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Recital de piano:à conversa com Miguel Sousa Versão para impressão Enviar por E-mail
Terça, 01 Dezembro 2009 18:11

A propósito do recital de 5 de Dezembro que a Alagamares promove para evocar a passagem de 80 anos sobre o falecimento da Condessa d'Edla,entrevistámos Miguel Sousa, o jovem pianista que no sábado, no Palácio Valenças, em Sintra, pelas 16h executará cinco peças, entre as quais "Au bord du Lac de Pena," dedicado pelo então jovem Viana da Mota à condessa, com a idade de 13 anos.

          

Leia de seguida a entrevista,bem como o repertório do concerto:

 

O Miguel é um jovem intérprete de piano.Porquê o piano?

 O piano é um instrumento fascinante. A sua grandiosidade e potencialidade eleva-nos para um universo repleto de emoções e sentimentos, onde ambientes de alegria, diversão, raiva e tristeza contrastam entre si. Muitas vezes, até encontramos «lembranças sonoras» de outros instrumentos, sendo que o piano é frequentemente comparado com uma orquestra sinfónica, havendo muitas obras que remetem para essa dimensão. É verdade que é o instrumento mais fácil para começar a aprender (basta pressionar a tecla que o som é produzido); contudo vai-se tornando mais difícil à medida que nos é apresentado diferentes «toques» para dominar, e penso que seja esse desafio constante que cria uma ligação muito forte entre mim e o piano.

Quais os compositores que aprecia mais,portugueses ou estrangeiros?
 
De uma forma geral, o processo de formação de qualquer intérprete passa pelo reportório mundialmente reconhecido, por exemplo,Bach,  Beethoven, Mozart, Chopin, Schubert, Brahms, entre outros. Até à pouco tempo, o meu interesse focava-se somente nesse tipo de compositores, aqueles que me eram «impostos» por um sistema já um pouco ultrapassado. Recentemente, descobri outro tipo de reportório com qualidade e potencialidade que merece atenção por todos nós, nomeadamente obras de compositores nacionais, como o caso de Vianna da Motta, Fernando Lopes-Graça, Luís de Freitas Branco, etc.. Cabe aos intérpretes a divulgação da mensagem deixada por estes compositores, dando a conhecer outro tipo de obras que merecem o seu reconhecimento.  

Pretende evoluir para a composição ou deseja apenas singrar como intérprete?
 
O meu caminho centra-se na via de intérprete. Penso que a área de composição devo deixar para os especialistas que dedicam uma vida com a intenção de, a partir de uma série indeterminada de figuras e sons musicaiss, criar algo que nos leva para um universo que só a Arte nos possibilita do viver.
 
Quais os valores actuais, no panorama português que entende serem de maior valia e qualidade?
 
Relacionando com a área que mais tenho conhecimento, nomeadamente a da cultura, posso afirmar que o povo português tem uma vontade de conhecer algo mais e de viver novas experiências. E essa vontade é respondida por concertos, exposições, entre outras manifestações artísticas que tem sido cada vez mais divulgadas e expostas a um pública que retribui com satisfação.
 

Há um crescendo de intérpretes na área da música dita clássica em Portugal?
 
Em Portugal tem havido um número muito reduzido de músicos que realmente pretendem seguir uma via de intérprete, crescendo ,em contrapartida, o número de professores relacionados com a Música (tanto professores de instrumento como professores de teoria musical). Penso que esse facto deve-se ao espírito geral imposto de que não é «seguro» viver a partir da Música , sendo que muitos instrumentistas preferem não arriscar seguir por essa via. Mas também é verdade de que é necessário muito trabalho e dedicação para poder singrar em algo, quer seja na Música ou noutra área, e raramente se verifica essa vontade. Não há falta de oportunidades, mas sim falta de vontade.
 
O concerto em que vai participar no dia 5 de Dezembro inclui uma peça de Viana da Mota dedicada à Condessa d'Edla, sua mecenas.Qual o valor intrínseco  de Viana da Mota na cena musical contemporânea?
 
Vianna da Motta é um dos nomes mais marcantes no panorama musical nacional e internacional. Durante a sua vida, a sua actividade como intérprete ganhou uma reputação elevada ( chegou a ser aluno de um dos maiores pianistas de todo o tempo - Franz Liszt), sendo aclamado um pouco por todo o mundo. Como compositor, deixou um leque de obras que demonstram o talento pelo qual Vianna da Motta é reconhecido. Os seus trabalhos como pedagogo também foram louváveis, sendo que muitas obras de outras compositores foram revistas por Vianna da Motta, permitindo ao intérprete uma maior compreensão das mesmas.
Vianna da Motta foi um verdadeiro artista português, e prova disso é o «Concurso Internacional de Música Vianna da Motta»l, competição reconhecida internacionalmente que reúne pianistas  de todas as nacionalidades.
 
Quais os seus planos para o futuro?
 

De momento, pretendo finalizar a licenciatura em piano na Universidade de Évora, desenvolvendo em paralelo recitais pelo país. Como pretendo seguir uma via de intérprete, gostaria de explorar novas oportunidades de concerto a nível internacional, procurando novos palcos e novos públicos, dando a oportunidade de conhecer este tipo de Arte que é um pouco esquecida fora dos centros musicais (Alemanha, França, entre outros).

Miguel Sousa nasceu em Setúbal e iniciou os seus estudos musicais na Academia de Belas Artes Luísa Todi,tendo sido orientado na disciplina de piano pelo prof.Oscar Mourão.Em 2007 frequenta aulas com a prof.Daniela Ignazitto, do Conservatório Nacional, ano em que ingressou no Departamento de Música da Universidade de Évora,e aí  foi acompanhado pela profª Elisabeth Allen, entre outros, como Cristopher Bochmannm,Benoit Gibson.ou Amílcar Vasques Dias.

Participou já em concertos ao vivo, nomeadamente para a Antena 2.

 

O REPERTÓRIO

Sonata Pathétique - Beethoven

Trabalho  que reflecte a rebeldia do compositor com a rigidez da forma clássica de compor uma sonata. O primeiro andamento inicia-se de forma lenta e dramática para posteriormente se desenrolar  num movimento mais rápido e energético. O segundo– Adagio cantabile – transporta-nos  para um terrível sentimento de solidão. Foi nessa época que os primeiros sinais de surdez começaram a manifestar-se, causando um enorme impacto no espírito do compositor. Termina num andamento mais ligeiro e vivo.

Fantasia sobre "Forza del destino" de Verdi, de Giuseppe Martucci

Durante o período Romântico, era frequenta o uso recorrente de óperas para a escrita de obras para piano. Com base numa ópera escrita por Verdi, esta obra é uma mistura frequente de espíritos e emoções, surgindo um contraste entre um tema mais contido com um tema mais vivo e dançante.

 Au bord du lac de Pena - Vianna da Motta

Peça escrita aos 13 anos por Vianna da Motta, dedicada à Condessa d’Edla, demonstra o carácter mais genuÍno e  puro de um compositor em desenvolvimento. Com um tema inicial estável e equilibrado conjugado com uma melodia simples, sucedem-se  secções mais agitadas, que poderemos imaginar como o movimento da água, que umas vezes é equilibrado e sereno e outras  instável e até mesmo tempestuoso.

Improviso No. 4 em Fá menor,op. post. 142, Franz Schubert

Considerado como um dos maiores poetas musicais de sempre, este improviso demonstra algumas  facetas de Schubert que contrastam entre si, não havendo espaço para compreender cada uma das mudanças que ocorrem. Entre o carácter húngaro e o carácter mais melódico, Schubert  revela-nos um pouco a sua personalidade, que muitos indicam ter sido  perturbada por problemas mentais ,que se revelam na sua música.

 Ballade nº2 - Liszt

Esta obra, que segue uma orientação dentro da «música programática» (através da música é narrado uma história), conta a  história de  dois amantes que se encontram separados pelo mar, e a única maneira de se encontrarem passa por atravessar o mar. Todavia, numa tempestade, o homem acaba por morrer, deixando a sua amada desesperada ao ponto de cometer suicídio – a única maneira de estarem novamente juntos.Nesta obra ouvimos algumas passagens que se assemelham ao movimento do mar, que vai crescendo até culminar numa grande tempestade em contrapartida com momentos mais românticos que celebram o amor do casal. Uma obra de verdadeira emoção aliada a passagens virtuosas.