural portuguesa e sintrense, de que a globalização enferma pressurosa a nossa mentalidade, mais apressando a decadência da Europa.João Rodil, porventura hoje o mais insigne representante (guardião) da tradição cultural sintrense, evidenciou como o mistério que Sintra guarda não é fenício, egípcio, indiano, persa ou brasileiro, residindo antes na constituição transcendente, sagrada e estética da vivência e existência da comunidade sintrense ao longo da sua história, na sua relação com os astros(nomeadamente com a Lua), com as forças nocturnas e diurnas do mal e do bem, com as tradições dos povos que conquistaram e foram conquistadas. Foi, de facto, da parte de João Rodil, uma lição tanto de humildade quanto de sabedoria - uma intervenção absolutamente inesquecível.

Luís Filipe Sarmento assumiu uma outra posição - a posição presente na tradição iluminista e racionalista da civilização europeia. Alguém identificou a sua intervenção com o cepticismo de Kant e o empirismo crítico de Voltaire, mas também com a tradição crítica de Eça de Queirós face à intensa religiosidade dos portugueses. Para Luís Filipe Sarmento, o que ali se tratava, na tertúlia- jantar, tinha mais a ver com a superstição do que com os mistérios de Sintra.

Deu inúmeros exemplos de seitas religiosas e de organizações secretas, de que teve conhecimento por experiência própria ou por relatos e leituras, cujo único fito consiste na ultrapassagem de traumas psicológicos dos seus aderentes bem como da afirmação de poder pessoal dos seus "gurus". Foi uma pedrada no charco na intervenção de Victor Adrião, que respondeu agressivamente, sentindo-se ofendido.

Os jovens fiéis de Victor Adrião manifestavam-se ruidosamente, interpelando agressivamente Luís Filipe Sarmento, que se defendia, não amaciando, antes revalorizando as suas posições críticas, praticamente acusando de mentecaptos os seguidores do esoterismo. Por mais de uma vez Fernando Gomes teve de apelar à moderação.

Uma verdadeira noite sintrense como há muito não assistíamos, uma noite inesquecível. Ninguém convenceu ninguém, mas Sintra- mãe de todos nós- deve ter ficado radiante por ver ali os seus entusiasmados filhos debatendo-a. Parabéns à Alagamares.
 
Por Luís Martins e Filomena Oliveira